As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 252 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Mãe desconfiando, com motivo, da sua sinceridade,

da candura excessiva que dela se desprende.

 

†

DIÁRIO

 

Torno à leitura de Decameron de Boccaccio.

De Darthula de Ossian.

Da Ilíada de Homero.

Dos sonetos de Shakespeare.

Vou até onde ouso nas asas da poesia e do sonho, profundezas com negrumes de subsolo; aí chegou Orfeu para em vão resgatar Eurídice. Lugar onde não se pode resgatar da morte é a morada de um crime; Sala de Armas, ódios e guerras, que em si mesmas permanecem num último suspiro, reduto ou equívoco, mas também seu testemunho contrário.

Pergunto:

Onde ficaram perdidos os heróis?

Lisboa, 30 de Março de 1800

†

Embora contrariando a vontade do marido, Carlota Joaquina, poucas semanas depois do parto da infanta Maria Francisca de Assis, torna a animar o palácio de Queluz com as serenatas, os saraus de música e os bailes de gala, onde o minuete está na moda.

Nas estantes dos cravos de charão voltam a equilibrar-se as partituras de Gluck e nas dos pianos os concertos de Mozart, de Haendel e de Haydn; embora ela não esconda preferir os boleros e as malaguenhas dolentes de sensualidade ferida, assim como as modinhas brasileiras, para melhor colmatar e aliviar a tensão a que nos últimos tempos estivera sujeita.

Juntamente com as suas damas espanholas, camareiras e jovens açafatas, a Princesa Real quer alegrar os dias da primeira primavera de 1800, demonstrando assim às velhas fidalgas, de quem troça, quanto tinham sido supersticiosas e ignorantes ao acreditarem nas bruxas e nos falsos profetas que anunciavam o fim do mundo com a mudança do século.

Carlota Joaquina jamais dera ouvidos a essas desgraças apregoadas, escarnecendo dos versos de cordel dos cegos e aborrecendo-se de morte nos salões esvaziados de Queluz, devido ao medo dos fidalgos iletrados que, temendo os catastróficos presságios, se refugiaram nas igrejas e nos oratórios de suas casas.

A posição lúcida da Princesa agradou a Leonor, e quando ela a mandou chamar ao Palácio de Queluz acorreu sem demora, sendo recebida pela Princesa Regente, recostada em almofadas de seda da Índia e cetim debruado a ouro no sofá da sua sala de trabalho.

O rosto comprido de cigana guardava uma expressão sonhadora e quase doce que Leonor lhe desconhecia. Indolente e lânguida, livro de poesia de Calderón de la Barca aberto no regaço de rendas e opalas.

†

Delfim franzino e delicado na sua magreza de criança cismada, Francisco António Pio é um menino silencioso, desconfiado, adivinhando-se príncipe por um incerto e enganoso destino que nem sequer merece, demasiado maleitoso para ser herdeiro do trono de Portugal, como lhe dizem as palavras e os olhares apiedados, estouvados ou cruéis daqueles que o rodeiam. Por isso ele se afasta, se esgueira, arrastando o leve peso que, no entanto, é demasiado para tão poucos anos da sua vida quebradiça.

Estranho aos protocolos e às etiquetas, às cerimónias, às serenatas, aos «Te Deum», às viagens de pressa entre os palácios, por onde vai passando arrastado por amas e aias e camareiros, atrás dos Príncipes Regentes seus pais que mal conhece, acabando sempre por regressarem aos labirintos do Palácio de Queluz, que ele prefere, e os quais conhece como ninguém:

os corredores sombrios e os recantos escuros, escusos, esconsos, os paióis de pólvora, os esconderijos fatais de onde não se regressa, as celas subterrâneas de estreitas janelas com grades, lugares de névoa nos quais ainda se ouvem os gemidos de quem lá esteve prisioneiro, cárceres que Francisco António Pio respeita e evita, contornando-lhes as portas pesadas chapeadas de ferro, seguindo depois na busca do imbricamento das fundações e dos alicerces do Paço.

Dédalo.

Percorrendo com os longos dedos suaves as fendas das paredes grossas e cheias de salitre das caves obscuras, das cisternas onde a água ganha o tom parado e ameaçador da cinza em que se transforma a lava, das minas geladas onde a maior humidade se aninha; lençóis de água imobilizados, perto dos quais ele sente subir a sufocação no peito fraco, a estrangular o seu débil fôlego de Delfim doente. E o Principezinho da Beira segue uma absorta rota aleatória, na perseguição de sonhos, de feitos, de heroísmos, medos e adivinhamentos, a desassossegarem-lhe o olhar aflito.

Na teima de encontrar a marca indelével de presenças morosas e indefiníveis, cicatrizes e pegadas, pistas que o tempo se encarregou de apagar mas ele pressente naqueles sítios suspeitosos e inquietantes onde julga adivinhar silenciosos vultos esgueirando-se, imaginando escutar sussurros e choros de que dá conta, arrepiado.

Nunca desiste, porém, como quem segue errante um itinerário umbroso e inexorável, indo pelos depósitos, as tulhas, as despensas e as arrecadações em que se amontoam os despojos das salas e dos quartos, da capela e dos oratórios: talha, véus de renda, genuflexórios, mãos e cabeças de santos decepados, aqui os olhos de Santa Luzia numa bandeja de prata, ali o coração de Jesus trespassado de setas, os linhos e os buréis, os cortinados de veludo à mistura com vestidos de aparato, luvas de punho alto e capinhas de cetim trancados em arcas mofentas, a desprenderem quando abertas um cheiro acre a suor retardado.

Pela hora da sesta dos dias mais tranquilos de verão quente, embora correndo o risco de se encontrar com D. Inês Telo de Menezes, sua mestra oficial, ou com os camareiros açodados que se afligem a procurá-lo, Francisco António Pio atreve-se a subir até às salas e salões vazios, que atravessa cerzido às paredes cobertas de damasco e de panos de arrás, e como uma leve sombra desliza sem ruído, semicerrando as azuladas pálpebras na tentativa de quebrar a luz que o encandeia, ainda cego e atordoado pelas penumbras das profundezas do palácio. E se por acaso se cruza com as anãs da Corte, pois só elas se atrevem a desrespeitar as horas de silêncio e de descanso do Paço, o Príncipe desvia-se dissimulado, evita-lhes o arrazoado e as graças ferinas, e sem querer ser descoberto sobe correndo com passos de feltro até às águas-furtadas, empoeiradas e cobertas de dejectos dos pássaros que entram pelos vidros partidos da clarabóia; sótão onde se aninha no chão empoeirado, exausto e enroscado em si mesmo, a sujar ainda mais o fatinho azul-cobalto com a gola branca de renda.

Imensos olhos escuros aluados.

†

– Não quero esconder do senhor meu Pai que mandei uma carta a Pedro, a aconselhá-lo a vir à Corte explicar-se com o Príncipe Regente sobre o caso do tal juiz de Abrantes, com quem o mano tem aquela pendência por resolver.

– Disseram-me que esse juiz até já foi à Corte queixar-se aos ministros do teu irmão…

Leonor olha o Pai com curiosidade: parece-lhe detectar na sua voz uma nota dissonante, trémula, de quebra ou submerso soluço calcado no fundo, que ela nunca lhe ouvira. No entanto, o seu rosto impassível e fechado desmente qualquer fraqueza.

– Por isso mesmo Pedro tem de vir! Como lhe mandei dizer, «não falta na Corte quem procure destruir no Príncipe a inclinação que este mostra ter por ti.»

– O teu irmão contribui para tal, com as confusões em que se mete. Embora desta vez me pareça que a balança possa pesar mais para o lado dele.

Percebendo que a voz do Pai voltara à habitual consistência, Leonor atreve-se a confessar:

– Ainda não percebi qual foi a causa da desavença do mano com o tal juiz. Seja como for, as acusações contra ele só serão ultrapassadas com a sua presença e com o que ele mostrar a seu favor.

Mal Leonor parte de Almada, D. João senta-se à secretária e escreve ao filho, embora sem esperança de ser escutado:

«Quando toda esta história começou, lembro-me de te ter dito que não via outro remédio senão vires tu a Lisboa esclareceres o assunto. Fizeste orelhas moucas à minha opinião, mas diante do agravo que o assunto levou, sinto-me na obrigação de repetir o já dito e escrito: não tens outro remédio senão vires depressa falar com o Príncipe. Desse modo terás ocasião de destruir o que contra ti continuam a armar.»

†

Perturbada, lê as palavras de Gonçala,

chegadas de manhã bem cedo num papel enrodilhado de tantas vezes ser escondido, lido e dobrado sobre si mesmo:

«Não é do desperdício da minha vida que te quero falar, Leonor, nem da tua longa ausência a que já me acostumei, pois aprendi a sublimar a dor ou nela lembrar-te como te conheci. Mas tantos anos se passaram sem nunca mais nos vermos, que já nem sei se o rosto que recordo é mesmo o teu, se outro inventado pelo meu sonho, pelo meu desvelo e devaneio a teu respeito, supondo-te a meu lado durante as madrugadas de febres altas e delírios, arrecadados dentro de mim mesma.

Alumbrada.

E por isso te escrevo,

não querendo desaparecer desta vida sem tempo nem modo de te dizer da minha gratidão por me teres levado a abrir a janela do espírito, vidros e portadas de madeira grossa das quais aprendi contigo a correr o trinco de ferro temperado, e em seguida permitir-me sem medo deixar partir a imaginação como pássaro voado ou águas de rio em si mesmo incontido, até se misturarem com as outras de onda, tão salgadas quanto as minhas lágrimas a comparar com as tuas, que sempre me pareceram doces quando tombavam na minha pele e na minha face, semelhantes a chuva.

Contas de um rosário de pérolas, que tu Leonor desejarias poderem ter sido de rubi dos sangues clandestinos, como os das mulheres encobertos por baixo dos hábitos e das saias. Tu, na pressa de um escândalo ou de um milagre que te deixasse fugir, e eu a segurar-te, temendo o arrebatamento e a rebeldia que um dia iria fazer-me perder-te; quando eu na verdade nunca te tive mais do que o tempo das novenas, das missas, das horas canónicas…

Como confessar-te então, das setas de luz ardente e dos delírios, dos lírios que entretanto descobri rodearem e ampararem Teresa de Ávila nas suas visões, exaltações a arderem hoje na minha cela, iluminando-me as noites repassadas por muitos negrumes.

Tu que foste a Ávila

e fitaste o que Teresa olhou, e tocaste com os dedos ao de leve nos sítios onde os dela passaram, a buscares ouvir as suas falas e rezas e desejos exasperados de excesso. Tu que sempre me entendeste nos desvios e na estranheza, e jamais como as madres a tratarem-me de louca, a trancarem-me, a fecharem-me à chave, recuando assustadas pelo modo como me diferencio delas; a benzerem-se e a purificarem-me, tementes diante do que cuidam ser o maligno, desde que me descobriram as manchas, as feridas, as chagas do corpo. Mandando chamar em correria os padres confessores, a fim de me exorcisarem às escondidas, pelo avesso da claridade.

Mas tudo isto ignoras, Leonor,

desconhecendo também como entretanto aprendi a tirar da existência sem esperança o meu próprio devaneio e incêndio ou anseio e arremedo de êxtase; amordaçada pelo desejo de ir mais longe, subir ao topo do mundo e aceitar-me tal como sou sem dimensão possível, só me restando a transparência, a transfiguração, a transcendência…

Poeira, nem mais, ou jactância?

E se nos meus desmaios me elevo rasteira um pouco acima do chão, expondo assim o que está para lá do material, é por não suportar mais a mediocridade, a pequenez e a ignorância de que estou rodeada,

Leonor,

e por isso não temo a morte mais do que saber-me viva mas aprisionada por trás das grades de um convento, algemada a uma vocação que jamais tive.

Mulher na humilhação e no desassossego, desde sempre a ter de disfarçar a inclinação para a rebeldia, a liberdade. E é sobretudo em nome dessa ousadia que eu te escrevo, Leonor, e te peço em nome do que já fomos uma para a outra que não me deixes morrer sem antes vires pela última vez,

a estares comigo.

Eu quebro-me pela haste, minha rosa-da-índia.

†

Ele mistura-se com a sombra da janela de friso. E fica a ver Leonor de longe, distraída dos outros, enquanto a serenata vai seguindo à sua revelia. Desatenta das luzes das velas dos lustres de cristal de Morano, com flores de cores brandas, ligeiramente encostada ao tremó onde a sua face está reflectida.

Inquieta.

Pálida.

O olhar fugindo por entre os músicos, os grupos que se formam e logo se desacertam, por entre os risos, a música de que habitualmente tanto gosta, mas desta vez alheia mesmo aos versos recitados.

Catarina de Lencastre chega rindo junto dela mas, ao perceber a perturbação da amiga, toma-lhe o braço e, inclinando-se, fala-lhe ao ouvido. Adivinho mais do que distingo o seu sorriso triste, por entre o desânimo que lhe ensombra a alma, e a certa altura percebo estarem a falar de D. Pedro de Almeida pela maneira como uma e outra o fitam enquanto conversam.

O jovem marquês de Alorna que, junto da porta que abre para o jardim de Malta, fala com o ministro Luís Pinto, tentando por certo esclarecer o diferendo que nos últimos tempos o tem vindo a opor ao juiz de fora da cidade de Abrantes onde ele e a Legião Alorna foram colocados, está longe de supor ser o centro privilegiado das atenções da grande maioria das pessoas presentes.

Sentada ao fundo do salão, a Princesa Carlota Joaquina

não tira dele os olhos cismados.

†

Eugénia de Meneses tenta passar despercebida, apesar do seu vestido de nuvem branca com folhos de neve. Do seu lugar de aia da Princesa, vê o Regente D. João atento à calorosa conversa entre o ministro Luís Pinto e Pedro de Alorna, tentando ler nos lábios deste as palavras às quais afinal se tem esquivado desde a chegada do general a Lisboa.

Como se sentisse fixada nele a atenção de Eugénia, o Príncipe sobressalta-se, olhar desnorteado a buscar o seu, antes que ela se resguarde e baixe os olhos sobre as mãos morenas e finas, entrelaçadas no regaço ameno.

Sem nenhum capricho.

†

Debruçada sobre o caderno, capa com flores toldadas de um tom velado de rubi escurecido, Leonor vai dissertando sobre os seus pensamentos, permitindo-se correr o risco de os seus inimigos poderem um dia vir a ler aquilo que escreve, em jeito de desabafo e de crítica. Descuidando por momentos a atenção a que sempre se obriga.

À sua roda palpita o mundo que ela pretende agarrar através das Luzes: o conhecimento, o estudo. Teimando em não abrir mão da vida a que tem direito, a querer deslindar tudo aquilo que, para ela, se mantém um enigma.

Por vezes parece perder-se a olhar a profundidade do espaço, abóbada celeste crivada de estrelas ou aturdida de claridade. Noutras ocasiões vai até à beira-mar, onde fica imóvel a tentar adivinhar o que poderá haver para lá do horizonte. A pretender desvendar o motivo do empenho das ondas esmeraldadas em iludir aquilo que no seu corpo de água permanece tão assustadoramente insondável.

Os mistérios atraem-na através da razão que os explica.

Quem sabe se do coração do poema?

Versos que a amparam e a ampliam, nunca se esquecendo todavia de burilar a sagacidade. A finura e a argúcia tão necessárias para o jogo da política. Sem elas jamais poderia manobrar, como faz com arte, por entre os destemperos da Princesa Carlota Joaquina, o desespero emudecido da Rainha D. Maria, as panaceias e as melancolias amedrontadas do Príncipe D. João que, numa constância obscura, tenta contornar as intrigas, atento às armadilhas montadas pelos ministros e fidalgos que lhe são adversos.

Acautelando-se contra as perseguições das quais sabe ser alvo exposto, Leonor esgueira-se diante das insídias, das calúnias viperinas, esmerando-se no evitar das ratoeiras armadas debaixo dos seus passos. Ciente do perigo que corre ao ajudar a Princesa Real a opor-se à vontade poderosa do Príncipe Regente; mas também a fazer frente ao poder dos ministros, dos cardeais e dos fidalgos.

Depois de subir um pouco a renda do punho do vestido esmeralda, Leonor inclina-se mais para continuar a escrever:

«A corte é um abismo onde as pessoas de bem muitas vezes naufragam. Os cortesãos são como o mármore, duros e polidos; é preciso evitar chocar contra estas pedras. Não há ponta de sinceridade na Corte. É necessário ser-se muito reservado, muito prudente; tendo atenção a jamais ferir o amor-próprio de ninguém. Deste modo terão os outros mais dificuldade em ferir o nosso.»

Leonor está tão absorta que não dá por Frederica, que a olha do resguardo da porta entreaberta.

†

O marechal general duque de Lafões, querendo ganhar o transporte amoroso de Henriqueta esposa arredia, deixa-a julgar ter ganho com a sua persuasiva pressão e acede em ficar do lado do general Alorna no ridículo caso da recusa dos víveres para a Legião das Tropas Ligeiras por parte do juiz de fora de Abrantes.

Indo mesmo mais longe, ao levá-lo como seu ajudante-de-campo na inspecção que resolvera fazer pela Beira e Alentejo, começando exactamente por Abrantes. Não poupando elogios ao trabalho por ele desenvolvido, promete-lhe melhores condições e mais fundos para continuar a preparar as tropas e o terreno, a fim de se fazer frente às tropas inimigas.

Quando o duque volta de Portalegre, onde fixara o seu quartel-general, e conta à mulher que fizera as pazes com Pedro de Alorna, esta, radiante, vai na noite seguinte à assembleia de Leonor de Almeida e, afastando-a sem qualquer explicação da companhia de Bocage e de Catarina de Lencastre, dá-lhe conta do êxito da sua interferência junto do marido no que diz respeito a Pedro.

Lafões, pelo contrário, sempre que vai ao Paço parece evitar Leonor que, percebendo os esquivamentos constantes e o olhar fugidio do duque, desconfia das suas boas intenções, ficando a temer pelo futuro do irmão.

†

D. Maria debate-se com a estranheza de ter todo o tempo do mundo para gastar com o nada que é o vazio da sua vida, agora sem nenhum sentido. Aos fins de tarde passeia na companhia de D. Mariana de Arriaga, a sua dama mais fiel, pelas alamedas perfumadas dos limoeiros doces, a deixar-se emaranhar um pouco pela sombra do caminho que do Palácio de Queluz parte em direcção à Matinha. Tendo sempre o cuidado de se afastar das jaulas das feras e das gaiolas dos grandes pássaros aprisionados, que nas horas abrasadas, quando o sol bate de chapa nas grades, soltam os seus urros e gritos estridentes.

Destronada pelo filho, a Rainha, embora pareça conformada, entristece, definha. E apesar dos rumores, dos boatos sobre os ventos gelados da guerra que giram pelo Paço, fica a maior parte dos dias revivendo o passado. Demorando-se ora na infância feliz, ora nos primeiros anos do seu reinado, apoiada pela forte relação de casamento com Pedro seu tio, esteio e afecto incondicionais. Pai dos seus filhos, embora jamais tivesse ocupado o lugar do amante e do amado. Mas, na vida dela, a paixão sempre fizera parte da substância do sonho, não da realidade.

É quando vence a depressão profunda que a Soberana revive melhor as suas memórias: quer as longas caminhadas a cavalo ao lado da mãe, cavaleira exímia vestida com o seu fato negro de amazona, chapéu com uma pequena pluma fulva tremeluzindo ao vento, quer o dia em que fez o seu juramento na hora de ser coroada primeira Rainha de Portugal.

Por pouco escapando à lei sálica.

Reinado rodeado de hostilidades, num encruzilhar de traições, de farpas aguçadas e palavras de gume afiado no seu fio e ponta de aço; de conselhos envenenados, urdiduras laminadas e enredos; insídias e perfídias e deslealdades…

Num tempo sem rasto de esperança.

†

O Príncipe Regente procura com os olhos Eugénia de Menezes, que sempre encontra entre as esfuziantes damas espanholas de Carlota Joaquina. Pequena e delgada como uma menina que já não é, com a sua pele macia de morena clara, olhos esquivos e escuros de portuguesa, pescoço alto onde os cabelos castanhos se anelam para em seguida tombarem como uma cascata nos ombros despidos.

É neles que D. João fixa por segundos o olhar sonolento, estremecendo de espanto ao sentir o coração apressar-se no peito opresso. Incomodado, afasta-se para o seu gabinete de trabalho, tentando inultilmente desviar o pensamento da tímida neta dos marqueses de Marialva, que o atrai pela beleza discreta e meiga, mas sobretudo pelo feitio submisso e sensato. Cansado de ter a seu lado uma mulher fria, agressiva, de natureza determinada e calculista, que exige ter sempre uma palavra a dizer nos negócios de Estado. Usando ultimamente a seu favor o facto de ser conhecedora privilegiada do que está a acontecer na Corte de Espanha, através da correspondência trocada com o irmão.

D. João, sentindo no ar o travo do «perigo militar que ameaça Portugal», e consciente da grande debilidade das forças armadas portuguesas, incapazes de enfrentarem uma batalha, e menos ainda uma invasão, encarregara Pedro de Alorna de apresentar um plano para a reorganização do exército.

No final do ano anterior, já ele tinha entregado um exaustivo e minucioso relatório a que chamou «Reflexões Sobre o Sistema Económico do Exército», que até agradara ao Príncipe, embora este não tivesse dado aplicação a nenhuma das suas propostas. Incapaz de encontrar em si mesmo determinação para refrear as intrigas, as iras recalcadas e os desapreços contra Pedro de Alorna da parte do duque de Lafões. Sem forças, firmeza nem ânimo para controlar jogos de poder e pressões que sempre surgem quando se trata do jovem marquês de Alorna ou de sua irmã D. Leonor de Almeida, de quem o Príncipe Regente particularmente desconfia, pela má influência que crê ela exercer sobre Carlota Joaquina.

D. João acaba por se sentar diante da secretária, imerso no habitual sentimento de solidão. No dia seguinte convoca o Conselho de Regência e anuncia ter decidido chamar com urgência da Alemanha o conde Goltz, a fim de preparar o exército para os inevitáveis confrontos com as tropas francesas e espanholas.

†

Para se distraírem do sobressalto que lhes trazem os rumores de guerra cada vez mais próxima, Catarina e Leonor decidem ir ao Real Teatro da Rua dos Condes ver a peça Mérope, de Voltaire, cuja adaptação acaba por cobrir de ridículo aquilo que o autor pretendia dizer. Representação à medida da pobreza de espírito que impera em Portugal, onde cada vez parece ser mais difícil encontrar indícios de sabedoria e de inteligência.

Da segunda parte do espectáculo consta um bailado que desconfiam não ir suportar, saturadas da falta de talento e fealdade. E quando chega o intervalo levantam-se ansiosas por fugir dali, forçando a passagem por entre as pessoas que atravancam os corredores estreitos. Avistam o sueco Carl-Israel Ruders, que já as tinha cumprimentado ao cruzarem-se à chegada.

Durante a peça, o seu olhar castanho e lânguido havia-as procurado, subindo da plateia até ao camarote onde se encontravam, troçando à socapa, a coberto dos leques, dos ademanes dos actores a tentarem, em vão, adaptar-se aos papéis femininos: alguns de barba e bigode, pêlos negros a escaparem das golas e dos decotes castos de virginais vestidos brancos, que não lhes disfarçam os corpos masculinos, apesar das anquinhas, a escorregarem nos quadris direitos.

Quando estão a tentar romper por entre os grupos ruidosos que se amontoam, avistam o duque de Lafões a acenar-lhes de longe, redingote de seda azul-forte bordada a prata, seguindo no rasto encantatório da sua jovem mulher Henriqueta de Meneses em traje de corte: sapatinhos de salto, pequenas plumas brancas a adornarem-lhe os cabelos negros semeados de miosótis e rubis, evidentemente mais interessada na companhia da marquesinha de Tancos, que vai deslizando à sua frente, penteado de cacho e fato escarlate rematado a ouro na bainha e nas nervuras das mangas, pulseira de brilhantes no pulso de criança, mão trémula e lívida prisioneira entre os longos dedos da belíssima condessa de Soure, que acerta o passo pelo dela.

A sege que Leonor mandara esperar, parara junto do Pátio do Conde da Ponte, um pouco antes da Rua das Portas de Santo Antão, não muito longe da entrada para o teatro. Apesar de tudo têm de andar um pouco, a desequilibrarem-se nas pedras soltas e cortantes, a enterrarem os pés na terra húmida, passo dificultoso e incerto a que a delicadeza dos sapatos obriga.

Aconchegam melhor as capas de veludo em redor dos ombros nus, mostrando a esmeralda de cetim do forro, avesso a emoldurar as faces de Catarina que dera o braço trémulo a Leonor, assustada com o escuro da noite onde a luz macerada dos raros candeeiros de azeite não penetra.

Atardam-se uns segundos, enredadas no frio áspero que arrepia Lisboa naquele outono. Os olhos de ambas a divagarem pelas estrelas brilhando por entre as nuvens empurradas por um vento agreste a cheirar a rio. E é ao descer o olhar do céu, entrecortado de brilhantes no seu luzeiro de estrelas, que Leonor depara com Pina Manique, a quem reconhece de imediato, parado à esquina da travessa estreita.

Olhar fixo, a fitá-la com demora.

†

Encontra-se na Real Quinta de Caxias a acompanhar a Princesa Real, quando é procurada por um postilhão que, muito agitado, lhe entrega uma carta, dizendo-lhe vir da parte do general Alorna, entretanto preso na Torre de Belém.

Leonor empalidece, mas não querendo mostrar nenhuma fraqueza a quem a olhe, afasta-se antes de começar a ler o que lhe manda dizer o irmão na sua letra cerrada: «Mana, eu parti com ordem do Príncipe»… Corre os olhos pelo papel amachucado, salta palavras, corre sobre as frases sem conseguir descobrir à ordem de quem o irmão está preso, até que, bem a meio, lá está a frase que temia: «Estou preso pelo duque de Lafões, mando as minhas patentes ao Príncipe.»