As Luzes de Leonor
Memória
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Tenho a minha vida vazia de respostas.
Mas a memória é muita e eu visito-a pelo gosto que me dá a sua avidez ou a gula do tempo, como aconteceu quando pus o meu vestido de pervinca em Versailles, e junto de Maria Antonieta ficava a escutar Lully ou Rameau.
Recordo-me de ser então uma mulher esquiva e silenciosa, mas aberta à ideia de futuro, atenta ao que se passava à minha roda e ao mais que dissesse respeito ao mundo. Ansiosa por estudar e ler, por conseguir abarcar desde a Ciência à Literatura, da Filosofia à Matemática e à Física. Demorando-me com especial apetência pelos universos dos versos, da Astronomia e da Botânica; debruçando-me sobre obras decisivas e fascinantes, a aprender com Galileu, Ptolomeu e Aristóteles, com Voltaire e Rousseau, com Goethe e Schiller, com Maquiavel e Descartes…
Ah, O Tratado das Paixões da Alma!
Detendo-me cheia de entusiasmo e curiosidade no pensamento daquelas mulheres que ainda hoje me fascinam, tanto Madame de Châtelet e Madame d’Épinay, como Hildegarda de Bingen e Leonor de Aquitânia, mas igualmente Agripina e Cleópatra, Joana D’Arc. Seduzida por Cristina da Suécia, a rainha sábia, e pela Princesa Palatina Elizabet da Boémia que dialogaram de igual para igual com Descartes. Juntar-me-ia de bom grado àquelas mulheres que, ao recusarem a ignorância sempre medíocre e miserável, desobedeceram às regras que têm mantido as mulheres submetidas e ignorantes, obedientes e cegas.
Fui imprudente.
Desobedeci com prazer.
Fugindo ao que se esperava de mim, insatisfeita e ansiando por abranger o tudo que imaginava esperar-me; apostando na mudança e nas novas ideias e filosofias. A fitar, desafiando, o firmamento com as suas constelações cintilantes, planetas, cometas e estrelas que sempre iludiam o meu olhar.
Atenta à Natureza e entregue à poesia.
Mulher atlântica que o Mediterrâneo conquistara, desperta para outros mundos e ideias. A querer aprender com o orbe celeste e com os oceanos. Como virá a dizer um poeta, ninguém descobre o mar sozinho, mas só o verá com os seus próprios olhos.
Foi essa a certeza que me fez ficar horas e horas diante do forte de Marselha ou no cais do seu porto onde tantos navios atracavam, vindos de misteriosos e estranhos lugares perdidos pelo mundo fora. Apoiada à pedra húmida das amuradas trabalhadas pelos anos e pelas águas, demorava-me horas seguidas.
Pronta a aceitar o desafio que a vida me fazia.
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