As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 206 de 289

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As Luzes de Leonor

Raízes

†

 

Na véspera de ser decapitada, Leonor de Távora é tomada por uma súbita turvação dos sentidos.

Pela janela de grades entreaberta chega-lhe o aroma doce a madressilva e a crisântemos, temperado pela humidade da terra embebida de chuva. Perfume molhado que lhe parece partir de muito perto, por certo de um canteiro do jardim no qual mal pudera reparar na pressa da chegada nessa mesma manhã à Quinta do Meio, em Belém, para onde a guarda a transferira do convento das Grilas, pulsos atados um ao outro por vários nós cegos, ferindo-lhe a pele delicada onde ressumbrara um sangue descorado.

Apesar de tudo retivera de passagem um maciço de rosmaninho, mas quando pretendera demorar o passo, empurraram-na, puxaram-na, fazendo-a desequilibrar-se nas pedras soltas, mal se apercebendo do arbusto delgado da erva cidreira, com o seu cheiro levemente agreste e que agora lhe parece matizar o delírio que a transporta e quebra, permitindo-lhe evadir-se da crueldade do cativeiro.

Falta pouco para que ela e Francisco de Assis se juntem na morte… E esse pensamento tranquiliza-a, a mente envolta numa espécie de névoa, de bruma que lhe embota os sentidos. Encosta a testa aos vidros da janela embaciados, e por segundos o estonteamento que lhe aperta o peito e lhe enevoa os olhos parece aplacar-se.

Leonor de Távora treme com o frio que trespassa a fazenda fina do vestido cinzento esfiapado na bainha dado por uma dama pensionista condoída com a sua sorte, no dia em que chegara desagasalhada e algemada ao convento. Cruza melhor no peito o xaile colocado sobre os ombros e aninha nele o pescoço alto. Ouve lá fora a tempestade que entretanto se abatera sobre a cidade. A janela onde se encosta deixa passar a ventania, que se esgueira pelas frinchas, as rachas da madeira antiga e lascada, trazendo consigo um cheiro almiscarado às águas mestiças do Tejo e da chuva.

Gostaria de poder tomar para si todos aqueles odores, e desse modo, quem sabe, talvez conseguisse apaziguar o pensamento revoltado que não lhe dá descanso. Mas o sonho que dentro dela ainda cresce consegue transportá-la, fazê-la voar. E vê-se a si mesma a atravessar o parque a caminho de casa. Por entre as recordações intactas, distingue pedaços dos últimos dias antes de a catástrofe ter desabado, decepando-lhes as vidas. Vê-se curvada a apanhar um gladíolo vermelho, tomando-o pelo longo caule verde-ácido. Flor sanguínea tombada mais tarde no chão do quarto, como indício de crime, mancha agoirenta sobre o tapete.

Uma espécie de aragem inexistente perpassa por ela, a fazê-la tremer, teimando em ignorar o medo de que anda tomada. Assim, na véspera de ser decapitada, abandona-se ao arrebatamento da memória que lhe permite sentir-se abraçada por Francisco de Assis que, apaixonado, a toma, a aperta ao peito. E Leonor de Távora desliza ao longo da parede,

permanecendo inerte, enrodilhada no chão.

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