As Luzes de Leonor
Memória
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Os últimos anos de clausura no convento de Chelas foram talvez os mais difíceis dos dezoito que lá vivi, pois à medida que o tempo passava maior era o meu rejeite do despotismo e a consciência da escandalosa injustiça que nós as três sofríamos, condenadas certamente pela nossa inocência.
Violência desalmada, nunca se condoendo com a nossa sorte.
Mas a clemência e a compaixão são apanágio somente das almas nobres, cousa que Sebastião José de Carvalho e Melo jamais teve. No oposto de Voltaire, que me ensinou a respeitar tanto a fraqueza como a imortalidade.
Assim como a relevância da liberdade e da razão.
Neste momento não tenho nenhuma dúvida quanto à importância decisiva que a sua obra teve e continua a ter na minha vida: surpreendendo-me e iluminando-me, a ela tornando sempre pelo mero prazer do conhecimento e do seu entendimento.
Foi sobretudo ela que me iluminou e abriu clareiras no imenso negrume da medíocre e confrangedora companhia das freiras e dos frades ignorantes, numa época que designo como a Idade Média da minha vida.
Houve sempre quem quisesse saber o motivo da preferência que dedicava a Voltaire, quando – diziam-me – Rousseau ia mais longe, era mais completo. Mais moderno e ousado. Sem cuidarem de saber como a filosofia de Rousseau influenciou o meu quotidiano.
Nunca me esqueci, porém, de que mesmo ele, ao julgar as capacidades da mulher e do homem, usou dois pesos e duas medidas: «A mulher observa, o homem raciocina», chegou a afirmar com ênfase e indiferença, chocando-me.
Mas tenho de reconhecer que em Portugal jamais sequer se pensou na mulher como alguém com capacidade para observar fosse o que fosse… Minha Pátria amada, a quem sempre tanto quis, mas que me limitou, amargurou, deu descaminho à minha vida.
Ao recuar no tempo entendo como foi mesquinha a minha existência ao compará-la com a ambição e a dimensão do meu sonho. Contado ou cantado em verso por trás das grades de Chelas, em despique com os poetas que me iam visitar e depois via partir, a poderem sentir no rosto o ar da liberdade.
«A mana não se entristeça!», acarinhava-me Maria com um sorriso melancólico, seguindo já no meu rasto de volteio, indo eu, por raiva recolhida, semear a desordem, o motim e até o enleio, com versos e palavras pelo convento inteiro. Seguida por aquelas que me escutavam os ensinamentos e as ideias, tratando-me por mestra e a quem eu chamava discípulas, para raiva da prelada que se desentendia e desorientava comigo, acabando sempre derrotada. Desautorizando-se quando me castigava ou mentia, me tirava o direito de ir à grade, e eu mesmo assim ia…
Quando o nosso Rei D. José morreu, Pombal foi afastado e as portas de Chelas finalmente se abriram para nós, voltei-me a olhar para trás, como se quisesse tentar arrastar comigo grande parte da minha vida que ali ficava perdida na obscuridade.
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