As Luzes de Leonor
A meu Pai
Sobre a secretária a carta parece ganhar um tom mate que a tinta cor de ferrugem mancha: letra miudinha que ele bem conhece, sentindo a farpa inesperada da saudade a cravar-se no sítio onde o peito, embora precavido, permanece vulnerável. Quando a abre com precisão pelo lugar onde o sinete deixara a sua marca, impacienta-se com a fraqueza que o seu gesto revela, sem que em nenhum momento tenha tentado sustê-lo. De entre as folhas de papel holandês o poema destaca-se. Mesmo antes de o ler, sente vacilar o coração que os muitos anos de cativeiro quase haviam transformado em pedra.
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A meu Pai
Aqui, onde mora um cisne
Cuja voz desfalecida
Por entre surdos penhascos
Vaga sem que seja ouvida.
Aqui, onde ao longe soa
O ruído dos contentes,
Flutuando na incerteza
Formo mil votos ardentes.
Mas dos Numes inflexíveis
Só a Febre é quem m’escuta;
Fartando-se do meu sangue,
Contigo e comigo luta.
Se um voluntário sistema
Te prescreve esse retiro,
Vem ao menos confortar
O meu último suspiro.
Firme sem temor da morte
Vejo dissipar meus dias;
Tu, que a vida já me deste,
Dar-ma outra vez bem podias.
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