As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 137 de 289

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As Luzes de Leonor

A meu Pai

Sobre a secretária a carta parece ganhar um tom mate que a tinta cor de ferrugem mancha: letra miudinha que ele bem conhece, sentindo a farpa inesperada da saudade a cravar-se no sítio onde o peito, embora precavido, permanece vulnerável. Quando a abre com precisão pelo lugar onde o sinete deixara a sua marca, impacienta-se com a fraqueza que o seu gesto revela, sem que em nenhum momento tenha tentado sustê-lo. De entre as folhas de papel holandês o poema destaca-se. Mesmo antes de o ler, sente vacilar o coração que os muitos anos de cativeiro quase haviam transformado em pedra.

 

†

 

A meu Pai

Aqui, onde mora um cisne

Cuja voz desfalecida

Por entre surdos penhascos

Vaga sem que seja ouvida.

Aqui, onde ao longe soa

O ruído dos contentes,

Flutuando na incerteza

Formo mil votos ardentes.

Mas dos Numes inflexíveis

Só a Febre é quem m’escuta;

Fartando-se do meu sangue,

Contigo e comigo luta.

Se um voluntário sistema

Te prescreve esse retiro,

Vem ao menos confortar

O meu último suspiro.

Firme sem temor da morte

Vejo dissipar meus dias;

Tu, que a vida já me deste,

Dar-ma outra vez bem podias.

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