As Luzes de Leonor
Diário
Suprema humilhação de que nunca se vingara.
D. Mariana Vitória parece de súbito ser arrancada ao devaneio onde mergulhara no quarto obscuro e fétido, junto ao leito revolvido onde o Rei de Portugal apodrece. Curva-se mais, depois mais ainda, e finalmente desce a mão direita enluvada de renda até ao seu braço encolhido e torcido pelos ataques.
E diz-lhe, quase num brado de júbilo:
– Sou a Rainha!
†
DIÁRIO
Todos prenunciam o nosso livramento.
«O estado da saúde de El-Rei, em que todos se fiam, com a nota de que o marquês começa a entontecer visivelmente», parece confirmar a queda do poder por demais cruel e fanático que tem vindo a perseguir a nossa família, a tratar-nos sem dó nem piedade.
Acrisolando-nos a vida.
Fazendo-nos pagar por crime não cometido.
E pela primeira vez alcança-nos o barulho das falas, dos murmúrios, das hipóteses, das inúmeras expectativas incrédulas mas confiantes. Chega-nos o ruído inusitado daqueles que, do lado de fora destas fortes paredes, tremem e temem: uns a morte do Rei e a queda do seu valido; outros, que tudo não passe de sonhos e especulações, de esperanças infundadas.
Aguardamos, interditas, frente à claridade estonteante.
Veracidade, exactidão e rigor, ou murmúrios, boatos e intrigas?
– Proibiram ao marquês de Pombal a entrada na câmara do Rei, que delira com a marquesa de Távora vossa avó, temendo que ela o espere às portas da morte a fim de lhe cobrar a vida cruelmente arrancada… – segredam-nos ao ouvido.
Estremeço, dividida entre a satisfação e o choro.
Chelas, 30 de Dezembro de 1776
†
O Rei confessa-se duas e três vezes por dia.
Persigna-se com aplicação.
Reza com devoção assustada, e manda dizer missas e acender velas pelas suas melhoras em todos os oratórios do Palácio de Madeira.
Passa as noites em claro corroído pelas dores, e quando adormece sonha com D. Leonor, marquesa de Távora, que o fita com o seu olhar de violeta.
Acorda sobressaltado, inundado de suores frios.
†
Cada vez existem mais razões para o contentamento delas.
No entanto, sabe-se como a alegria pode tornar estouvado o pensamento e fazer toldar o juízo e a razão, levando-as a crer somente no que é ilusório ou da matéria do sonho. Iludindo a realidade e até impedindo-as de ver como a inocência pode sempre voltar a ser derrotada.
Apesar de desconfiarem de tanta generosidade por parte do destino que sempre lhes fora adverso, as novas vão-lhes chegando, sustentadas e alentadoras, afastando a possibilidade de as notícias poderem ser falaciosas, movidas pela falsidade.
Pela primeira vez desde que chegaram ao convento de Chelas, Leonor e Maria consideram haver motivo para acreditarem que o sólido rochedo onde em Portugal se tem firmado o despotismo e o negrume está a esboroar-se.
A abrir brechas, fendas e rachas.