As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 163 de 289

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As Luzes de Leonor

Memória

†

 

Quando vim de Avignon, também para chorar no túmulo da minha irmã, e obter da Rainha tudo aquilo que Carlos Augusto não conseguira meses atrás para a nossa sobrevivência, quando da sua viagem a Lisboa, estava longe de imaginar as aventuras tormentosas que me esperavam durante essa longa viagem. Não hesitei em trazer comigo Frederica e Juliana, minhas filhas nascidas em Viena e que ainda não conheciam os avós.

Connosco partiu também o abade Correia da Serra, que estando na altura em França tivera urgência de tornar a Portugal, mal sabendo eu como a sua presença de «homem de espírito», delicado, culto e cheio de humor, iria ser preciosa para o meu equilíbrio.

Meti-me à estrada deixando para trás o meu marido, encarregado de tomar conta de Carlos Agrário, o nosso filho doente, e Henriqueta, menina nascida há poucos meses, «pobre pequenina que eu começava a amar tanto». Para cuidar dos três prescindi de Thérèse e escolhi Angélique para me acompanhar.

Com a nossa caravana de carros e criadagem rumámos em direcção a Montpellier e, depois de dormirmos em Béziers, seguimos para Perpignan. A partir de então até Madrid tudo foi piorando de um modo tão sistemático e assustador, que me vi obrigada a resistir, esquecendo cansaços extremos e insónias mal mitigadas, vómitos e agonias que me fizeram acreditar, aflita, estar de novo grávida.

Senti-me muitas vezes à beira do descontrole.

Mas como ceder à tentação do desequilíbrio quando a sobrevivência de todos dependia da minha presença de espírito? Então, quando escrevia a Carlos Augusto a dar-lhe notícias da viagem, sabendo-o frágil e fraco, rogava-lhe aquilo que exigia a mim mesma, mostrando-me forte: «Anima-te, meu amigo, partilha a minha força e a minha coragem.»

Hoje, olhando para trás, não sei onde fui então buscar tanta tenacidade para resistir aos inúmeros impedimentos, reveses, perigos e desastres e obstáculos que começavam sempre por me parecer intransponíveis. E ainda agora me encho de aflição ao reviver o impensável pesadelo que encontrei num deserto ao fundo dos Pirenéus, onde os habitantes selvagens falavam uma língua bárbara que eu mal compreendia.

Quando, no dia seguinte, Juliana acordou ardendo em febre, soube tornar-me médica para a salvar da morte, a pararmos o menos possível ao longo dos caminhos empoeirados, escarpados, a perderem-se no nada daquelas infindas sendas escaldantes de pedras soltas, sem se ver vivalma. E quando o abade e alguns dos criados igualmente adoeceram, a certa altura mandei parar o carro e entranhei-me na mata para poder chorar à minha vontade.

Chegámos a Portugal no final de Novembro.

Mal sabia eu que um dia haveria de ter saudades dessa viagem desalmada. A verdade é que de bom grado a trocaria pela minha presente vida fechada dentro de casa, tendo como companhia a irremediável velhice.

Fiquei então em Portugal quase durante um ano, como sempre dividida entre a idealização e a realidade que nunca se equiparava à grandiosidade dos meus sonhos

e das minhas ambições desmesuradas.

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