As Luzes de Leonor
Papel Encontrado Dentro do Diário de D. Mariana de Arriaga
a descobrir assustada uma intranquila rosa sanguínea na brancura do pano.
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PAPEL ENCONTRADO DENTRO DO
DIÁRIO DE D. MARIANA DE ARRIAGA
Tocam cravo primeiro, depois recitam poesia.
Às vezes trocam: primeiro declamam os versos e em seguida sentam-se ao cravo.
Conversam noite fora no quarto uma da outra.
Confessam os sonhos, tentam ganhar o tempo que perderam zangadas, evitam mencionar o nome da condessa do Vimieiro e bebem malvasia, falam dos livros que trazem na memória, e quando desperta o sol no horizonte têm saudades da noite que termina, a alva perdida em neblina a trepar-lhes devagar pela nudez dos braços.
Enovela-se depois nas pernas o tule amarrotado das saias leves numa nuvem branca, indo mais longe entornar-se rubro na brandura das rendas, na turvação das sedas, a descobrirem já os corpos mate. Indolentes desfazem os laços da cintura, cabelos soltos dos pregos encimados por sangrentos rubis e ouro forte, enquanto na morbidez da pele murcham as rosas postas por elas na orla dos decotes.
Em segredos divagam, vibrantes, quebradiças.
Entontecidas ambas com os odores de almíscar e nardo, os dedos de fuso distraídos desfiando diamantes e opalas, desatam intimidades e, enquanto isso, repetem devagar os nomes próprios embriagadas as duas pelo riso.
Porfiando em encontrar motivação segura para não acreditarem no destino sem iludirem porém as clausuras: a da viuvez no caso de Joana Isabel, e a de Leonor liberta há pouco, mas já ameaçada por uma nova prisão imposta e feminina; momentos de loucura que os versos cruzam e a vida descruza numa avidez imprópria.
Incrédulas, vão tecendo inquietudes.
Portadoras de fogo e desmesura.
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Quando o ministro Aires de Sá e Mello encontra na Corte de Almeirim o conde de Oeynhausen, acabara de passar ao papel a decisão ajustada pela Rainha D. Maria sobre as queixas apresentadas por oficiais do Regimento de Valência do Minho contra ele, há dez meses seu coronel comandante. Alegando estes oficiais aspectos vários ligados ao trato pessoal e a matéria disciplinar.
Tenta ainda desviar-se, a fingir-se atento às conversas e discussões, mas o conde, que a partir do pouco ouvido desconfia que Aires de Sá e Mello já sabe qual a decisão da Soberana sobre a queixa dos seus subalternos, agiliza o passo acenando-lhe, decidido a falar-lhe. Mas logo o outro se esquiva, e em seguida o desanima com o sigilo que guarda, garantindo nada saber ao certo sobre tão delicada matéria.
– Por motivo do desastre sofrido pelo conde de Bobadela, quem esteve encarregado do inquérito, tanto do interesse de Vossa Excelência, foi o inquiridor Diogo Ferrier. Será ele também a informar o senhor conde de Oeynhausen da Real decisão de Sua Alteza acerca deste caso.
Carlos Augusto põe a mão longa e macia no ombro do ministro. E a fitá-lo nos olhos pequenos diz, usando de prudente brandura:
– Seja qual for a decisão, quero afirmar a Vossa Excelência aquilo de que, por certo, já tem conhecimento: o pedido feito por mim a Sua Majestade, no sentido de ordenar a minha audição em Conselho de Guerra, para que possa defender a minha honra frente a quem me acusa.
Sem resposta para lhe dar, cala-se Aires de Sá e Mello e um silêncio pesado cava-se entre ambos. A certa altura, porém, dando-se conta do imenso tempo em que estão naquele calamento, o ministro encara-o interdito a desvendar-lhe a crispação do rosto e do olhar turvado. Curioso, Sá e Mello vira-se a fim de descobrir o que tanto ele fixa, absorto, e descobre à entrada da Sala da Música, de costas para o arcebispo de Tessalónica no seu hábito branco de carmelita, D. Leonor de Almeida, esbelta num vestido cor de jasmim-claro, gargantilha de esmeraldas no decote, em empenhado debate com D. Joana Isabel de Lencastre Forjaz, leque de plumas rubras a tapar-lhe o riso.
A completarem-se, a harmonizarem-se.
Como amigas e como poetisas.
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Decepcionada com o facto de Leonor ter reatado com Joana Isabel Forjaz uma amizade perniciosa sob todos os pontos de vista, Teresa de Mello Breyner regressa mais cedo a Lisboa.
Olhar vago, vazio e perdido.
A seu lado, o conde de Vimieiro respeita-lhe o silêncio, embora não compreenda a melancolia da mulher e menos ainda a amizade feminina na sua exigência e entrega tempestuosa. Com os homens tudo é mais simples, sem aquelas perplexidades aturdidas e aflitas.
Mal chegara ao Palácio de Almeirim Teresa compreendera tudo o que estava a passar-se com a amiga, embriagada com a liberdade.
Um brevíssimo segundo bastara-lhe.
Mesmo o namoro firmado por Leonor com Carlos Augusto de Oeynhausen, que percebe demasiado atordoado pelos próprios sentimentos onde já impera uma paixão de que ele não tem hábito. Tentara ainda chamar a amiga à razão, mas ela mantivera-se indiferente às suas posições e a firmar-se nas suas.
Indiferente aos argumentos invocados.
E isso magoara-a.
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Depois de ter contornado a longa álea de limoeiros doces, apercebo-me de Leonor de Almeida a subir, no seu passo ao mesmo tempo decidido e alado, a alameda de jacarandás juncada de flores, a luz irisada do fim da manhã nimbando de azul-pervinca o fulgor do tafetá do seu vestido aceso, de tão branco e leve, ao sol do meio-dia.
Um inesperado vento vindo do lado dos maciços de cravos-da-índia, ou das moitas de rosmaninho e de erva-cidreira, vai moldar-lhe, tépido e sem pressa, as pernas altas e esguias na saia de shantung. Julgando-se só, não cuida ela de tapar o arrebatamento expresso pela intensidade misteriosa da expressão do seu rosto habitualmente pálido, nem tenta apagar o sobressalto dos olhos cintilantes e perdidos no sonho.
Paro antes de ela se aperceber da minha presença e fico de longe a admirar-lhe o porte esguio, a delinear-lhe os contornos dos seios pequenos e firmes, a dedilhar-lhe a doçura da pele rosada. Cabelos dourados ondeando soltos, onde mal se equilibra um pequeno chapéu de palha preso apenas por dois pregos de ouro encimados por turmalinas e jaspe sanguíneo. Sem conseguir entender aquilo que nela tanto me atrai como me assusta.
E ao vê-la aproximar-se, balançando com a mão desenluvada a bolsa de seda carmesim, pulso nervoso onde se enreda um fio de águas-marinhas e topázios, mostro-me e começo a avançar na sua direcção, ousadamente sorrindo-lhe, coração descompassado no peito.
– O senhor conde de Oeynhausen veio hoje mais cedo… – diz-me com ironia reticente.
– Nunca é demasiado cedo para ver Vossa Excelência – respondo-lhe, inclinando-me. E, alvoroçado, tomo-lhe a ponta afuselada dos dedos para os levar aos lábios.
Suspeitando que ela será o único amor da minha vida.
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«Será sempre assim, imprevisível e secreta» – imagina a belíssima condessa de Soure enquanto fita Leonor a declamar os próprios versos. Insaciável também, com aquela linha severa que por momentos lhe adelgaça a boca ávida.
Alimentada por sonhos impossíveis.
Sibila que se aprimora na arte dos sonhos visionários em busca da poesia. Mostrando-se indiferente a quem a queira fazer sua, a quem a galanteia, lhe faça a corte.
Fria e distante.
Enquanto os olhos prometem outra coisa.
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Para surprender e também para agradar a Leonor de Almeida, o Príncipe D. José convida Filinto Elísio para ir declamar versos aos serenins do Paço Real de Almeirim.
Quando o vê deslocado e obscuro no meio dos fidalgos aperaltados e das damas que fazem cintilar beleza e jóias, ela vai em seu auxílio, guiando-o para um canto a fim de conversarem mais à vontade.
– O que fazem poetas como nós por estes sítios? – pergunta-lhe ele, cabisbaixo.
Leonor envergonha-se e ri para não ter que lhe responder, e a aliviar a culpa de ali estar por gosto a deleitar-se com a doçura da frivolidade e do fausto.
– Cede-se com demasiada facilidade ao nosso oposto e princípios. E ao perdermos os ideais estamos perdidos – continua Francisco Manuel do Nascimento, de olhos em baixo.
Inquieta, Leonor aproxima-se mais no recanto sombrio e quer saber o que se passa com ele, seja o que for que assim lhe cava as olheiras no rosto emagrecido, lhe trava a ironia e apunhala o peito com a tristeza mais funda. Francisco Manuel cala-se primeiro, mas depois desabafa:
– Estou a ser investigado pela Inquisição. Fui denunciado.
– Denunciado por quem? – quis saber Leonor, mas ele desvia o olhar vazio e cala-se. E quando fala é para perguntar por Maria com a voz embargada.