As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 164 de 289

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As Luzes de Leonor

Capítulo 1787

†

 

Passo noites a pensar na minha viagem.

A cismar nos melhores trajectos que me levem a Portugal: tomando o caminho de Montpellier e Perpignan até Barcelona, rente à costa mediterrânica, e depois por Tortosa e Valença até Madrid. Às vezes suspendo a pena a meio de uma palavra, de um traço, de um sinal, durante a consulta das cartas geográficas, e fico a imaginar-me debruçada da pequena janela da carruagem a receber na cara o vento marinho salgando os meus lábios.

Passo horas no terraço a olhar os mapas.

Estendo-os sobre a mesa larga colocada debaixo da glicínia que trepa pela parede de musgo e pedra rugosa. Disponho os cadernos e os papéis no seu tampo, e alinho-os ao lado dos livros. Sempre gostei de mapas: aliso-os com os dedos impacientes e apressados, as unhas a imprimirem já os trilhos, as veredas, os atalhos, deixando para trás o espaço percorrido, o suor a colar-me os cabelos ao pescoço e à testa, a boca seca.

Passo dias a inventar esta viagem.

De etapa a etapa, ultrapassada a fronteira de França depois de Perpignan, entro em Espanha pelos Pirenéus e prosseguirei sem pressa até Barcelona. Na estrada sigo empurrando o tempo, ansiosa por chegar a Madrid, atenta à cintilação das cores dolentes, mescladas pelas claridades e as cintilações dos grandes espaços.

Passo tardes a estudar os caminhos.

Atenta, como se recebesse do mar o cheiro das ondas que entre si misturam a música translúcida do Mediterrâneo, onde o meu olhar sempre se demora com ansiedade voraz e nenhuma pressa. Mas será já no interior de Espanha, quando começarem a aparecer as suas moitas e brejos, que me aperceberei de ter entrado em Castela, seguindo pela estrada de Madrid, onde finalmente descansarei.

Passo o tempo a querer encontrar os melhores trajectos.

Seguirei no rasto do calor, a saúde gasta, os nervos em franja. Mandando estugar o passo das bestas rumo à pátria, embora ela se perfile ainda longe, antes de começar a descer desta vez para Badajoz, onde passarei a raia e entrarei em Elvas.

Passo horas a criar esta aventura.

Basta-me a demora de um dia e estarei no porto de Vendrés, mas assaltada por uma pressa tamanha que paro o menos possível, só para dormirmos e descansarmos um pouco. Coração em tumulto, presa de receios, demandas e indecisões. Sentada debaixo da glicínia do meu jardim em Avignon, vou inventando itinerários, paragens e moradas impossíveis.

Passo as últimas semanas antecipando a partida.

Ansiosa por tudo o que irei descobrir ao longo das estradas, dos trilhos e dos atalhos, consciente de que acabarei por desrespeitar aquilo que hoje planeio com absurdo cuidado, tentando ser razoável. Impaciente, neste final de primavera fresca e ventosa de mil setecentos e oitenta e sete, por chegar a Madrid para depois alcançar Portugal.

†

Carlos Augusto aflige-se quando ouve Leonor falar pela primeira vez na hipótese de viajar para Portugal, temendo as decepções e as mágoas, as feridas que ela poderá trazer de volta, mas sem coragem para demovê-la dessa ida ao arrepio do tempo, querendo encontrar o rasto de Maria e também conseguir tudo aquilo que ele não fora capaz de obter durante os meses que estivera em Lisboa, a tentar amolecer o coração da Rainha.

Sempre que julga antever nos lábios de Leonor o esboço de um sorriso ou encontrá-la menos assombrada, logo a percebe presa de memórias que lhe tornam ainda mais pesado o luto. Saudades até dos anos passados com Maria no convento de São Félix; recordações que arrastam consigo a dor da falta da irmã, a ensombrarem-lhe os dias. Cai então num obsessivo silêncio, a engolir as lágrimas não derramadas, ou a querer esconder aquelas que chora.

«Preciso de tornar a abraçar os meus pais e o meu irmão», diz-lhe uma noite, a comunicar-lhe a decisão que arrasta desde a chegada da carta de Pedro com a notícia da tragédia.

Aparentemente calma, Leonor conta-lhe os planos acalentados, sem desviar o olhar que Carlos Augusto em certos finais de tarde julga caldeado de azul-hortênsia ou de verde-água, com transparências buriladas de cor indecisa.

Ele julga aperceber-se da vontade de Leonor em ir de barco, quer porque a largueza do mar a seduz, quer porque a pensa saturada do espaço abafado, sufocante e limitado da carruagem onde sempre se faz transportar, segundo as próprias fantasias, mas nem por isso menos prisioneira da sua lentidão.

Semanas depois, porém, começa a ouvi-la falar em tomar antes a estrada a caminho de Espanha a fim de se demorar em Madrid, pois começara a alimentar confessada esperança em ser recebida pelo Rei e pelos Príncipes das Astúrias, que ela não conhecera quando da passagem de ambos pela capital espanhola rumo a Viena. Leonor deseja sobretudo conseguir uma audiência com a Princesa Maria Luísa de Bourbón, mãe da infanta Carlota Joaquina.

Carlos Augusto, que já desistira de tentar perceber os motivos da mulher, mantém-se em silêncio. Habituara-se a admirá-la sem a entender, e a desejá-la sem a possuir, consciente de que sempre poderá perdê-la para um poema no momento seguinte, e que tocá-la só é possível quando ela o deseja, permitindo-lhe então o ardor e a proximidade, a paixão a despenhar-se pelas pedras do coração, como se fosse uma queda de água. Em seguida empurrá-lo-á com a mesma sabedoria com que antes o seduzira.