As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 72 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

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Foram apenas três os gritos que soltei, enrouquecidos,

a senti-la escorregar, deslizar, nadar por dentro de mim ao longo do meu corpo. E minha Mãe, agindo depressa, empurrou a parteira num brusco movimento inesperadamente firme, para ser ela a amparar Leonor Benedita com as próprias mãos.

A menina nasceu a chorar, como se adivinhasse para si mesma um triste destino.

Estava-se no dia 30 de Novembro de 1779.

Lá fora levantavam-se névoas e neblinas, depois de ter chovido durante o dia todo. Ainda aturdida, escutei o som de um raio a fender as nuvens de chumbo,

empurradas pelo vento agreste e duro, a acometer as árvores.

Porto, 7 de Dezembro de 1779

†

Não sei se conseguirei fazer chegar sigilosamente a ti estas letras, e com elas as mal contidas saudades que tanto me atormentam, pois nem sequer entendo, minha prenda, como tenho sobrevivido à tua falta.

Desde que partiste, perderam os meus dias o sentido que a tua presença incendiava.

Viver então porquê, quando deixa de existir motivo e tudo em nós se apaga, se esgarça a seda do sentir? Mal aguentando eu a aridez das horas preenchidas com as rezas e os terços, lendo e relendo os teus poemas, e nesses versos voltando eu a encontrar-te, mas também a descobrir a minha mágoa e pena. Tentando imaginar como será para ti, Leonor, o retomar da vida pelo lado de fora desta casa de negrumes e hipocrisias.

Chegou há dias a notícia do nascimento da tua filha, ficando eu perplexa sem conseguir imaginar-te mãe; como se uma poalha rósea te nimbasse e protegesse

de seres como todas as mulheres.

Estarei eternamente à tua espera.

Esta que demasiado te ama

Gonçala

Convento de Chelas, 23 de Dezembro de 1779

†

Passadas algumas semanas contadas a partir do parto, Leonor passa a vaguear pela casa, atordoada com a vida tal como ela se lhe apresenta.

Traindo-a.

Assustada com as notícias que lhe chegam das muitas intrigas que se entretecem na Corte com o intuito de derrubá-la através da queda do conde de Oeynhausen seu marido, a quem no 6.o Regimento de Infantaria só têm sido criados dissabores.

Desconfiando de tudo e de todos, desavinda até consigo mesma, deixa-se afundar numa depressão tamanha que ninguém já a reconhece; parecendo-lhe a ela que o sol nunca mais irá conseguir passar pela estreiteza da renda de bilros das cortinas que velam as vidraças da casa escura onde vive, sentindo que tudo acrescenta penumbra à penumbra das salas e dos quartos onde sufoca a pouco e pouco.

Não fora nada disto que ela planeara.

Os livros, mal os abre, logo a entediam, guardando para si apenas aqueles que mais ama. Em cima da escrivaninha os diários permanecem abertos mas em branco, nos cadernos as ideias e as frases vão ficando a meio, e nos papéis as poesias quedam-se incompletas.

A maternidade dá-lhe arrepios de apreensão e medo.

Muitos são os pesadelos que lhe parecem continuar depois de acordada: banhada em suores frios, cabeça estonteada, esquecida do que sonhara. Por vezes, quando olha para Leonor Benedita a descansar no seu berço de cambraia e folhos, sob a campânula do véu de tule, imagina-a morta, responsabilizando-se por isso; e mesmo vê-la abrir os olhos não acalma o seu coração contrito.

Culpando-se pelo pouco afecto que sente por ela.

Impaciente, manda a mãe de volta para Almeirim, larga a meio as cartas de Maria e de Teresa e os versos enviados por Isabel Forjaz da sua quinta nas Picoas, onde se refugiara; mas às vezes lê-os de madrugada, remoendo insónias que mitiga tomando láudano e beladona quando está desesperada; mas no dia seguinte anda a tropeçar nos próprios passos, e como o parco desafogo das áleas do jardim não a suavizem, começa a passear demoradamente pelas margens do Douro, desarmonizada com a vida que leva, certa de que a sorte nunca lhe irá dar descanso.

Tudo à sua volta se lhe afigura insignificante e mesquinho.

Gosta de ouvir o vento zunindo solto enquanto relembra o passado, chegando a escutar o arrulhar da seda do vestido de sua avó Leonor de Távora e a sentir o odor a jacinto do seu cabelo dourado.

Ora faltando as forças a Leonor, ora tendo-as em demasia.

Todos os dias as mentiras se multiplicam, as intrigas e as armadilhas aumentam, a minarem a vida dela e a de Carlos Augusto, cada vez mais venenosas e certeiras. No escritório onde arruma os livros que entretanto tornara a comprar, repondo os que lhe haviam levado num perfeito sumiço, Leonor vai e vem, passos contados entre o longo corredor, a porta do escritório, a sua escrivaninha, e por fim a estante onde se alinham as obras de Dante, de Horácio, de Petrarca e de Camões.

Uma noite em que Carlos Augusto chega da rua e se abeira dela com preocupação no semblante fechado, comunica-lhe com voz tranquila a decisão por ela tomada nessa mesma tarde: