As Luzes de Leonor
Diário
Espaços obscuros onde o olhar se quebra.
Cruz de duas travessas na parede da cela.
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DIÁRIO
Neste ir e vir constante, cada vez mais decidida a largar Almeirim para voltar a viver em Lisboa, nem me dou conta de como o tempo se decompõe na sua imponderabilidade.
Enquanto a alma se cura das feridas.
Continuando o corpo, expectante, a rebelar-se tenaz contra a monotonia que o entorpece; enquanto o vou forçando a continuar inerte, hesitante ainda.
Neste início de 1794,
jogam-se as águas revolvidas no equinócio do inverno.
Almeirim, 1 de Fevereiro de 1794
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Raramente põe espartilho e usa vestidos simples de lã quente e macia, a tombarem direitos no afloramento das ancas magras, mesmo quando aparece no final das lições dadas por uma mestra a quem ela paga, a fim de se inteirar do progresso conseguido pelas raparigas de Almeirim no conhecimento dos números e da tabuada, das letras e da leitura aprendidas pela cartilha; mas também para lhes ler versos: as poesias que anda a escrever, para as filhas aprenderem com mais gosto a História de Portugal.
Entre elas há as que mal conhece, outras são criadas de lavoura na quinta, ou criadas de sua casa: cozinheiras, engomadeiras e ajudantes da copa, costureiras e lavadeiras, todas elas descalças, pés ásperos e grossos com dedos largos a rebelarem-se contra os chinelos e socos que manda comprar-lhes; lenços tapando em algumas o desmazelo dos cabelos enriçados, aventais brancos compridos e largos a cobrirem-lhes a pobreza rota ou passajada dos trajes.
Queixa-se a professora do desinteresse de grande parte delas, cabeceando sobre os cadernos abertos nas mesas; em contrapartida há as que tomam gosto pelos estudos e aprendem a ler com facilidade. Geralmente são essas, também, as mais atentas aos versos de Leonor.
A maioria, porém, prefere as lições de bordar e de cortar vestidos pelos moldes, de fiar, de coser e de passajar. Porque «bom é aquilo que as ajudará a encontrar arrimo diante dos reveses da vida» – adiantam as mães, desconfiadas, desdenhando e suspeitando do ensino de ler e escrever que, segundo elas, só serve para acordar ideias de grandeza falsa nas cabeças estouvadas de quem não nasceu talhado para tanto.
E como Leonor mandara ensinar sobretudo as mais novas, a inveja acaba por fazer ninho no coração das outras, em relação àquelas que estudam, debruçadas nos livros, mais parecendo descansar ao aplicarem-se nos cadernos onde, apesar das linhas, desenham tortas as palavras, das quais a maioria desconhece o sentido, penas a escaparem-lhes dos dedos mal afeitos a tais trabalhos, semeando borrões de tinta nas páginas brancas.
Há também as que têm inclinação natural para os bordados, para a costura e as rendas. Uma vez por semana chama-as à parte, e encomenda-lhes peças de roupa que compra, embora elas sejam suas criadas. E através do enredamento da conversa, vai tentando aperceber-se dos seus sonhos.
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Amodorrada junto da lareira faz sonetos que manda a Joana Isabel Forjaz, escreve longas e inúteis cartas que jamais chegarão a Théroigne de Méricourt, internada em Salpêtrière, e bilhetes a Catarina encomendando-lhe livros, mas proibindo-a de contar as intrigas da Corte ou sequer dar-lhe notícias de Lisboa. Desiludida, pensa em Teresa, trancada por vontade própria no Convento de Santos, e em Gonçala em clausura forçada, sem dela nada saber há bastante tempo.
Escreve quanto pode, no seguimento de modos e maneiras de quando estava no convento de Chelas: cadernos em cima dos joelhos subidos, tinteiro equilibrado na ponta da mesa onde os papéis se misturam e amontoam.
E também lê.
Lê muito.
Por vezes julga reconhecer-se em algumas das personagens dos romances que devora com voracidade, ou mesmo nas suas musas motivadoras, ansiosa por poder vir a ser a Carlota do Werther de Goethe, ou a Laura dos versos de Petrarca, a Ofélia de Shakespeare.
Cada dia que passa fica mais difícil acreditar nos benefícios do isolamento e da solidão, enfastiada e cada vez mais desejosa de regressar a Lisboa. O tempo de luto terminara, embora nas suas odes continue a recriar uma dor que afinal nem sente.
Quando vai para o terraço assistir ao pôr-do-sol agasalha-se com xailes de lã a defender-se do frio que é rigoroso no inverno de mil setecentos e noventa e quatro, arrastando consigo o granizo e a geada, numa espécie de raiva surda da natureza que chega a atemorizá-la.
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Usam cachecóis nos dias de inverno quando vão a Lisboa, embrulhadas nas capinhas de macia fazenda inglesa azul-forte: meias de lã as meninas, sapatos de pelica com presilha no peito do pé, apertada com um botão redondo; e até João Ulrico tão menino ainda usa botas com sola de couro, gorro na cabeça, invejando as irmãs ao vê-las aquecerem as mãos nos seus pequenos regalos de pele de marta.
Leonor Benedita teima em continuar a cumprir luto pela morte do pai, veste-se de preto, acende velas e reza na capela terços pela sua alma, enquanto Juliana briga para usar laços de cores a enfeitar os cabelos, vestidos de chiffon, de crepe chinês e de musselina em tons verde-esmeralda e verde-jade, cor-de-rosa e amarelo-dourado, a condizerem com a cor dos seus caracóis soltos e fazendo sobressair a brancura nacarada da pele.
Henriqueta e Frederica aceitam, desinteressadas, aquilo que lhes é vestido, distraídas com o que se passa à sua roda: as horas dadas pelos relógios de cuco, o barulho da lenha a ser partida no pátio, o piar dos pássaros e o ladrar dos cães a chegarem-lhes pelas janelas entreabertas, as conversas abafadas vindas da cozinha, ou mesmo os silêncios repletos de zunidos, de sussurros, de murmúrios, de zumbidos, de silvos, de vozes indistintas e misteriosas que mal aparecem logo se afastam delas.
Enquanto Leonor, parecendo indiferente à realidade, apenas sente prazer em escrever e ler. Gosta de cuidar de Luísa ainda tão menina, boneca roliça e turbulenta a esgueirar-se-lhe do colo para fugir descalça derrubando tudo por onde passa, furacão tão depressa de riso como de lágrimas. E quando as filhas menos esperam, toma-as nos braços, a apertá-las ao seu corpo por vezes trémulo.
Ou serão elas que, assustadas com o brusco abraço com que a mãe as ata e desata dela,
estremecem de desamparo?
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Gonçala dá consigo a pensar nos anjos caídos.
Na sua beleza tumultuada a incendiar-lhe os silêncios demorados na saliva gulosa da boca.
A humedecer a língua, os lábios.
Tenta entender a atracção que sente, escondida de si mesma, pelas asas toldadas a desdobrarem-se em tonalidades macias de damasco. Gosta de imaginá-las tecidas de zimbro e plumas, de pérolas e opalas; penas de seda frisada, fiadas pela luminosidade irisada dos ombros pálidos dos arcanjos. Asas a moverem-se, vagarosas e sedentas, de uma lonjura triste, ondeando, sombreando a cintura, as ancas estreitas. Pele arrepiada pelo crivo da aragem no fingimento das fragrâncias das bétulas e dos jardins de lilases.
Odores almiscarados que ela imagina a enroscarem-se nas ilhargas dos seres alados, desabituados já da firmeza dos pés na secura do chão, do desafio do prazer, do gosto acre do desassossego que semeia a desordem.
Na queda.
Pelo interior das trevas.
Quando Gonçala, martirizada pela solidão, os jejuns e as febres, as noites passadas em branco no rigoroso cumprimento das horas canónicas, começa a ter visões, dá-se conta de um fogo, tão sombrio quanto a lava, a correr-lhe nas veias.
O corpo em sobressalto.
O coração em chamas.
A fazê-la lembrar as poetisas místicas, seus pensamentos e versos aos quais sempre volta, a relê-los nos papéis onde foram traduzidos por Leonor. Guardara-os na fundura da arca ao lado da cama, tal com os poemas da amiga, escondidos sob os escapulários e a roupa branca, ou junto às gravuras dos santos entre as folhas do missal.
Mal se deita, entre as matinas e as laudas,
torna a escutar o macio ruído do leopardo a deslizar em torno da sua cela, a brasa fendida dos olhos amarelos a cortar cerce o negrume da noite.
Fixos nela.
Assim, num trespassamento perplexo, Gonçala reflecte de novo sobre o esplendor que se desprende de Teresa de Ávila, e seu estranhamento diante dos anjos caídos,
que com extremo cuidado a levitavam.
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Chegada a primavera, ajudou Thérèse a colocar nas janelas do seu gabinete de trabalho as transparentes cortinas de musselina branca mandadas fazer às raparigas de Almeirim, da aula de bordar e coser.
Com o pé descalço empurrou a banqueta de veludo até perto da janela, ergueu a saia de tafetá azul-forte com uma prega profunda por onde escapava a saia de forro amarelo e, sorrindo, subiu perante o espanto de Josefa e de Thérèse, que amparavam nos braços as cortinas costuradas, franzidas com linha de seda, entremeios de renda e bainhas abertas arrematadas sem nó.
Depois estendeu a mão direita para agarrar o tecido levíssimo, e virando-se de novo esticou os braços para o alto, dedos a aflorarem os varões apoiados nas quilhas por cima de cada portada. Constatando no fim como a musselina adoçara a claridade intensa que inundava a sala de trabalho onde ela passava grande parte dos seus dias.
Quando as criadas saíram fechando a porta atrás de si, Leonor sentou-se à escrivaninha, cotovelos apoiados no seu tampo de lustro, rosto encostado nas palmas das mãos em concha. Sentindo o febril perfume da gardénia e do amaranto na própria pele; olhar distraído a tentar penetrar na penumbra, à qual a luz coada emprestava um inesperado e doce tom ambarino.
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Leonor Benedita sempre que pode esgueira-se por entre as árvores e, sozinha, vai até ao rio medindo os passos curtos, saia de organdi erguida, cuidando que a bainha bordada a ponto pé-de-flor com linha lilás não arraste na terra, a levantar consigo poeiras e odores rasteiros que a nauseiam, pequenas pedras, galhos finos de árvores velhas, folhas secas, caruma dos pinheiros e espinhos que a magoam, ou mesmo insectos pequenos que lhe trepam pelas pernas trigueiras.
Os seus lugares de eleição são os quartos, as salas, os escritórios onde a luz entra coada pelos cortinados de renda; também os corredores onde o sol não chega, os sótãos que a atraem desde pequena, madeira aquecida pelo braseiro do verão ou arrefecida pelos ventos do inverno, janelas esconsas que não abrem, empenadas pelas humidades e o sol brusco; sítios bafientos, nos quais o tempo simula não passar e onde continua a gostar de permanecer enroscada na penumbra, tal como fazia em criança na casa dos avós que a criaram.
A imaginar-se segura.
Nos espaços largos e devassados da quinta, pelo contrário, sente-se perdida, luzimento das cores abertas das flores, das borboletas e dos pássaros a misturarem-se-lhe nos olhos já ofuscados pelas grandes claridades do dia.
Entontecida.
Por isso sempre que pode foge de junto das irmãs que correm nos jardins por entre os maciços de arbustos, os canteiros de peónias, de cravos-da-índia e de goivos fugazes, para ir refugiar-se sob as árvores, de todas preferindo as que abrigam, copas baixas, densas e circulares. Atrevendo-se pelos carreiros que descem até às águas frias, na margem das quais vai tirando os sapatos e as meias de seda, para depois mergulhar nelas os pés descalços, a sentir a dureza dos seixos e a esponja do lodo, areias do leito do rio a convocarem-na mais para diante, mais para o seu fundo.
Vertigem a tomá-la de súbito, fazendo-a vacilar na tontura que a tolhe e a colhe, levando-a a tombar de joelhos como quem reza ou paga promessa.
Mais mulher do que menina
de quem os outros habitualmente zombam. Tentando quanto pode passar despercebida, enquanto as irmãs, embora mais novas, se destacam e exibem; por esse motivo também as admira, buliçosas e frívolas; inclinada ela a entender-se a si mesma na tristeza.
Senta-se então, absorta, debaixo dos salgueiros, tentando enxugar os pés com o lenço de cambraia que depressa se encharca, tornozelos estreitos, onde as meias tropeçam, ocultos pela bainha do forro cinzento da saia a secar já com o calor da tarde.