As Luzes de Leonor
Diário
Descoroçoada, pensa: «Estou a morrer e ninguém me dá ouvidos»…
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DIÁRIO
Fico muito tempo deitada a ler Virgílio à luz das velas.
O estudo a que me aplico, e os versos feitos nas horas do silêncio, têm a «utilidade de me roubar, por algum modo, à ociosidade das muitas horas vagas, que é forçoso ter nesta situação melancólica e solitária».
Será possível vir a recuperar um dia a vida que me tiraram?
Chelas, 7 de Junho de 1773
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Inconformado com o desfecho das suas muitas e infrutíferas diligências no sentido de o Rei D. José assinar a ordem que permitiria a Leonor de Almeida abandonar o convento de Chelas, o doutor Inácio Tamagnini passa a visitá-la mais vezes. E como não conhece nenhum remédio para curar as decepções, as desgraças, os sobressaltos da raiva, e percebendo os seus nervos exacerbados, recomenda-lhe que tome banhos tépidos a fim de acalmar os sentidos em alvoroço. Ela parece obedecer-lhe, apesar de preferir banhar-se em água fria, na tentativa inútil de refrescar-se das febres e das chamas altas onde se sente arder.
Leonor de Lorena manda Domingas do Amor Divino – a nova criada que depois de muitos requerimentos lhe fora permitido contratar para o seu serviço –, levar para a cela da filha doente uma grande bacia, onde Leonor todos os dias entra devagar na água tépida: primeiro um pé e depois o outro com brandura,
dobrando as pernas longas, o corpo tapado com uma leve camisa de algodão da Índia de um amarelo-pálido apertada à frente com finos atilhos de rolo, pontas curtas num pequeno laço, cabelos presos com ganchos de prata e travessas de tartaruga, joelhos erguidos para caber na tina improvisada, enquanto num gesto vago e pensativo vai passando uma pequena esponja ensaboada no pescoço alvo, nos braços torneados, no doce arredondar dos ombros.
Naquele dia Leonor toma o sétimo dos banhos prescritos por Tamagnini, mas enquanto a maioria das pessoas a quem são receitados os tomam por remédio, ela cumpre-os sobretudo por gosto. Banhos que lhe abrandam as ânsias do corpo e do espírito. Eficientes na leveza em que a deixam, satisfazendo-a igualmente a ideia de estar desse modo a agir como discípula de Rousseau, filósofo de quem admira o rigor e a audácia do pensamento, apesar da misoginia reconhecida.
Fecha por momentos os olhos cansados, deixando-se ir entorpecida até às margens do sono, mas tolhe-a um arrepio que a desperta na água que arrefecera e, ainda ensonada, sobe as mãos por baixo da camisa a tactear o tremor dos braços, os dedos a tropeçarem no bico duro dos seios, na cintura estreita, nas ancas delgadas. De pé, espera-a em silêncio D. Feliciana Micaela, com a toalha aberta pronta a cobri-la.
Irritada, Leonor manda-a embora, e só depois se levanta e sai da tina, a sentir debaixo dos pés o gelo da pedra áspera do chão e um golpe de ar frio vindo das frinchas da janela a trespassar-lhe o corpo transido, que a camisa enrodilhada não defende. Tira-a, impaciente, e por breves segundos vacila
diante da própria nudez proibida.
Passa devagar óleo de nardo nos pulsos estreitos e magros, a imaginar ser o seu próprio olhar o de um outro que a fita. Com súbito pudor, cobre-se com o xaile de lã escarlate deixado em cima da cama. «Como ando imaginativa» – critica-se, falando consigo própria. Ela, que nem a si mesma se atrevera a reconhecer sofrer de melancolia ou carecer de ternura. Como costuma dizer, a ternura só a tem feito desencontrar-se com o que lhe convém.
E o que pode convir-lhe melhor do que a liberdade?
A luz intensa da tarde deve reflectir-se, cintilando, no espelho do Tejo que adivinha na paisagem, fazendo verdejar as colinas mais além, onde se eleva Lisboa. Defronte da janela Leonor detém-se ensimesmada, os longos cabelos desmanchados e ainda húmidos tombando ao longo das costas destapadas.
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Mal conhece o inevitável desfecho negativo do apelo feito ao Rei para que Leonor saísse do convento de Chelas, Pedro apresenta-se na grade a tentar contactar com a Mãe, que sabe frágil e enfermiça.
Teme por ela, diante de semelhante abalo.
E não tanto pela irmã, que tem por uma mulher resistente e forte, capaz de fazer frente a qualquer tempestade. No entanto só Maria descera nesse dia ao parlatório, e com ela fala a saber notícias, ponderado diante do seu olhar assustadiço enquanto lhe vai contando, em pormenor, do desencanto, do desconsolo, dos ânimos desolados das três.
Da reacção demasiado indiferente, por vezes até aparentemente jubilosa de Leonor. Da realidade dos seus nervos secretamente devastados.
Pedro afaga-lhe as mãos pequenas, nas quais deixa dissimulado um bilhete que já trouxera escrito, tentando animá-las com palavras de afecto e esperança que lhes garante não serem vãs, apesar das mais negras perspectivas contaminadas pela pior crueldade e despotismo, repugnantes ressentimentos e ódios pessoais.
Maria abre um pequeno sorriso triste e guarda às escondidas o papel dobrado, temendo o olhar da prelada que por certo os observa resguardada na sombra, espia do arcebispo de Lacedemónia que as tenta controlar a mando de Pombal,
animal predador.
Mas os olhos de Maria, impacientes, tentam já perceber se entretanto não chegara Francisco Manuel do Nascimento, com quem tinha desde a véspera um encontro aprazado para aquela hora, a mais solitária daqueles lugares de penumbra, quando não eram iluminados pelos outeiros ou outras encenações.
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A revolta que Gonçala sentia
quando, obrigada pelos pais, deu entrada no convento de Chelas, vai-se apaziguando à medida que se aproxima de Leonor e esta a acolhe com entusiasmo entre as suas discípulas.
No início tímida e silenciosa, depressa se torna uma das frequentadoras mais assíduas das aulas e das assembleias que ela promove. Distinguindo-se como leitora voraz e estudante aplicada, seguidora submissa da mestra que se torna a sua única razão de existir.
Ambas apaixonadas pela poesia.
Conversam longamente em voz sumida.
Uma e outra carenciadas de afecto límpido.
De sentimentos facetados como diamantes puros.
De desejos alados em voo de Fénix, a renascerem das próprias cinzas.
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Acostumada a ser a valida primeira de Leonor, Mariana detesta Gonçala desde o dia em que esta entra em lágrimas no convento, e quase de seguida aparece com humildades de sonsa no quarto de Maria, a entrar no cenáculo restrito, intrometendo-se deste modo onde não devia, ultrapassando as discípulas antigas habituadas já umas com as outras, cada qual no seu lugar ao lado da mestra.
Abelha-mestra
como, despeitada, a abadessa chama a Leonor.
Enquanto esta atribui nomes pastoris a algumas delas, a quem dá aulas, ensina literatura, línguas, fala de filosofia, semeando luzes à sua roda.
No final de cada ano todas fazem exames, esmerando-se para lhe chamarem a atenção e serem elogiadas, louvadas, aplaudidas.
Se possível benquistas.
A Gonçala, porém, nada lhe basta: nem distinguir-se enquanto aluna e discípula dedicada, nem como amiga no desvelo de se render agradecida pela generosidade de quem a cuida e envolve em carinhos e festas.
Ela pretende mais, e mal obtém o que quer exige mais ainda.
Mariana, que até à sua chegada fora sempre a eleita, pelo saber e pelo brilho, mas também na compreensão e na ternura, melindra-se, sente-se ressentida e injustiçada. Fílis passara a ser o seu nome, e neste gosto se demora, sonhando sair um dia do convento de São Félix na companhia de Leonor de Almeida.
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No final de cada hora canónica, Gonçala deixa-se ficar ajoelhada na pedra fria, e só quando todas as freiras abandonam a igreja ela se ergue e sai, sobe a escada com o coração amotinado, e ao passar diante do quarto de Leonor hesita e quase pára, atrasando o passo, indecisa. Quando se detém, encosta a face ardente à porta de madeira áspera e arranhada pelo tempo, tentando encontrar algum motivo, escutar um qualquer ruído que a leve a empurrá-la e a entrar, caminhando em bicos de pés até onde a amiga estará deitada.
Bela adormecida de uma história sem príncipes.
Mas o que Gonçala sempre ouve é um silêncio profundo, que a impele para longe, a afasta sem dó nem piedade, a expulsa do longo corredor deserto, caçadora furtiva de sonhos e imaginários inexplicáveis. A deslizar amparada às paredes húmidas, cambaleando até à sua cela onde julga estar a salvo, resguardada dos excessos de si mesma.
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