As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 238 de 289

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As Luzes de Leonor

Caderno

 

«O tom que os homens usam com as mulheres, mostra o grau de cobardia ou de honestidade de que são dotados. Aquele que as maltrata é um celerado, pois elas não têm idêntica força física. Já aquele que as insulta, seja com propósitos sedutores ou através de calúnias, é seguramente um homem deplorável.»

Lisboa, 10 de Setembro de 1798

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Quando o conde de Ega vê pela primeira vez Juliana numa das assembleias de sua mãe Leonor de Almeida, não reconhece nela a menina grácil e gentil de que se lembra. Mas o duque de Lafões com quem conversa, adivinhando-lhe a curiosidade, aviva-lhe a memória acerca da filha dos condes de Oeynhausen, que nascera em Viena e só viera para Portugal com oito anos de idade.

«Tão criança que é hoje ainda!» – pensa, encantado, Ayres de Saldanha e Albuquerque, e sem tirar dela os olhos leva o resto da noite a observá-la de longe. «Volto nas próximas assembleias…» – promete a si mesmo. E na vez seguinte aproxima-se, com atenções rapaces, jogando com a sedução de ter mais do dobro da sua idade.

Juliana, sem saber do conhecimento que ele possui dos seus poucos anos, passa a estar ainda mais empenhada no crescer antes de tempo, no uso de vestidos de seda de França, ademanes afectados, sinais colados na pele de donzela a fingir-se mulher à revelia do olhar desatento da mãe.

É em vão que Frederica, apreciadora da elegância, chama a atenção da irmã para o exagero dos fatos que passara a usar, o ridículo da pele mosqueada e dos penteados artificiosos, mas Juliana que se sente lisonjeada com os devotamentos, os zelos, os olhares de raspão através das pálpebras semifechadas e as frases fugazes e ambíguas do conde, ignorando ser a extrema juventude que o atrai, não desiste de querer aparentar uma idade que está longe de ter.

Humedece os lábios vermelhos.

Põe novos sinais nas faces.

Sublinha com lápis os olhos violeta.

Baixa o decote de que a mãe proíbe a ousadia.

E quando durante uma das suas assembleias Leonor repara em Juliana assim ataviada, não reconhece naquela mulher feita a filha que todos os dias vê em sua casa. Dando-se conta ao mesmo tempo de estar Juliana menos interessada nas discussões sobre música ou literatura, do que em se enamorar ou ser seduzida «por um dos meus próprios amigos e quase da minha idade!». Sem entender como o conde de Ega se pode interessar por aquela bela rapariguinha imatura.

– Mas a tua filha está uma mulher! –, contrapõe Catarina, quando Leonor a procura no dia seguinte a contar o sucedido.

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Relutei muito antes de mandar chamar Leonor.

Consciente de estarem a esgotar-se meus últimos dias, embora conseguindo ainda esconder a dor, navalha de lâmina cruel a cravar-se do lado esquerdo do peito, lugar onde por vício a morte cravava as suas unhas. Coração arritmado e latejante a esvair-se já, afundando-se, a afogar-se no seio do próprio desassossego.

Astucioso modo de me tirar a vida, desenredando-a, trocando-a pelo mistério da morte que nem a fé, a teologia ou a metafísica nunca deslindaram; a distanciar-me eu, mais uma vez, da realidade e da razão que Leonor tanto preza. Ignorando quantos dias me restam, queria pela última vez apertá-la nos braços, demasiado presa ainda às coisas terrenas para poder partir sem dizer adeus à minha maior amiga.

Vi-a chegar tremendo, cabelo arrecadando a luz da tarde, arrepio de medo no atropelo dos nervos; amarrotada nas mãos trementes trazia a licença concedida pelo Príncipe D. João, para que lhe fossem abertas as portas do convento de Santos, a despedir-se de mim.

Trazia uma açucena lívida debruçada na tepidez do seu decote de seda, como se fosse luar derramado, eu que nunca cheguei a ver a luz do seu joelho.

Encontro nela o olhar líquido de lágrimas mal seguras sob as pálpebras, pressentindo-lhe o corpo febril que ansiava por se colar ao meu a tentar salvar-me, pois nunca esmorece a esperança de quem ama, quer de paixão recolhida, quer de amizade na sua desmesura.

Sempre me senti inquieta diante dos afectos.

Acabando Leonor por me tomar nos braços, desalinhando a frieza intacta da dobra do lençol sobre a coberta fina, só então reparando na névoa que começava a toldar-me o olhar no limiar do abandono da cintilância, deixando em seu lugar uma claridade esvaída que me dá a ver os erros e as cicatrizes que ao longo dos anos me foram marcando a alma. Amargurando-me agora com a cobardia que sempre me tolheu e me impediu de saber mais, de querer mais, de ir mais longe.

Derrubada pelo medo ao perceber que eu desfalecia, soergueu-me Leonor até ao calor do seu hálito de lavanda e mirto, o rosto pálido dela curvando-se sobre a lividez do meu.

Mais uma vez separadas.

Pois na minha morte, sentida por ela como uma perda, era eu que me perdia: perdendo-me a mim e a ela no mesmo acto. Rconhecendo-me na queda, quando pela última vez a vi partir a caminho da vida.

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Dias depois de ter desembarcado em Lisboa, William Beckford recebe em Monserrate a visita de boas-vindas do marquês novo de Marialva, caindo nos braços um do outro num abraço longo, vigoroso; e Beckford, ansiando por saber notícias da família do amigo, pergunta sobretudo por Pedro, seu irmão mais novo, por quem sente inclinação, também pela sua lindíssima irmã D. Henriqueta, casada com o duque de Lafões apesar da grande diferença de idades. E com o olhar um pouco toldado, surpreende D. Diogo ao indagar por D. Eugénia de Meneses, a prima melancólica e tímida dos Marialva, aia da princesa D. Carlota Joaquina, de quem ele deseja igualmente saber novas, assim como do Príncipe D. João e da Rainha doente. Num nunca terminar de perguntas e de saudades difíceis de apaziguar.

Mas aquela pergunta que mais surpreende o marquês novo de Marialva é feita já durante as despedidas, de uma forma falsamente desprendida, de interesse disfarçado:

– Talvez D. Diogo me saiba informar se a condessa de Oeynhausen, D. Leonor, se encontra neste momento em Lisboa…

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Carlota Joaquina olha admirada a criança grande e forte que acaba de pôr no mundo, depois de ter deslizado sem custo dentro dela até chegar aos braços das parteiras e dos físicos da Corte, olhos claros de porcelana abertos e fixos naquilo que o rodeia num entendimento mudo. E se o menino com tantas estranhezas lhe provoca algum susto, também sabe que a partir desse momento será o melhor garante dela na Coroa Portuguesa. E, rejubilando, imagina a decepção dos seus maiores inimigos.

Depois de, meditativa, o ter fitado durante horas, resolve atribuir-lhe nome de rei português, com raízes na crueldade e na paixão pelo lado da literatura, história cantada ao longo dos séculos por trovadores e poetas. Curto e rápido de dizer, como cerda a arranhar os lábios caso não fosse curvo e não fosse de seda, a selar uma vida no começo:

Pedro.

Mais tarde adiciona-lhe Alcântara Francisco, como se nele quisesse experimentar o gosto da trivialidade. Mas quando do seu nascimento, Carlota Joaquina decide apenas chamar-lhe Pedro. Só mais tarde lhe dará outros dois nomes, António João, e em seguida Carlos Xavier de Paula.

Nas primeiras horas, porém, fora somente

Pedro.

Como se cantasse em silêncio esse curto nome, embalando-se a si própria sem desviar os olhos do filho que, ao contrário dos anteriores, deseja guardar a seu lado. Não por a inquietar menos: pelo contrário, a Princesa pressente que irá ser ele a derrubá-la pelo lado da ambição de ambos.

É o que julga adivinhar-lhe no olhar translúcido cravado nela.

Mesmo assim Carlota Joaquina chama Pedro ao recém-nascido. E como se quisesse conjurar os malfeitos, os bruxedos e as feitiçarias que andam à solta pelos salões e corredores do Palácio de Queluz, acrescenta-lhe nomes de arcanjos:

Miguel e Rafael.

Neles parando a contrariar-se na superstição indesejável, e tomando as rédeas do próprio controle vai em busca de um nome vulgar para temperar tanto brilho: Joaquim. Mas, como se recuasse arrependida ou jogasse com o destino e a sorte, decide de um fôlego juntar-lhe mais quatro:

José Gonzaga Pascoal Cipriano.

Ri-se sem pressa, e imaginando escutar à sua volta um barulho de asas a tranformar-se em ruído de armas na encruzilhada de combates, batalhas e cercos, a Princesa do Brasil crispa-se, apressando-se a invocar outro arcanjo para junto da cabeceira do seu leito de dossel, perto do qual num berço de tule e rendas a criança continua num contentamento sem choro, nem entendimento dos receios que a mãe quer exorcisar, ao aditar-lhe o nome do arcanjo que ela julga velá-los:

Serafim.

E Carlota Joaquina junta por último o próprio apelido espanhol ao português do marido, o Príncipe D. João. Aqueles pelos quais o filho será muitos anos mais tarde conhecido:

Pedro de Bragança e Bourbon.

 

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