As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 7 de 289

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As Luzes de Leonor

Memória

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Nunca sei o que em mim é memória ou recriação.

E nesse meu engenho de poeta, julgo-me melhor no inventar dos versos, postos mais na intimidade do peito e bem menos no alento do corpo e seu fogo; e se nele mal se reacende a chama logo me apresto a apagá-la, faço-o sem o menor regozijo, desejando eu pelo contrário ateá-la. Mas a razão sempre se encarrega de me lembrar quanto o coração debilita, a ponto de me levar a esquecer como o bem e o mal se assemelham, tal como o mar e o rio, que na sua branda fusão na mesma foz se misturam.

Continuo no entanto atenta aos prazeres, mesmo se vindos pelo lado da sombra, lamentando não ter sido mais voraz, mais tenaz, mais implacável, sem arrependimento de nada. E apesar de o tempo ter em parte atenuado o ruído da paixão e do ressentimento, reconheço o pulsar do incautelado amor nas minhas veias, assim como o incontornável caudal da ira, sinal inequívoco do quanto estes sentimentos continuam a fazer-me vibrar.

Na determinação inquebrantável de me manter intacta.

Hoje já não me iludo ao reconhecer os sinais do desassossego, consciente do pouco que me sobeja, mas também daquilo que em demasia me falta; a confrontar a lividez do presente com o fogo e o fulgor do passado, quando exigia da vida o impossível, pois então tudo me parecia fácil, tomada por emoções, que na altura – sabia – só poderiam parecer condenáveis; e por isso encobri paixões ou iludi-as, simulando submeter-me, fingindo ser o meu avesso, embora interiormente inconformada com os limites impostos pela condição de mulher. Ambiciosa como Madame du Châtelet, à revelia da vontade de Voltaire.

Ontem, dentro de um volume de poesia de Byron, descobri sonetos escritos nos meus primeiros anos de exílio em Londres, sendo neles bem visíveis não só as raízes como também a floração da trepadeira da desobediência, num obstinado e contínuo crescimento. Quantas vezes perdi e reganhei alento para ir mais além, apesar da nenhuma protecção, a percorrer decidida as estradas da Europa.

Dessa época guardei a forte determinação que só agora, depois de velha e julgando-me acabada, há quem pareça apreciar enquanto traço do meu carácter e personalidade; sem se aperceber como o fogo se mantém aceso no meu peito, nem como continuo sufocando diante da mediocridade, negando-me a permanecer desmerecida num terreno devastado, onde nenhuma planta vinga, por entre cardos e espinhos.

«Não acende um só suspiro. Chama que devo apagar: Siga-se à dor o silêncio. Vencer é saber calar.»

Mas não terei eu, afinal, calado demasiado de mim mesma?

Na verdade muito se fez a fim de me anularem, destruírem-me os anseios, o voo, impedindo-me de cumprir os meus maiores desejos e vertigens. Por isso, quando hoje quero ir atrás das próprias pegadas, só o consigo fazer se seguir pelo terreno da palavra escrita, pelo corpo da poesia.

Quantas vezes senti estar a fazer a travessia de um infindável deserto por demais hostil? E apesar de tudo teimei em atravessá-lo, na obstinação de descobrir um oásis onde pudesse encontrar água para a minha sede, sombra para o meu impiedoso sol, suavidade para temperar a minha intranquilidade e desassossego. Impossível refrigério para quem como eu tão depressa se aceitava e lutava desejando ser aceite, como se recusava e diante do rejeite dos outros quase se perdia.

Será que a minha vida poderia ter sido diversa?

Os dezoito anos que me vi forçada a passar no convento de São Félix, em Chelas, pela suprema vontade de um déspota, cedo me determinaram a existência, pois ao condenar à morte os meus avós Távora, ao prender o meu pai nas masmorras da Junqueira e ao mandar enclausurar a minha mãe num mosteiro, comigo e a mana Maria no rasto e sombra da sua saia, julgou Sebastião José de Carvalho e Melo salgar o chão do meu destino.

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