As Luzes de Leonor
Angelus
†
Vendo-te perdida e obstinada entre o rendilhado bulício do Palácio de Queluz, o marasmo da quinta dos teus pais em Almada e a pesada solidão da casa da Rua da Boa Morte,
deixo-te um ramo de rosas carmim tão rubras e abertas quanto exauridas e transbordantes de febril excesso somente contrariado pelas longas e delicadas hastes quebradiças, do mesmo modo que as viste despidas de espinhos e deitadas ao comprido como se fosse numa cama
tranquila,
tapadas por papel que mais parecia lençol de seda natural.
Com as flores a encherem-te os braços, sentes as pernas fraquejarem, quem sabe se contaminada pelo seu perfume intenso e doce a envenenar-te a veia do pulso, que bate mais rápido quando tomas láudano ou beladona, a provocarem-te vertigens.
Eu vejo de longe o teu passo vacilar,
minha bela,
como se fosses Helena de Tróia, quebrada pela culpa, perdida na sua história de paixões e mistérios que nunca serão desvendados por completo.
Ofélia,
olhar assustado de afogada a deslizar à pele das águas paradas dos lagos que se aninham debaixo da folhagem até onde gostas de ir de barco à hora velada do crepúsculo; ficando eu na margem, inquieto ao perceber-te debruçada tentando distinguir a areia adormecida no seu fundo, de onde os remos levantam uma poalha marfinada a entorpecer os peixes que se esgueiram mal se apercebem da tua face inclinada.
Esqueces no banco do jardim as rosas e voltas a buscá-las, olhar inquieto procurando à tua roda, ansiosa por conseguires afastar da memória o vulto alado que te vem seguindo persistentemente numa total entrega a ti; a ponto de o meu vigiar-te se ter transformado no único objectivo da minha vida.
Sendo apenas uma sombra sem rosto.
Silhueta que, mal antevista, logo se esgueira e desliza à rama das sombras, a dobar-se no dobrar das esquinas das ruas, a esquivar-se nas dobras das calçadas íngremes, demoradamente, num invisível olhar furtivo.
Na lonjura das estradas, nos desvios e caminhos empoeirados, ou nas áleas dos jardins de Schönbrunn, de Versailles e de Queluz, apercebi-te muitas vezes alheada, o desnorte e a solidão a atormentarem-te o coração desprevenido.
Minha amada,
dando-te eu a beber sem que te desses conta,
Isolda,
o filtro da paixão, a fim de te quedares a meu lado, fingindo não te ver fugir nesse teu passo de bailarina cismada consigo mesma,
minha afoita,
namorada do sonho.
†
A primeira vez que encontra pousado nela o olhar curioso e brilhante da condessa de Oeynhausen, Carlota Joaquina não sente necessidade de se defender como geralmente lhe acontece desde a sua chegada a Portugal.
– Quem é aquela fidalga que eu não conheço? – pergunta ao padre Filipo Scio, seu preceptor esforçado na difícil tarefa de tentar orientá-la, fazê-la em vão adaptar-se ao protocolo da Corte portuguesa. E sem esperar a resposta, a Princesa afasta-se, atraída pela atenção não aduladora de que é alvo, abrindo caminho por entre as fidalgas e os fidalgos até chegar à condessa, que a vê aproximar-se, franzina, de pele tisnada de azeitona, inquietação espelhada no miúdo e sombrio rosto comprido.
Em vez de a ver inclinar-se como Carlota Joaquina espera, continua direita de orgulho e delgada no simples vestido de gala de seda malva, mãos nuas estendidas na sua direcção, palmas tépidas onde, sem reflectir, a Infanta espanhola coloca as suas, enluvadas de renda branca esburacada de tanto andar buscando na vida por onde o desassossego a leva.
– Como se chama Vossa Excelência?
– Leonor de Almeida, Alteza. Condessa de Oeynhausen.
Diante uma da outra fitam-se, e a quem as vê poderá até parecer estranha a súbita intimidade. Mas a partir dessa ocasião Leonor fica ciente da impossibilidade de vir a ser mestra daquela menina-adulta, determinada e solitária, empenhada em hostilizar e em afastar todos, levada por uma irremediável sensação de infelicidade à qual se mistura um sentimento de total abandono.
†
Mana do meu coração
Dado que ultimamente não tens aparecido em Lisboa, vim a Almada para falar contigo, mas como não te encontras em casa deixo-te este curto recado.
Ontem, quando estive no Paço, o príncipe D. João, puxando-me pelo braço e levando-me até perto de uma das portas da Câmara de Sua Majestade a Rainha, disse-me: «Já vi sua irmã, a Condessa de Oeynhausen, que estimei muito. Vem portuguesa, como foi.»
Toma atenção, mana, que esta frase não foi dita por acaso. Pareceu-me mais o aviso de alguma cousa do que uma amabilidade palaciana: as intrigas por aqui são muitas e os venenos vários. Reflecte um pouco sobre tudo o que tens presenciado e sabido, e não te apoies no acaso nem acredites na sorte! Tem atenção às tuas palavras, aos papéis, às cartas que escreves e aos versos que fazes e esqueces sobre a tua escrivaninha. Por meu lado, tentarei perceber melhor o que está a acontecer.
Sei que ainda há pouco regressaste a Portugal e continuas desambientada, mas por cá todo o cuidado é pouco.
Mano Pedro
Lisboa, 15 de Dezembro de 1787
†
Abro a porta sem ruído.
No teu quarto, Maria, o ar abafado e intacto recebe-me numa mistura de flores cediças e de poeira coada pela ligeira claridade vinda da janela semifechada, cortinados corridos até metade, como se o gesto de quem os fazia correr tivesse ficado a meio
e fosse metade apenas do teu último grito.
E logo dou conta de uma levíssima fragrância, leveza de açucena misturada ao peso do ópio que te aliviava as dores – dizem-me, quando me contam a história dos teus últimos dias. Memórias que me levam a imaginar o teu corpo alvo, mana, desde sempre magro e discreto, contrafeito com a própria textura.
Tão fraca!
Sobre a cómoda encontra-se ainda o cofrezinho de prata lavrada onde guardavas as poucas jóias, e logo adiante, no tampo de mármore, uma pequena salva onde estão os ganchos de tartaruga, os pregos de brilhantes e as travessas do teu cabelo. Na cadeira preguiçadeira descubro o último négligé que usaste, atirado na pressa do delírio; tecido leve que agora chego ao rosto, a tentar tomar de ti novamente o cheiro.
À porta que eu deixara entreaberta assoma a figura escura e pesada do teu marido, o conde da Ribeira, que me deixou vir buscar os meus sobrinhos para passarem uns dias com os avós e as primas em Almada. No final do nosso encontro, permitiu-me que subisse, embora estranhando o meu desejo de entrar no teu quarto, que ele irá desmanchar não tarda. E sem tentar iludir como a saudade está longe de lhe apunhalar o coração tranquilo, diz-me num tom gelado:
– Podeis escolher como recordação algumas cousas pessoais de Maria, que mais tarde mandarei entregar em vossa casa.
Mal ele torna a afastar-se olho à roda, com vontade de levar comigo tudo o que foi teu, mas acabando por escolher apenas um par de brincos de rubis, como duas gotas de sangue, que Filinto Elísio te ofertara ao fazeres dezoito anos no convento de São Félix. Também a tua última pena, o tinteiro de cristal, e por fim a secretária de mogno com embutidos de pau-rosa, que te dera o nosso Pai ainda em Almeirim, e que fizeste questão de levar contigo quando te casaste, aceitando sem discutires o marido que te fora imposto.
Um leve ruído atrás das minhas costas sobressalta-me, e quando me volto descubro a tua filha à entrada da porta, olhando o teu quarto como se o quisesse fixar para sempre. Delgada e sem cor nas faces, fato de fazenda preta muito arranjado e hirto, gola de renda cinzenta demasiado folgada no pescoço esgalgado: a imagem viva de uma órfã abandonada a um destino ameaçador.
Aperto-a ao peito num ímpeto e ela logo me lança os braços trémulos em redor do pescoço, num laço apertado. E embora pouco nos tenhamos visto antes, sinto haver uma imediata ligação entre nós, ambas tocadas por uma vontade que, não duvido, só poderá ser a tua, minha irmã.
†
Quando ela entra dançante na capela da Bemposta, pertença do palácio do Infantado, a condessa de Ficalho diz em surdina a Leonor, tocando-lhe no cotovelo coberto pela luva alta:
– É ela ! Repare Vossa Excelência quem acaba de chegar.
Margarida possui o donaire e a magreza torneada da mãe, a marquesa nova de Távora, mas ao contrário desta é feia e desagradável. Leonor olha-a com curiosidade, porém um longo véu de renda preta, a fazer-lhe sobressair o brilho quase safírico e aceso dos olhos, tapa-lhe grande parte do rosto.
Leva um vestido e corpete de veludo negro forrado a seda lilás, decote amplo e saia de cetim rosa-fúcsia, e o conjunto só não é lúgubre devido ao ostensivo e ofuscante brilho dos muitos diamantes que usa: pingentes trémulos e compridos nas orelhas de concha, gargantilha no pescoço de ave, a rematar com um grande rubi sanguíneo a descer-lhe entre os seios pequenos que o espartilho eleva, pulseiras a tilintarem nos pulsos morenos de criança.
Quando ajoelha, depois de fazer o sinal da cruz, ainda não dera conta da presença da prima, de quem não se pode lembrar, mas de quem ouvira falar o suficiente para lhe despertar a curiosidade. É então que a velha governanta lhe murmura ao ouvido:
– Olhai, D. Margarida! A mais formosa das damas é vossa prima, a Condessa de Oeynhausen.
De soslaio, sem afastar o véu do rosto, Margarida fita-a de expressão fechada, mas só de pensar no gozo que lhe dá contar à mãe da singeleza do vestido usado pela neta legítima da orgulhosa marquesa de Távora, o prazer com que lhe descreverá o decote pobre ornado com uma fieira de pérolas, assim como das longas mãos sem anéis, enche-a antecipadamente de uma transbordante alegria a custo reprimida. Como se o comparar da sua ostentação com a singeleza da prima fizesse parte de uma vingança há muito desejada, pelas centenas de vezes em que fora humilhada, vexada, recusada e negada, através das expressões desdenhosas, repugnadas das fidalgas que fazem questão de a ignorar, pois nela continuam a ver a filha da adúltera, da amante, da barregã do Rei D. José, da culpada da tragédia da sua própria família.
Disfarçadamente, do banco estreito de madeira polida onde se senta, Leonor continua a observá-la: de joelhos, terço de ouro e esmeraldas entre os dedos finos. Depressa se apercebendo de que Margarida não só não reza como a espreita com dissimulação, ao abrigo do negrume da renda do véu, austeridade a contrastar com as muitas jóias que todos sabem ser da mãe, ganhas das mãos apaixonadas, ávidas e pródigas do velho Monarca.
Tanto despudor da parte de uma e de outra escandaliza as damas que nessa manhã testemunham o encontro silencioso e distante das duas primas, ajoelhadas nos seus genuflexórios, enquanto os homens, de pé, mãos atrás das costas, junto à porta de entrada, chapéus balançando na ponta dos dedos, se mantêm indiferentes como sempre, embrutecidos pelo excessivo calor.
D. Maria e a família real chegam, como é costume, no começo das Laudas, fazendo Leonor esquecer-se de Margarida ao passar a estar concentrada na Rainha que lhe parece pálida e envelhecida. À direita da Soberana encontra-se o príncipe D. José e sua mulher, a Princesa Maria Francisca Benedita, que não esconde a satisfação ao escutar o Miserere perfeitamente executado pelos músicos e pelo coro da capela. Já a Infanta Carlota Joaquina, pelo contrário, ao lado de D. João, parece não suportar a atmosfera escaldante, incapaz de se manter quieta.
Leonor está atenta a tudo à sua roda: aos lírios altos junto das rosas nas jarras de porcelana, aos goivos que tombam já das taças de faiança perto dos grossos castiçais de prata lavrada, às dálias carmim e às margaridas cor de alfazema que enfeitam os espaldares dos assentos reais.
Sem se conter, torna a fitar a prima que, sentindo-se olhada, a encara de frente, ambas finalmente face a face mas emudecidas pela hostilidade sentida uma pela outra, e só quando acaba a missa cedem em desviar os olhares. Depois curvam-se e persignam-se diante do altar-mor
onde o Santo Sacramento se encontra exposto.
†
Venceste-me Maria!
Da penumbra raiada da carruagem vejo a tua irmã aparecer no pátio diante da casa da Boa Morte, a receber a tua secretária, da qual mandei fazer entrega como lhe prometera, tentando esquecer a hostilidade com que me olha na devassa da minha intimidade e calamento. A fazer-me recordar o desdém que sempre descortinei no teu olhar alado.
Agora que partiste não te vergo.
Mas apesar de morta tu existes: quebradiça, delicada, frágil. E na tua ambiguidade determinada e forte, a desdenhares de mim todo o tempo, pois mesmo quando em vida eu te quebrava, resistias, rodeada dos tantos estilhaços de cristal de ti, para logo ficares de novo inteira.
Intacta.
Hoje, a coberto da luz estagnada do carro, sinto-me pela primeira vez miserável, a seguir-te ao seguir a tua secretária que tanto detestei. E tu sabia-lo, indiferente às minhas regras e gostos, parecendo ignorar o prazer com que imaginei quebrá-la, desmanchá-la, desmantelá-la, a descobrir nela mil defeitos: as lascas, as brechas, as rachaduras da madeira, contando cada nó escondido, cada ferida, cada mancha dos teus dedos. Obsessivo, imaginava-me a queimá-la até não restarem senão cinzas escuras, com ela destruindo juntamente os teus papéis e livros, pelo interior dos quais me escapavas, tu superior e lua, fio, fina e lisa.
O que fizeste dos cadernos escondidos com temor, quando te aparecia de súbito pairando no poder predatório, igual a ave de rapina? Enquanto tu, rola, me pressentias por perto.
Volto atrás na lentidão das imagens repetidas e revejo-te sentada, curvada diante dos cadernos azuis nos quais escrevias depressa e crispada… o quê?
Versos?
Poemas que te proibira de fazer e não encontrei em lugar nenhum quando morreste, ciente de eles existirem, e agora que mandei entregar a Leonor a tua escrivaninha cresce em mim a dúvida: não me estarão a escapar com ela os teus segredos?
Por isso fico a espiar a tua irmã a descer as escadas, vindo inclinar-se sobre ela com vagares de dona, tirar o pano grosso que a cobre, a acariciá-la e tomando-a já para si sem pudor nem disfarce.
Observo-a a entreabrir as gavetas, a tactear um espaço que eu julgava liso debaixo do tampo erguido; e de imediato te recordo requebrada naquele mesmo gesto, enquando te espiava e tu te julgavas só. Silhuetas idênticas a tua e a da tua irmã, assim vistas de longe, embora tu diversa na muita magreza e transparência de fuga, a desencadear em mim a onda de desejo que saciava com raiva: tão leve tu, tão fácil de derrubar na cama, nas tábuas do chão, nos tapetes persas, nas mesas, nas cadeiras.
Fosse onde fosse eu a fazer-te tombar, a forçar-te.
Encostar-te às paredes, subir-te nelas e baixar-te em seguida ao longo de mim. A rasgar-te o corpete, as meias, as saias, o corpo. A obrigar-te, a forçar-te, a ter-te de qualquer maneira, impondo-te os meus direitos, e mesmo assim roubando, lacerando, magoando-te até ao esvaimento, arrancando de ti aquilo que me era devido. A respirar-te o perfume espesso da nuca, a morder-te a nudez dos ombros e das costas, do umbigo, das mansas pernas, dos braços inertes.
Só depois te montava, a dobrar-te, a virar-te, a possuir-te.
A violentar-te.
E mesmo nesses momentos nunca te entregaste, pulsos de criança sobre os peitos altos a empurrarem-me de molde a não poder tocar-te por inteiro ao comprido do corpo, enquanto na escuridão da água dos teus olhos eu mergulhava até respirar a cisterna do fundo, a beber de um trago o asco que me tinhas.
Ávido eu da tua fraqueza, com a qual te mataste, me derrubaste, derrotando-me.
Vencendo-me, Maria.
†
Leonor recebe a escrivaninha
e manda que a coloquem no antigo quarto de Maria.
Ao ficar sozinha, inclina-se em busca de alguma marca, de algum indício, traço ou rasto da irmã que a leve até à última vez que ela a usou. Procura a gaveta de segredo que a vira utilizar algumas vezes, gaveta que não abre senão quando se lhe solta a mola dissimulada na parte inferior do tampo alto. Sentindo o cerco que entretanto a morte traçara com os seus passos em redor do tempo, Leonor, tomada de súbitos temores, hesita em aceder aos segredos da irmã. Talvez seja melhor não descobrir o que Maria tanto quis resguardar dos olhares alheios.
Constrangida, demora-se na decisão difícil, o coração desordenado no peito aflito, acabando por estender a mão para a pequena mola que prime e estremece quando se solta e a gaveta se abre, espalhando em redor o perfume de Maria: uma mistura de água de rosas, flor de laranjeira e açucenas.
Vêm-lhe as lágrimas aos olhos, e é sob essa cortina de bruma que distingue na penumbra da madeira odorosa pequenos cadernos de capa azulada com um friso de ouro pálido. Ao lado está um maço de cartas atadas com fita de cetim. Ao desatá-lo, depara-se com as cartas que escrevera à irmã de Madrid e de França, de Frankfurt, da Áustria e de Estrasburgo, os curtos bilhetes enviados da segunda vez que estivera em Paris; as últimas são já de Avignon. Todas elas alinhadas por datas.
Antes entreabrira o primeiro caderno e apercebera-se de ser um diário, que logo fechara. Continua sem saber se deve ou não ler os pensamentos secretos de Maria, avara ou envergonhada dos próprios desabafos.
Hesitante ainda, senta-se na borda do leito estreito de virgem da irmã quando solteira, e a medo vai soabrindo os diários, deixando que as suas folhas voem sem ler coisa alguma; limita-se a folheá-los, acabando por se deter já no final do primeiro volume, em meados de 1780.
«Dia 20 de Maio de 1780
Ele magoou-me com demora.
Outra vez.
Felizmente consigo esconder com a manga franzida do vestido de seda verde a nódoa negra do meu braço, um pouco acima do cotovelo. Na minha anca, o golpe que apenas eu e ele conhecemos continua tumefacto, mas já a ganhar crosta.»
Leonor detém-se, os dedos crispados na capa do diário, que instintivamente afasta de si.
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