As Luzes de Leonor
Diário
O medo sentido por ela na véspera continua a trabalhar o seu imaginário: Leonor aconchega o xaile de caxemira vermelha em torno dos ombros descobertos, como se quisesse conter o arrepio de um pressentimento ruim, num alvoroço perturbador que lhe transmite ao mesmo tempo expectativa e susto. E num repente, tudo aquilo que dos próprios sentimentos julgara saber, perde-se no que de si mesma ignora.
No entanto, uma coisa entende: algo de novo e poderoso nela ganha forma e força, de maneira consistente, inabalável, submetendo-a a partir do sonho, da esperança, do ideal.
A galgar o ar à sua volta.
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DIÁRIO
O que mais me aflige é a duplicidade, que me envergonha.
Dividida entre os meus ideais, os meus princípios e o temor suspeitoso de poder estar a testemunhar o início da queda do meu mundo, tal como o conheço.
Foi o que senti ao assistir à tomada da Bastilha,
sem saber como lidar com os meus sentimentos divididos, diante das emoções tumultuadas do povo exaltado.
Na madrugada do dia treze tudo parecia ainda amodorrado e duvidoso. Sem nenhuma autoridade civil, Paris aparentava dormitar, apesar do clima de tensão e nervos arrepiados, à flor da pele da noite, numa espécie de furor assombrado e mal contido.
Madrugada brumosa e fria, a anteceder a manhã luminosa, enganosa, que desponta logo nas primeiras horas do dia catorze.
Saí afoitada para a rua, em busca de uma tranquilidade que mais tarde se iria estilhaçar, fazendo com que o clima aparentemente calmo e amortecido, depressa se transformasse em brasa, enquanto eu seguia arrastada pelo entusiasmo e a coragem das muitas mulheres que, em tumulto, corriam gritando ou cantando com uma vontade inquebrantável. Desde esses primeiros instantes, tão tolhida de medo quanto fascinada pela ousadia feminina, indómita e corajosa, segui sem relutância o trilho da raiva, da exaltação e do desespero a que sempre leva a falta de liberdade, a miséria e a fome.
E acabei diante da Bastilha.
Na noite seguinte, para ir ao salão da pintora Marie Anne Vigée-Lebrun, escolhi um vestido de seda negra com rendas altas e nocturnas a cobrirem-me os ombros, os braços e o pescoço, como se estivesse de luto. No entanto, colocara num dos meus dedos um rubi sanguíneo encastoado a ouro.
Sentia o pulso apressado como nunca, e no meu peito, o coração descompassado exultava.
Paris, 16 de Julho de 1789
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O pintor Louis David quer saber quem é aquela mulher de vestido magenta, bainha bordada a ponto cheio a rasar o peito curvo do pé escondido pela fivela do sapatinho de cetim esmeralda que ela balouça, deixando antever o tornozelo estreito, modelado pela meia de seda quase transparente.
– É a condessa portuguesa D. Leonor de Almeida – respondem-lhe.
Ele aproxima-se furtivo, a tentar adivinhar-lhe a cor dos olhos que de longe não distingue. No entanto apercebe-se da sua impaciência mal ela se levanta, manejando o leque com os dedos nervosos, e por segundos julga ver a nimbar-lhe a silhueta esguia uma espécie de halo ou de crispação dourada que o confunde; mas depressa entende ser a reverberação do sol coada pelos vitrais amarelos, cor de canela e rosa da janela mais próxima, a incidir nos seus cabelos soltos, contornando-lhe também a silhueta.
Atrás dela está um tremó de espelho alto onde se reflectem os gladíolos azul-esmaltados postos numa jarra de Sèvres. Fulminado pela luminosidade que incendeia o perfil de Leonor, David fica imóvel a olhá-la, fascinado, certo de jamais ter encontrado mulher mais sensual e bela; em si mesma o ardente cerne da fusão dos tons que a cercam, nela se confundindo.
Ardilosos nos próprios matizes.
E David já a imagina na tela onde o pincel a acaricia e prende estendida ao comprido, despindo-a para logo a erguer nua nos seus braços, num excesso de volúpia.
Sente-se a pintá-la, a recriá-la, deixando-a apesar de tudo como ela é,
intacta.
A sua voluptuosidade contida, mesmo um pouco fugidia, espicaça-lhe o gosto, irrita-lhe os nervos, aguça-lhe os sentidos.
Quando Leonor dá pelo seu olhar insistente, fita-o desconfiada, embora curiosa. Reconhecê-lo fá-la manter-se indecisa, sem entender o interesse equívoco de que é objecto. Aliás, sem nenhuma espécie de disfarce, David continua a fixá-la, como se quisesse atraí-la, levá-la até si, e ele lhe desfizesse os laços a desprender-lhe o vestido, as saias de sombra, a desabotoar-lhe os pequenos botões de prata do corpete, a desatar-lhe a camisinha de cambraia, os atilhos do espartilho, a afastar-lhe as rendas até chegar ao corpo nu.
Perante a devassa que adivinha, Leonor estremece, recua, parecendo defender-se de ser abusada, fugindo-lhe das mãos longas, secas e vigorosas de pintor, hábil no manejar das demoradas carícias das tintas sobre a tela esticada, lápis-lazúli moído e diluído na mistura dos óleos, buscando nos tons diversos até encontrar aquele que imaginara: o madrepérola para a doçura da nudez do corpo, da redondez dos ombros, do contorno dos seios ao de leve suados.
Tomada pela vertigem ela cambaleia e ele, solícito, estende a mão a ampará-la, mas já Germaine de Staël se interpõe entre os dois, sem se deter na tentativa de perceber o clima em chama e embaraço. «Rompendo o encantamento» – pensa decepcionado Louis David; enquanto Leonor, pelo contrário, agradece intimamente à amiga ter vindo quebrar aquele esvoaçar estonteado onde por segundos estivera aprisionada.
– Cuidado, senhora condessa! Todos sabem que o pintor Louis David se encontra do lado dos revolucionários… – adverte Germaine rindo, cúmplice.
Ele não fala, não nega.
«E é também um libertino…», pensa Leonor fingindo-se atenta a escutar «La Rêveuse», peça musical de Marin Marais, que estava a ser tocada na Sala da Música. É aí que David a reencontra e se lhe dirige de manso a arrastá-la consigo, e querendo quebrar o embaraço começa a falar-lhe de pintura e da revolução, com igual entusiasmo. Ela escuta-o, fascinada com o tanto fogo incontido, e sem embustes expõe-lhe as suas dúvidas sobre o curso da revolução, os desmandos, os ódios mal coibidos, sentindo no entanto a fragilidade dos próprios argumentos. Em seguida descobrem o comum interesse por Homero, Voltaire e Goethe, por Rousseau e por Mozart.
Ela invoca a escrita, os poemas.
Ele, a pintura e os quadros.
David estende-lhe a mão para ajudá-la a levantar-se, e sem uma palavra tira-a da penumbra em que se abriga puxando-a para a claridade; e de novo se deslumbra com o seu olhar mate e fugidio, as unhas rosadas de amêndoa doce, os caracóis sedosos cor de âmbar, com a ponta da língua rosada a aflorar de quando em vez o carmim natural dos lábios.
Então num gesto de audácia irreflectida, querendo sentir-lhe a quentura do corpo, aflora-lhe com os dedos fugidios a delicadeza da nuca escondida sob a mata dos cabelos. Erguendo ambas as mãos num impulso rápido, Leonor defende-se, toda ela parecendo dançar no gesto brusco e orgulhoso com que lhe foge, o repudia:
não mais rola e já águia.
É essa recusa em ser tocada a contragosto, em ser tomada embora ninguém os visse, que mais o perturba e surpreende; e pela primeira vez na vida, Louis David retrocede. Enquanto Leonor se afasta em silêncio, as faces em fogo, ganhando já o terraço curvo e largo da Embaixada da Suécia, onde Germaine também se refugiara cansada das suas contrariadas obrigações de embaixatriz. Ficando as duas atentas sem uma palavra à descida do sol no céu mortiço e derramado de um final de tarde com branduras de cisne a deslizar na passagem do tempo.
Abrigado na sombra da sala, paciente e discreto, David vê-as conversar, as silhuetas em contraluz aveludada: Leonor com as palmas das mãos pousadas na larga balaustrada de mármore, e Germaine apoiada num cotovelo junto das rosas trepadeiras rubras subindo ao longo da parede da casa. Ao fundo, sobre os telhados de Paris, começa a cair o crepúsculo, que dá à cidade uma aparência de ilusória calma.
De súbito, os traços da revolução parecem ter-se apagado.
Aos olhos do pintor, porém, à medida que a noite transborda da sua taça, a figura de Leonor ganha uma estranha nitidez, quase iridescente; e diante da impossibilidade de possuí-la, sente o coração de chofre apunhalado.
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Fitam-se admiradas pelo tanto que, mal se conhecendo, se sentem próximas e atraídas, em tudo diversas e opostas, muito embora haja em cada uma delas traços breves, mas precisos, a assemelhá-las. Não contradizendo o que de si mesmas sabem.
A simplicidade belíssima de Leonor, sem engenhos, desprovida de armações, de cabelos falsos ou de sinais colados na pele perfeita do rosto comprido.
O artifício de amazona de Théroigne de Méricourt, redingote vermelho sobre as calças pretas que usa justas, sabre encostado ao flanco magro, beleza ardente e atrevida, chapéu de belatriz deixando escapar os rebeldes caracóis escuros em desalinho, contrastando com os seus dolentes olhos azul-violeta, então em busca da possível desordem escondida no olhar anil daquela que, saída da sombra onde parecia abrigar-se ao fundo do salão dos condes de Condorset, semicerra as pálpebras cega pela abrupta claridade.
Para Leonor, Théroigne começa por ser, pois, apenas uma mancha nublada, que aos poucos do nevoeiro se desembrulha expondo-se radiosa.
Expectante e harmoniosa na sua ousadia.
É quando se olham pela primeira vez, espantadas por se sentirem de imediato tão cativadas, que vão em busca das diferenças e encontram as afinidades. Proximidades sinuosas e trabalhadas, que as encanta e as leva a desmontar os retratos uma da outra, entretanto interiorizados, levados a cabo com o traço viciado das ideias feitas.
Indecisas e teimosas na desesperança, demorando a recuperar o optimismo depois das decepções, os sonhos e os ideais falseados com o passar dos anos. Preconceituosas e intransigentes, incrédulas frente aos sentimentos e às emoções, desconfiadas diante da vida que, embora de modo diverso, as maltratara. Cuidadosas no conhecerem-se, pois os tempos que correm são de enganos e elas sabem quanto podem ser fatais em qualquer lugar do mundo.
Portanto, recuam e avançam hesitantes, durante a conversa demorada, qualquer delas surpreendida por identificar na outra tantos dos próprios gostos e arestas; quer seja a propósito de agrados ou de repulsas, de veemências ou tibiezas, perfumes e rosas rubras, princípios e desejos proibidos.
Reconhecem-se e cedem, trocam ideias e até confissões no entusiasmo, admirando-se Leonor daquela entrega descuidada, logo ela desde sempre atenta no escudar-se, utilizando as mais antigas defesas. E quando já noite alta Théroigne lhe confidencia com timidez envergonhada, chamar-se prosaicamente Anne Josèphe, soube que entre as duas os dados estavam lançados.
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Leonor não consegue explicar o que a leva, desde a chegada a Paris, a ter tantas saudades de Gonçala. Quando da sua recente viagem a Lisboa descuidara de vê-la senão de fugida, vulto a debater-se num silêncio febril do lado de lá das grades do convento de São Félix.
Agora sim, sente-lhe a falta mordida, fissura desabrida e dolorosa a remoer no seu peito em sobressalto. E acaba por escrever-lhe um pequeno bilhete, equívoco e intranquilo:
«Gonçala
Pudesses largar as vestes escuras, minha andorinha, e voares até à liberdade…
Ardo de saudades tuas.
L.»
Paris, 1789
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No salão de Théroigne toca-se Rameau e ouvem-se versos patrióticos e revolucionários; a despertarem em Leonor ínvias vontades de ouvir Mozart e Haydn, de ler Goethe e Schiller, voltar às palavras de ardência e êxtase de Teresa de Ávila.
Nos meses em que se encontram em Paris, as duas confundem-se nas escolhas pessoais, fusionam-se, influenciam-se, enleiam-se. Nas ruas, nos clubes, nas assembleias, Leonor estará atenta a tudo, e quando Théroigne sobe à tribuna para discursar, compara as ideias dela com as suas, a querer entender melhor aquilo que as une e um dia as separará para sempre. Sem se sentir inocente ou culpada pelo cúmplice aceitar das diferenças que as marcam e as cindem, mas também as juntam, na partilha de um sentimento firme que tanto as enriquece como as torna ambíguas e inadequadas.