As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 89 de 289

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As Luzes de Leonor

Monólogo de Maria Antonieta Rainha de França

É Suzanne Necker quem dá a notícia a Filinto Elísio da chegada a Paris de Leonor de Almeida. E vendo-o de súbito muito pálido nas suas vestes negras, estende-lhe compreensiva as suas suaves mãos macias, a apaziguar-lhe o coração

tumultuado.

 

†

MONÓLOGO DE MARIA ANTONIETA

RAINHA DE FRANÇA

 

Trazia uma carta da Rainha de Portugal e chegou até mim primeiro no Petit Trianon e depois em Versailles pela mão seca e longa de Madame Necker, que me adiantou estar a condessa de Oeynhausen a caminho da corte da Imperatriz Senhora minha Mãe em Viena, onde o conde seu marido irá exercer o cargo de ministro plenipotenciário.

Mas foi a claridade azulada do olhar de D. Leonor de Almeida e o seu delicado e belo sorriso que despertaram a minha curiosidade e convocaram o meu interesse por ela.

Vestida com discrição antiga mas com gosto, vi-a avançar grácil e garbosa até onde me encontrava com Gabrielle de Polignac, cabeça bem erguida e pisando com uma segurança e um orgulho hoje em dia infelizmente raros. Cabelos desempoados e soltos em cachos semeados de minúsculos brilhantes e rubis sangrentos, vestido de seda cor de pérola a fazê-la parecer tão jovem e encantadora que todos se voltavam à sua passagem, admirados, apreciando tanta espontaneidade despretensiosa.

Falando um francês correcto e melodioso, a sua conversação agradou-me, surpreendendo-me infinito quer pela naturalidade e argúcia com que se referia a assuntos de Estado, quer pela cultura e pela inteligência de que deu mostras sem afectação, mas também nunca usando a detestável falsa modéstia tão frequente hoje em dia.

Adivinhei nela um excesso comedido no seu modo aceso, e depois de a Princesa de Lamballe me ter adiantado «é por certo do conhecimento de Vossa Majestade que a condessa de Oeynhausen faz poesia…», fiquei a perceber melhor a inquietação acoitada na expressão do seu rosto. O que reforçou em mim ainda mais a curiosidade pelo seu carácter e a vontade absurda de a poder conservar como amiga, caso tal fosse permitido à Rainha de França, tendo em conta quanto neste país me odeiam.

Chamam-me «cabra austríaca», «coisa ruim, erva má!»

Rogam-me maldições e pragas: «Maldita, maldita sejas, estrangeira!»

«Feiticeira! Feiticeira!» – gritam à minha passagem.

Conforme posso, defendo-me do medo que me vem ganhando ultimamente, como se adivinhasse um futuro de muitos negrumes; consciente de um perigo iminente prestes a abater-se, a desabar sobre mim e os meus filhos.

Sinto como o ódio assume já um ameaçador vulto.

E por vezes, quando estou só, uma espécie de melopeia ou queixa desarmada começa a sair-me dos lábios, numa lenta toada:

– Cospem na minha sombra, põem sal no meu leite, feitiços no meu regaço, entram dentro do meu sono, armam ciladas e laços, deitam veneno nos copos, partem-me os espelhos do sonho, atam laços e dão nós, colocam as armadilhas bem debaixo dos meus passos.

†

Como escrevera com alegria sobressaltada a Maria, e mais moderadamente a Teresa de Mello Breyner, Leonor deixa-se enredar num entusiasmo até então seu desconhecido: o olhar narciso sobre a própria beleza, que os outros a cada passo gabam e ela diariamente aprimora depois de cada banho de água tépida, essência de jasmim e óleo de gardénia.

Aprende a seguir os rigores e a avidez da moda, que naquele ano em Paris toma a cor dos lilases, do «saumon frais et prune, do verde-mar e ovata», em diversos tons que usa sem disfarce da vaidade, consciente de quanto Carlos Augusto gosta de a ver vestida com requinte; ambos cansados dos olhares de ligeira troça e espanto com que a seguem sempre que usa os modelos levados de Portugal.

Corta também o cabelo, como só tem coragem de confessar à irmã: «Sem remédio para escapar à moda cedi a ela e cortei uma grande porção do meu cabelo. Mas só o topete sacrifiquei, o canudo valido, e se minha Mãe me visse deitava-me mil bênçãos porque estou casquilhíssima. Já ninguém põe arrecadas senão as mulheres públicas, todos os diamantes se reservam para braceletes e gargantilhas, com uma medalha na devota, laços de mangas e flores na cabeça.»

Leonor só não cede aos toucados riçados, igualmente bem aceites na corte de Versailles e nos salões literários, nem aos colchetes de cinta que no espartilho ficam «justamente atrás do cotovelo esquerdo, com um grande laçarote muito levantado», a deixá-la sem nenhum ar na prisão do peito.

Sentindo-se um pouco ridícula e não se reconhecendo quando se olha ao espelho, comenta na carta enviada a Maria: «Eu mesma me desconheço, e toda a minha filosofia está tão mascarada, que quem me vê cuida que sou uma boneca das que vemos pintadas nas caixas.»

Ou uma daquelas bonecas que servem de modelo, feitas por modistas e até por damas habilidosas, pequenos manequins para divulgação dos vestidos da moda, e assim trajadas a preceito passarem de mão em mão entre amigas e mulheres de cada família.

O marido sorri ao vê-la tão alindada e distraída.

Sem deixar de ser diversa e esquiva.

†

No salão de Sophie de Condorcet, Leonor brilha.

Que estranho – dizem – ser portuguesa!

Ela procura em torno os filósofos que continua a ler, com os quais ainda sonha, e não os encontra. Voltaire está morto, faltam-lhe Madame de Châtelet, Rousseau e Diderot.

No entanto tem Marmontel à sua beira, a escutar-lhe os versos que, acautelada, traduzira para francês. Pedem-lhe em seguida para recitá-los em português, e ela fá-lo, a encantá-los com a harmonia,

com a melodia da sua própria língua.

†

Vê-a de súbito,

como se fosse um golpe de luz, ao fundo da Sala da Música: vestida de seda carmim, cintura marcada pelo corpete justo, saia a descer ondeando ao longo das pernas. Está parada junto ao cravo a escutar o que lhe diz baixo D’Alembert, enquanto alguém toca uma sonata de Bach.

Estonteado, as faces em fogo, os olhos toldados pela água que os alaga, Francisco Manuel do Nascimento apoia-se por momentos à ombreira da porta por onde acaba de entrar, a dar conta da figura de Leonor de Almeida, muito bela na sua delgadez, tal como a lembrava.

Algum dia poderá vir a esquecê-la, assim como à irmã?

Sem conseguir afastar o olhar, a querer gravar na mente a sua imagem, recua mais na penumbra do umbral da porta. O clima de equívoco, o mal-estar instalado entre ambos desde que sabem ter sido o marquês de Alorna, juntamente com os padres de Rilhafoles, quem o denunciou à Inquisição, obrigando-o a exilar-se em França, contamina o inesperado reencontro. E afinal tanto lhe apetece pegar nas suas mãos como fizera em Chelas, apesar de já amar Maria que tivera de deixar para trás, ambos saudosos das longas tardes passadas na grade do convento. Como a quisera então, e como continua a desejá-la!

Inquieto, demora o olhar no requebro da sua silhueta à luz das muitas velas dos lustres de Veneza que Madame Necker mantém permanentemente acesas no seu salão de lustro aristocrático, onde agora Leonor joga com o leque de seda vermelha, enquanto se entretém com a conversação animada no círculo dos filósofos ao qual se juntara, visivelmente encantada por participar nos seus debates; deleitando-se ao lado de Marmontel, que discute com Suard. A trocar opiniões com Grimm, com Buffond e com Sophie de Condorcet.

Tudo é novo para ela nos salões parisienses.

Entre eles, o de Suzanne Necker é conhecido por ser um espaço de conversação brilhante, de discussões literárias e académicas. Onde a sua jovem filha Louise – a futura Madame de Staël – cresce aprendendo, presa do fascínio do conhecimento por entre os meandros da literatura e da ciência.

Francisco Manuel do Nascimento repara como também esta segue encantada as palavras e os gestos de Leonor que, passado o choque de a ver, percebe ter perdido o encanto inocente, quase o levando a crer estar a deparar-se com uma desconhecida.

Maquinalmente beija a mão nevada de Madame de Marchait, intrigada pelo seu abatimento, a esconder-se no escuro. É nessa altura, quando ele tenta ganhar de novo o abrigo do pesado cortinado de veludo de onde poderá continuar a admirar Leonor de Almeida, que esta se volta e o vê pela primeira vez. Espontaneamente avança ao seu encontro mas, apercebendo-se de que Filinto recua, detém-se com surpresa ferida.

Paralisado, o poeta hesita diante de Alcipe.

Consciente do tumulto dos próprios sentimentos contraditórios, tomado pelo desencanto e a esperança, está certo de que ambos podem ser produto na mesma medida do ardor e do desprezo, da frieza gélida e do incêndio. Naquele curtíssimo instante dá-se conta, aterrado, de estarem a jogar com a sorte, ciente do que perdem caso se afastem para sempre um do outro.

Será o orgulho ferido mais forte que a chama de súbito reacendida?

Pretendem amar ou ser amados?

Admirar ou serem admirados?

Atento à expressão do seu rosto, vê-a mudar de veludo em aço, de doçura em raiva, notando ainda quanto o espaço entre ambos parece arrefecer e alargar-se.

Um mar inavegável.

Na verdade, Francisco Manuel de Nascimento, em vez de se lhe dirigir retrocede, tropeçando na batina que se lhe enrola nas pernas, a sentir-se empurrado pela força do próprio ressentimento. E nesse preciso momento arrepende-se de não a ter procurado quando ela chegara a Paris, de não se lhe ter dirigido nessa noite quando entrara no salão de Madame Necker.

Agora é demasiado tarde.

†

Magoada pela injustiça,

Leonor detém-se sob o brilho frio dos lustres de cristal de Veneza, que lhe sublinham a suave curva dos ombros tépidos descobertos pelo decote.

Francisco Manuel do Nascimento estranha nela aquele arremedo de nudez que o perturba. Turvada de novo a vista pela chuva dos olhos, uma vertigem rodopiante encosta-o à janela, e tão confuso lhe está o pensamento que mistura o tempo entretanto passado, pois embora longo lhe parece curto, como se desde a fuga de Lisboa não tivesse decorrido mais que um curtíssimo segundo.

Ao pé dela é tudo sempre tão desconcertante!

Tão inesperado e contraditório!

Não fosse terem nascido em mundos opostos, teriam partilhado o maravilhamento da poesia, a lucidez da razão, a descoberta das Luzes que desde menina Leonor admirara nos livros, na filosofia, mas cujas consequências na vida real talvez não consiga suportar.

Ou não saberá conviver com elas?

Ou não conseguirá viver nelas?

Sentindo-se injustiçada, Leonor volta-lhe as costas, afastando-se com determinação orgulhosa. E apesar da distância a que se encontram, a Francisco Manuel do Nascimento parece-lhe sentir o odor da sua pele, o cheiro daquele corpo que indevidamente deseja.

– Vamos embora – adivinha-a a dizer num sussurro cansado, enquanto inclina a cabeça encaracolada no ombro do marido. E as pérolas semeadas nos seus cabelos de ouro tomam de súbito uma intensa tonalidade ambarina.

†

«Imagine querida mana da minha alma,

que gosto me daria uma carta (duas) suas quando a minha melancolia me figurava mil horrores e me tirava toda a esperança de semelhante fortuna. Esta querida carta além da consolação que me dá com a certeza de que vive, e que não está doente gravemente como eu supunha, alegra-me por ver que sustenta a sua razão, a sua Filosofia e a sua religião quando lhe é mais necessária. Querida mana! Dou mil graças a Deus por este benefício e creia que a sua paz é o que eu reputo por minha fortuna. A minha alma acostumada à sua, de si leva por toda a parte umas saudades e umas esperanças que nutrem a minha ternura a um ponto inexplicável: os nossos corações uníssonos em todas as situações se conformam; a alegria tumultuosa tem para mim honras de um pesar vivo, e com o seu sistema não vejo nisso mais que um efeito da necessidade e das circunstâncias sem deixar que me perturbe, nem que me domine.

Eu e sir Charles, a mana, meus Pais e o mano, fazem em Paris o meu entretenimento como em Lisboa. Tudo o mais me fica em certa distância e muitas vezes a perder de vista. Madame une telle ocupa-se de Mr. son amant, une autre de la Comédie, une autre de la promenade, e todas da frivolidade e da intriga. Os meus costumes e as minhas ideias nada compatíveis com isto me fazem ver tudo como ópera de bonecas, e sem entrar em nada tenho horas deliciosas com o socorro da Filosofia.

Filinto não me quis ver nem falar, mas eu aqui lhe deixarei provas de que se engana muito quando me confunde com o vulgo. É triste cousa nascer em certa altura, que os que nascem mais abaixo por mais juízo que tenham não vêem em nós senão o que vêem no maior número. Eu parto daqui com a máscara que me põe a sua imaginação, mas consolo-me de que debaixo dela existe a mesma Leonor, a mesma Alcipe de quem ele fazia bom conceito.