As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 185 de 289

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As Luzes de Leonor

Memória

†

 

Quando me lembro dos dias vividos por mim em Paris no início da Revolução Francesa, ainda me sinto dividida e presa de ansiedade. Como se desse tempo tivesse guardado intactas a perturbação e a vertigem, mas também a curiosidade e o entusiasmo pelos quais na altura fui tomada, ao dar conta da extraordinária mudança que estava a testemunhar.

Nesses tempos de caos e de efusivo entusiasmo, entreguei-me, recuei e muitas vezes andei à deriva, diante de actos extremos que me assustavam, mas também me exaltavam ao ouvir falar de fraternidade e de igualdade. Tudo junto fazia crescer em mim um sentimento tamanho, que tão depressa me levava voando como uma folha, como me tolhia, hesitante diante do que me apercebia e observava, num julgamento confuso.

Empolgando-me pelo interior da revolta e do tumulto que se desenhavam, na tessitura de uma trama, ora dramática ora jubilosa, mal aguentando o vento agreste que parecia empurrar-me, tendo a mistura do novo e do diverso chegado a fazer-me olhar com desconfiança a minha própria condição e nascimento. Apesar de tudo, havia sinais que me inquietavam e me atormentavam as noites mal dormidas, ciente do risco, do perigo que começava a correr o mundo em que nascera. Enorme foi, pois, a minha conturbação nesse tempo de transformações, mas também de ameaças.

Muitas das revolucionárias insurgiram-se contra a injustiça da situação das mulheres, e foram elas, as suas palavras, risos e protestos que acompanhei, misturando o meu ao seu entusiasmo e as suas vozes à minha: a de Olympe de Gouges, a de Claire Lacombe, a de Pauline Léon, a de Théroigne de Méricourt…

Palavras luminosas e raras.

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