As Luzes de Leonor
Diário
– Parto na próxima semana para o Paço de Salvaterra de Magos, onde está a Corte. Preciso de ir pedir a bênção e a protecção da Rainha.
E perante o conivente calamento do marido, acrescenta:
– Estou certa de que nos vai ajudar.
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DIÁRIO
«Cheguei a Salvaterra e conheci logo pelo modo com que me recebeu a Princesa do Brasil, Dona Maria Benedita, que a Família Real, não obstante as cartas fulminantes do General da Província e de Aires de Sá, estava muito a meu favor; as princesas mesmas me facilitaram uma ocasião de poder encontrar a Rainha só. Aproveitei logo dela e disse a Sua Majestade que, vistos os dissabores que o Conde de Oeynhausen tinha experimentado na província, eu não podia deixar de lembrar-lhe que era debaixo da sua protecção que se tinha feito o meu casamento e que mais que nunca precisava que Sua Majestade verificasse as esperanças que tão justamente tínhamos recebido e as suas promessas augustas tinham autorizado. Longe de parecer que este meu discurso (a que juntei algumas frases ternas, conformes ao meu estado) tinha produzido um bom efeito sobre a Rainha, achei o modo mui seco e mesmo me pareceu severo. Respondeu simplesmente:
– Veremos – e foi andando para diante.»
Paço Real de Salvaterra de Magos, 1780
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Acaba de deixar a câmara de D. Maria e avança afoita pela escuridão dos corredores do palácio, vendo passar a seu lado vultos indistintos e silenciosos que a cumprimentam. Inclina ao de leve a cabeça, distraída a relembrar as vagas mas severas palavras da Rainha.
Consciente da importância daquilo que a leva ao Paço, a pretexto de defender a posição do marido, não se deixa desanimar.
Determinada.
A querer encontrar maneira de desfazer as intrigas mesquinhas por trás das quais suspeita estarem mentes cruéis e daninhas, na teima de destruir a vida de ambos. E com a mão incerta tacteia o inóspito negrume à sua frente, feito de ruídos abafados, de vultos que se esgueiram, do deslizar de passos rápidos, tudo isto envolto pelo frio cortante que em Salvaterra é sempre muito naquela época do ano.
A bainha do vestido de veludo pérola fica presa na farpa do lambril de uma porta, junto da passadeira. Impaciente, solta-a com a ponta dos dedos, erguendo um pouco mais a saia, tiritando sob as correntes de ar que se cruzam em todos os lugares do palácio onde as lareiras permanecem habitualmente apagadas.
Gela-se ali dentro.
Cruza o xaile de caxemira lilás sobre o peito descoberto, a tapar num gesto brando o começo dos seios arrepiados dos quais se desprende um doce odor a nardo na pele onde se dissimula e se adormenta.
Mal entra nos aposentos da Princesa do Brasil encontra a condessa de Lumiares, com a sua beleza de boneca de Saxe, que sempre curiosa e interessada em ouvi-la conversar lhe toma as mãos nas suas a puxá-la para longe da porta. Mas Leonor olha à roda em busca da camareira da Rainha, D. Mariana de Arriaga, com quem tem maior à-vontade e, não a encontrando, desprende-se da jovem condessa e torna ao corredor obscuro.
Nos salões áridos é rodeada pelos fidalgos que preguiçam e a aborrecem com a ignorância e a banalidade dos galanteios, fascinados com a sua beleza, mas também atemorizados com a sua inteligência e cultura, personalidade excessiva de mulher determinada. Inquietos e desconfiados quanto aos verdadeiros motivos da sua inesperada presença na Corte de Salvaterra.
A Leonor não escapa a inveja que levanta à sua passagem, a preocupação que desencadeia. Sabe como fora comentada a sua chegada intempestiva, e como é interpretada com apreensão a sua demora no Palácio de Salvaterra. Para muitos, ela está demasiado perto dos príncipes do Brasil com quem comunga dos mesmos ideais. Íntima também das infantas, e querida das camareiras e das açafatas de D. Maria, sempre a chamarem-na para junto de si.
Atenta, olha e escuta o que se desenrola à sua volta, sentindo tanto a labareda da admiração como o punhal acerado da hostilidade. E se, movida pelo desalento, imagina vacilar nos seus propósitos, depressa recupera, a fazer valer a coragem e a obstinação sobre a súbita fraqueza, teimando no projecto de sair de Portugal.
Feliz, Leonor aceita a protecção arrebatada e alvoroçada das princesas, que a apreciam e lhe pedem versos; assumindo o encargo, escreve-os à noite antes de se deitar. Aliás, são as mulheres que lhe emprestam ânimo e a ajudam a passar o tempo de um modo assaz tenaz e meigo. Divertem-se e divertem-na com os seus jogos, com o relato dos possíveis segredos dos fidalgos presentes. Alegrando-a com o seu riso solto e o seu maldizer descuidado. São ainda elas que querem conselhos, histórias, e até o reinventar dos outeiros de Chelas nas soirées do Paço.
Mas na verdade é D. Maria Francisca Benedita quem lhe dá mais segurança e mostras de um maior apoio.
E junto de sua irmã, a Rainha, intercede por ela.
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«Fui dos corredores do Paço para a antecâmara da Rainha onde estive fazendo versos e contando novelas às açafatas» de Sua Majestade.
Fingindo distrair-me instruindo-as, ia observando, ia escutando e vendo o que podia à minha volta; a dar conta dos suspiros e dos enredos, dos gestos reprimidos e da acrimónia escondida nas palavras. Das intrigas que se teciam, levando-me a supor, com justa certeza, o muito que sobre mim e meu marido fora ali mesmo urdido e acrescentado nas nossas costas com o mais total desprezo da realidade.
Lá se faziam e desfaziam negócios e contratos, antes mesmo de chegarem à presença da Rainha, sem se levar em conta a verdade e o valimento de cada pessoa ou de cada caso. D. Maria Antónia e D. Bernarda Campos, damas da Monarca, tentavam ajudar-me no que estava ao seu alcance. Tentando desfazer meu desconsolo e desalento, arranjaram-me lugar onde viver no Paço. E depois de ter voltado a ser recebida a sós por Sua Alteza, moeram-me com perguntas todas elas vantajosas para mim, pois evidenciavam o interesse de ambas pela minha pessoa.
– Destes conta de alguma frieza de trato por parte da Rainha?
– Foi D. Maria pondo sorrisos nos espaços do silêncio?
– Distanciamento mais do que é suposto haver por parte de Sua Majestade?
Quiseram saber qual o seu tom de voz, da secura recolhida, qual a tonalidade do sorriso ou do azedume, da firmeza, do trato e da finura.
Curiosas da formalidade escolhida e do preceito.
D. Domingas Manuel, marquesa de Tancos, por seu lado, tomava-me pelo braço e levava-me com ela, conseguindo salvar-me a tempo da curiosidade infantil das damas da Soberana.
– E agora como vai Vossa Excelência pagar-me por tê-la salvo? Com um poema? – perguntava-me então, com um sorriso trocista nos lábios de cereja acesa.
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D. Maria convoca Leonor para que vá rezar com ela no seu Oratório, na companhia do seu confessor o arcebispo de Tessalónica, enorme nas suas vestes brancas de carmelita, olhar desatento a deter-se de passagem nos rostos das santas.
No início Leonor julga sufocar com o ar saturado do intenso perfume das rosas e das açucenas brancas, do incenso queimado e do sebo derretido das velas a descer como lágrimas grossas até ao pé torneado dos candelabros de prata cinzelada, dos castiçais e das palmatórias. Procura manter a respiração suspensa, atenta às sombras movediças que a luz bruxuleante das lamparinas projecta nas paredes e no tecto.
É muito e forte o poder do arcebispo,
ancorado firmemente no seu bom senso, na fé, nas novenas e nas confissões diárias de Suas Altezas. E Leonor depressa entende, através das meias palavras tecidas ao seu ouvido pela Princesa do Brasil, ser de boa política conquistar o prelado para a sua causa.
Assim sendo, a partir desse dia ela passa a suportar, embora a custo, os destemperos, as grosserias e os despropósitos de Sua Eminência, enquanto aguarda que ele se resolva a falar do negócio que até ali a levara: deslindar histórias emaranhadas e caluniosas tecidas a partir da Corte contra o conde de Oeynhausen, tendo embora Leonor já algumas soluções preparadas para a satisfação de ambos. Sobretudo luta pela saída de Portugal.
Sonho tão dificultoso,
que sentia pouca esperança em alcançá-lo.
A camareira-mor da Rainha-Mãe, D. Maria de Almeida Bernarda Campos, nos aposentos de quem acabara por se hospedar no Paço, escuta com atenção as queixas de Leonor sobre as intrigas e as mentiras que grassam à sua roda. E, com bonomia, tenta instruí-la de que a única maneira para vencer com sucesso a hipocrisia é contorná-la e desprezá-la.
À medida que as semanas passam, Leonor dá-se conta de que as pessoas estão a acostumar-se à sua presença: dizem-lhe graças, contam-lhe segredos, fazem-lhe toda a espécie de confissões, pedem-lhe versos recitados e poemas escritos. Mesmo o arcebispo de Tessalónica já esbraceja menos quando a encontra, mostrando alguma curiosidade em ouvi-la. Um dia, enchendo-se de coragem, queixa-se-lhe do abandono a que no Porto ela e o marido têm sido votados por Suas Majestades. Mas ele mal parece ouvi-la, mais interessado no intenso cheiro a doce de leite e baunilha que chega das cozinhas, a invadir as salas do palácio. E não desejando mais a sua companhia, o arcebispo levanta-se e, fitando Leonor com ar enfastiado, interrompe-a com a frase de sempre:
«Isso é ponto de Estado.»
Afasta-se aos encontrões a tudo, esbarrando com estrondo na ombreira da porta ao sair em direcção à câmara da Rainha.
– Veja Vossa Excelência o desalento de tudo isto! – lamentar-se-á mais tarde num murmúrio a Princesa do Brasil, brincando com a fieira de diamantes que usa nesse dia no colo de mármore.
Leonor sorri-lhe a custo,
sem nenhuma alegria.
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Recebe bilhetes de Joana Isabel Forjaz, mas responde primeiro às cartas de Teresa, a pedir-lhe que abandone Vila Viçosa onde se encontra e vá ter com ela a Salvaterra. Sem se referir aos febris versos de Joana Isabel, traçados no papel holandês igual ao que elas habitualmente usam, a mostrar-se no que lhe escreve tão sensual e loura quanto a imagem arrebatada que dela guarda, e que de vez em quando lembra com uma saudade provavelmente equívoca.
Teresa não lhe responde. E o seu silêncio vai ganhando um peso gelado. Como não está habituada ao abandono da amiga, insiste ansiosa, receando ter perdido aquela que há muito se tornara a querida consoladora dos seus dias mais conturbados.
«Responde-me que vens! Responde-me que vens!» – suplica-lhe. Sentindo-se sozinha e vulnerável, tenta justificar a insistência aflita: «Prometo não ser contrária à docilidade que tanto gostas de ver em mim.» Mas não conseguindo conter-se, logo acrescenta:
«Sem ofensa nenhuma da minha independência.»