As Luzes de Leonor
Caderno
Malditíssimo o estúpido fanático
Que encomendou a queima!
Quando dá por falta de Francisco Manuel do Nascimento, Leonor vai procurá-lo e, mal abre a porta da sala que dá para o corredor escuro da casa sombria, escuta o tom dilatado dos gritos e as vozes desabridas que a levam até ao escritório. Sem hesitar um segundo, tenta em vão rodar a maçaneta de vidro verde facetado. E fica todo o tempo, branca como a cal, escutando cada palavra, cada acusação, cada insulto que trocam. Conhecedora de um segredo que lhe envenenará mais ainda a relação com o pai.
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CADERNO
La Princesse de Clèves. Leio devagar Madame de La Fayette, fascinada diante dos complexos jogos de espírito que ela traça e nos dá a ver.
Sinto-me perplexa perante os rigores com os quais se resguarda de si mesma, tentando impedir-se de ir mais além no sentir. Colocando na princesa de Clèves uma paixão que, por ser sentida por uma mulher, logo passa à condição de humilhante e obscura.
Paixões secretas e fatais…
Abrigadas na própria fragilidade?
Lisboa, 2 de Junho de 1778
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Filinto Elísio acorda em sobressalto com as pancadas na porta da rua, que ele vai abrir estremunhado, sem encontrar estranheza no facto de alguém o ir despertar quase noite ainda. Mas ao deparar com o homem mal-encarado que o empurra a forçar a entrada, de imediato se sente desperto. E embora o outro se mantenha em silêncio, ele percebe estar diante de um agente da Inquisição que vem para o prender. Como em situações extremas é tomado pelo discernimento, em vez de se atemorizar propõe com voz calma entregar-se sem escândalo. Mediante esse estratagema consegue autorização para se vestir sozinho no quarto.
Arranja-se depressa, mete nas algibeiras o dinheiro e os poemas que encontra nas gavetas da escrivaninha, e tira de baixo do travesseiro o punhal com ponta de diamante que ultimamente nunca larga. Só então regressa à entrada, onde o esbirro o aguarda encostado à ombreira da porta entreaberta. Avança Filinto, já embrulhado num capote, sem denunciar o alarme que o move. Chega-lhe perto e, antes que ele se mexa, encosta-lhe ao peito a lâmina afiada, dizendo num sussurro abafado:
– Basta um gesto ou uma só palavra e eu juro que vos mato.
Em seguida desce a escada num ápice, derruba os dois homens que encontra à espera junto de uma carruagem com portinholas lacadas de negro – que ele supõe serem do Santo Ofício –, atravessa a correr a rua solitária, dobra à direita por uma viela que conhece bem e, vendo aberto o portão do palácio do conde da Cunha, entra e percorre-o desabrido até encontrar uma saída pelos fundos, que desemboca numa rua estreita e íngreme àquela hora ainda adormecida, por onde segue depressa cosido às paredes. Sem tomar fôlego, dirige-se até à casa do amigo que dali fica mais perto, o comerciante francês Lecussan Verdier, que o recebe de braços abertos e, ao saber o que se passa, lhe dá guarida.
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Sendo por demais perigoso manterem-no escondido duas noites seguidas no mesmo lugar, os aliados de Francisco Manuel do Nascimento revezam-se: um após outro dão-lhe abrigo, enquanto investigam, escutam o que se diz na Corte, nos salões e nas assembleias, nos cafés e nas ruas, sobre o escândalo da sua fuga.