As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 237 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

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O padre Foios deixou-me visitar Bocage, que me pareceu magro, enfraquecido, demasiado apático para a sua habitual vivacidade e demasiado passivo para a sua conhecida truculência…

Pelo meio de longas pausas, contou-me como a leitura todos os dias o salva ao permitir-lhe escapar para fora do hospício, ao dar-lhe acesso a incontáveis universos diferentes.

No final do nosso encontro contou-me já ter traduzido Henriade, de Voltaire, e Pharsalia, de Lucano; neste momento está a traballhar nas Metamorphoses de Ovídio. E ao perguntar-lhe eu se tem escrito poesia, limitou-se a fitar-me longamente,

com um olhar ensombrado.

Lisboa, 20 de Junho de 1798

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O sentimento profundo de D. João de Mascarenhas por Leonor Benedita firmou-se através do agrado que sente pelo sossego no qual ela se disfarça nas assembleias de sua mãe. Atento a tudo o que se diz e acontece à sua volta, ele vê-a ficar emudecida embora intensa, interessada e discreta, despojada de si mesma.

Sem participar nas discussões.

Sem glosar motes.

Sem declamar poesia.

Sem expressar as suas opiniões, seja aquilo que aprova ou o que a descontenta. Repara também como, no entanto, os seus olhos brilham de entusiasmo ou os seus lábios se crispam de desagrado. Dando conta ainda de como as suas mãos esguias e quase translúcidas se encrespam como se fossem vagas, uma a conter a outra sempre que algo, quem sabe, a possa ter enfurecido num silêncio contrito.

Ao lado da cintilação de Leonor de Almeida, sua mãe, ela sobressai pela contenção e pela sombra na qual se abriga. Desse modo defendendo a sua particularidade, a sua individualidade?

D. João não sabe, mas aproxima-se.

Com vagares e cautelas de caçador: primeiro o arco e a flecha, depois a pontaria, e só por fim o disparar da seta. E quem poderá adivinhar se, no final, o golpe de misericórdia…

Trava então conhecimento com Juliana e Frederica, usando como elo de ligação a prima delas Leonor da Câmara, que conhece dos saraus musicais que ele promove na casa de Benfica. E usando sempre das maiores prudências, acaba finalmente por chegar à fala com Leonor Benedita.

Acautelada.

Contida.

Não lhe parece tímida, antes sim melancólica e desencantada; submetida a negrumes de alma suspeitosa que ele julga reconhecer, talvez dos próprios sonhos.

Respeita-lhe a mudez, e deixa-a habituar-se à sua presença próxima mas reservada, confiável; ao mesmo tempo persistente e afável, interessante e desinteressado. Ora ansioso e comedido, ora afoito e enleado, revolvido, seduzido…

Como quem está a enamorar-se dela.

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A Princesa Maria Francisca Benedita caminha sozinha ao final da tarde pela alameda das faias do Palácio de Queluz, quando descobre a condessa de Oeynhausen sentada num dos bancos de pedra com um livro aberto no colo, distraída com os barcos das infantas a passearem no Canal de Azulejos nas águas do Jamor. Aproxima-se para a cumprimentar e, ao ver Leonor erguer-se, inclinando-se numa vénia discreta, logo lhe faz sinal no sentido de ela voltar a sentar-se, mas desta vez a seu lado; e antes que comecem uma conversa de circunstância, como está cansada de ver na corte, pergunta-lhe directamente:

– Se eu for até às Caldas esta temporada, a senhora Condessa está interessada em fazer parte da minha comitiva?

E Leonor, que sempre sentiu por D. Maria Francisca Benedita grande afeição admirativa, responde-lhe com um sorriso aberto e num tom de absoluta sinceridade:

– Irei seja para onde for com Vossa Alteza, sempre que a minha companhia vos apeteça.

– Se me resolver a partir mandarei prevenir atempadamente Vossa Excelência. Gostaria de aproveitar para ir a Runa verificar em que ponto estão as obras do Hospital dos Inválidos Militares –, diz ainda a Princesa, tocando ao de leve na mão que Leonor pousara em descanso sobre a capa encadernada de La Princesse de Clèves, de Madame de La Fayette.

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Ultimamente, nos seus pesadelos tumultuados, D. Maria vê-se menina ainda de quatro anos de idade, vestida de sedas e brocados, folhos e laços, faixas de cetim e rendas, a emaranharem-se, a arranharem-lhe as pernas e os braços. E a Soberana, revolvendo-se na cama, revê-se assustada junto da irmã, as duas sentadas no coche apressado por já terem partido tarde das festas de São João em direcção a Lisboa. A Rainha D. Maria Ana, sua mãe, não quer que a noite as apanhe voltando de Queluz, pelos caminhos de terra solta e esburacada, pedregulhos, troncos e ramos de árvores a desequilibrarem as carruagens que seguem na esteira do crepúsculo.

As princesas às vezes aquietam-se amedrontadas.

Mas logo se distraem umas com as outras, em risos e jogos num grande à-vontade, pois ali não as escutam as aias, as camareiras-mores ou mestres-de-cerimónias, e a preceptora adormecera de cansada. Irrequietas, as infantas atropelam-se a quererem espreitar pelas pequenas janelas, quando à saída das povoações os cães as perseguem ladrando alto, ou se por elas passam carroças puxadas por mulas, animais de pasto, quando o povo se junta nas bermas das estradas a aplaudi-las e à Rainha, que da sua carruagem acena e apressa o cocheiro, que fustiga os cavalos.

Mergulhada no sono, D. Maria sente a estocada do medo, como se os lobos as cercassem cada vez mais perto, e quando a noite desce, a menina que ela é no sonho senta-se encolhida junto da irmã entretanto adormecida, a quem chama baixo «Maria Ana!», como se uma asa negra se abatesse sobre ambas.

A Monarca sobressalta-se revolvendo-se na cama, quando no pesadelo as carruagens entram em Lisboa a apressarem-se de roldão pelas ruas estreitas, ao longo das betesgas, subindo ladeiras e encostas, descendo de seguida pelas ruelas, roçando as suas paredes húmidas à medida que se aproximam do Tejo.

A Rainha geme mais alto agora, as lágrimas correm por entre as pálpebras descidas, a pesarem-lhe na ponta das pestanas ainda longas e espessas, a rever-se no sonho, desprotegida e tremendo, encolhida na fundura negra do carro à desfilada. Quando desembocam finalmente na Praça da Ribeira, as rodas da frente do carro embatem com violência em pedras altas e soltas, e num sacão brusco volta-se com estrondo, as portinholas saltam dos gonzos, e Maria é projectada pelo ar, o vestido branco de cassa brilhando enfunado pela aragem do rio, como uma rola voando.

Por um momento a Princesa parece pairar suspensa pelas correntes do vento que de súbito se desenlaçam e a soltam, a largam, deixando-a cair, a bater com a cabeça no chão, rolando em seguida até ao peitoril que separa e detém as águas do rio desse lado da praça, onde fica imóvel de olhos fechados em lividez de desmaio.

A Soberana acorda sobressaltada com o som dos próprios gritos.

 

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