As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 270 de 289

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As Luzes de Leonor

Caderno

 

Da segunda parte do extracto de memória que apresentei ao Príncipe Regente:

«Prova-se por tudo quanto se tem passado, que a reunião de potências é contrária ao sistema do Governo Francês, e que potências isoladas são fáceis de vencer e de destruir. Por conseguinte, a suposta paz geral foi só um armistício ou um artefício que Bonaparte pode prolongar ou interromper, quando convier aos seus interesses.

Só a união entre duas potências tão interessadas como Portugal e Espanha é que pode iludir os desígnios vastos do Usurpador Universal. Se se tomarem medidas justas e firmes, conservarão uma e outra destas a independência da França e escaparão à morte política que esta lhes prepara.»

Sobre a salvação da Europa

«Só uma insurreição espontânea pode hoje salvar a Europa, opondo a força à força, a ofensiva à agressão. Mas para destruir as objecções de temeridade, consideremos a França: a França é um colosso desmedido com uma forma espantosa em distância, mas muito débil interiormente. As suas forças militares são mal pagas, desunidas, enfraquecidas, sem nenhuma vontade de combater por uma liberdade quimérica, que já desprezam. Não tem dinheiro nem crédito.

Subsiste a maior desunião entre os Generais. Os Países adjacentes são todos escravos: a Holanda, a Itália, a Suíça. Os aliados estão todos logrados e enganados perfidamente, insultados sem pudor nem respeito nem dignidade. Não falta, pois, senão que a Corte de Madrid e de Lisboa acordem do seu letargo e que, unidas por um sistema nobre com a Inglaterra, se façam respeitar daquele mesmo fantasma que receiam.

Enquanto durar o pânico será Bonaparte poderoso, mas no instante em que este se dissipar, desvanece-se inteiramente o maquiavelismo do seu sistema.»

Lisboa, 28 de Julho de 1802

†

Mal chega Agosto e já a princesa Carlota Joaquina anseia por partir a caminho do Ramalhão, recusando as Caldas ou mesmo os banhos na Real Quinta de Caxias.

No Ramalhão, que entretanto mandara arranjar a seu gosto e onde passará a refugiar-se, apesar de estar ciente de a quinta ser um presente envenenado do marido, que lho dera com esperança de a afastar da Corte e da actuação do seu governo, longe ela de imaginar o que está a ser maquinado contra a sua primeira dona de honor.

No entanto, mesmo nas semanas que passa no Ramalhão ela continua a interessar-se por tudo o que diz respeito ao Estado, atenta como sempre às manobras políticas, às traições e aos venenos que, inquieta, procura na comida, sobretudo nos caldos, nos sumos, no leite e nos frutos azedos que iludem os sabores acres e acobertam as premonições de morte. O resto não lhe interessa, pois nunca é pelo marido que o seu desejo febril se acende.

Na verdade, D. João repugna-a.

Gosta do desejo que sabe provocar nos homens com a morbidez da sua pele sombria, olhar transviado e boca ávida, corpo magro de mulher ardente a prometer desacatos e tumultos, imaginados por eles enquanto emboscados a esperam sem esperança pela calada da noite, ansiando pelo seu desejo, embora às escondidas escarneçam dela, referindo a sua fealdade com grosseria obscena. Mais do que os favores da Princesa Regente, eles imaginam quanto ela os enlouqueceria na cama.

Com o avançar da tarde, a aragem nos jardins de Queluz tornara-se fria e ela arrepia-se debaixo do xaile de malha fina que uma das aias trouxera do Palácio. Apetece-lhe uma tisana, um chá de tília que possa acalmar-lhe os nervos, ou um chocolate quente numa chávena de Sèvres. Está farta de viver no Palácio de Queluz ou de ir às Caldas a banhos, que a amolecem e só lhe acicatam as agonias e as náuseas da gravidez, mais do que a aliviam; mesmo Caxias e até Mafra, agora que não pode caçar, aborrecem-na, entorpecem-na, desapetecem-lhe.

Então, sem hesitar, a Princesa Carlota Joaquina manda as camareiras e as açafatas apressarem-se no arranjo dos baús e das malas, convoca as damas de honor e as fidalgas. Manda um criado à quinta do Bom Sucesso para trazerem Eugénia de Meneses, ultimamente arredia apesar de camarista da infanta Maria Teresa, e à Rua da Boa Morte, comunicar à condessa de Oeynhausen que deverá acompanhá-la. No dia seguinte quer partir bem cedo a caminho da Real Quinta do Ramalhão.

†

Henri Forestier escreve a Leonor,

que não consegue tirar do coração nem do pensamento, e por entre acesas palavras de paixão e saudade alerta-a já no final da carta: «É preciso a todo o custo impedir que as forças de Napoleão atravessem os Pirenéus para submeter a Península.»

Leonor, por seu lado, não descansa enquanto não apresentar ao Príncipe Regente ou aos seus ministros os meios de impedir esse perigo, cada dia mais próximo.

Mas quem lhe dá ouvidos?

Pedro limita-se a temer por ela, as filhas mais velhas fitam-na suspeitosas, Catarina põe os olhos em baixo sem saber como não trair a amiga e calar o pouco que sabe através do marido, Pina Manique continua a julgá-la uma perigosa maçónica e jacobina, e à conta disso devassa-lhe a vida e tenta dificultar-lhe a entrada nos ministérios e impedir-lhe, sempre que pode, o acesso ao Príncipe Regente.

Mais ameaçador, porém, fora Lannes, que enquanto estivera em Portugal a tentara acossar, a querer assombrar-lhe os dias: cercando-a, tentando assustá-la com a presença intimidante de agentes franceses, que depressa descobriram o rasto dos generais da Vendeia. Pistas que os levaram à casa da Boa Morte e, em seguida, até à quinta de Joana Isabel Forjaz nas Picoas. Fazendo questão de insinuarem estar a par de cada um dos seus encontros com Henri Forestier.

Para depois informar Paris.

†

Iludindo os camareiros, os secretários, ludibriando os lacaios e os moços de câmara dos aposentos do Regente no Paço da Bemposta, Leonor consegue aproximar-se de D. João com o pretexto de lhe apresentar propostas de uma inesperada reconciliação por parte da Princesa Carlota Joaquina.

Mas quando o Príncipe finalmente a recebe, com evidente má vontade, logo esquece o motivo inventado, outra coisa não pretendendo, mais uma vez, senão convencê-lo a dar-lhe autorização para partir oficialmente a caminho das cortes da Europa.

Fingindo distrair-se, olhando pelos vidros da janela de sacada que se debruça no sentido do Campo de Santana, D. João cala-se, deixando-a ganhar voo nas palavras arrebatadas com as quais traça o seu plano da conjura antinapoleónica.

Não recebendo de sua parte resposta alguma, Leonor ganha mais altura no imaginar, toma por certo o dito popular segundo o qual «quem cala consente», continua a fazer planos, pormenorizando já detalhes da viagem, que no seu alvoroço ganha traços de realidade quando, na verdade, permanece sonho.

Por fim ele volta-se, e da ombreira dourada onde está encostado, rosto em contraluz dissimulando-se na sombra irisada, quebrando o seu habitual mutismo, com voz enrouquecida contradiz os seus ministros, recusa os conselhos de Pina Manique, assim como a vontade de França trazida até si por Lannes, ameaçando-o com as exigências de Napoleão.

E desse modo o Regente vai-se comprometendo com aquilo que não deseja, assegurando o que nunca será concedido, garantindo o que sabe ser impossível. Afiança-lhe mesmo que os ministros a irão chamar a fim de combinarem os pormenores da sua partida.

Curvando-se, atordoada com a inesperada aceitação das suas aspirações políticas, Leonor agora sem fala aflora ao de leve o tapete persa com o joelho direito coberto pela seda fina e branca do vestido. Olhar claro e franco de quem acredita, aceitando como verdadeira a palavra Real que para ela basta como garantia.

†

Ao chegar a casa, radiante e aliviada, conta ao irmão o resultado da audiência com o Príncipe Regente. Pedro olha-a admirado com a sua ingenuidade e tenta chamá-la à razão. Segundo ele, os ministros não só nunca a irão chamar, como em breve deixarão de recebê-la. Quanto a D. João, que julga conhecer bem, está certo de que prometerá o que for preciso para a manter afastada.

A Princesa Carlota Joaquina é da mesma opinião, mostrando-se preocupada com a situação política, agastada com os ministros, de quem não gosta, e com o marido de quem mais e mais se afasta. Interessada na opinião do homem inteligente que reconhece ser Pedro, num final de tarde tranquilo, puxando de parte a sua primeira dama, manda-a trazer o irmão até si. E quando, no dia seguinte, ele responde ao seu chamado, distanciam-se os dois pelas alamedas dos jardins do Palácio de Queluz, numa longa conversa da qual Leonor é afastada e a que ele aludirá depois com uma inusitada superficialidade. Tanto mais suspeita quanto os encontros de Pedro com a Princesa se vão multiplicando ao longo das semanas seguintes, sob sigilo absoluto. Só a cunhada se referirá a eles, num desabafo apreensivo: «Oxalá estas conversas de Pedro com D. Carlota Joaquina não dêem mau resultado…»

Leonor entende que a Princesa e o irmão conspiram, e também que anda a ser enganada tanto pelo Príncipe Regente como pelos ministros. Continua contudo a fingir acreditar naquilo que D. João lhe passara a prometer e, entrando no seu jogo, escreve-lhe uma longa carta expondo as suas exigências para levar a bom termo a missão a que se propõe.

†

À claridade diluída do final da tarde, Leonor endireita melhor a folha no tampo da secretária, levando de seguida a mão até ao tinteiro de prata que desde o convento a acompanha, mergulhando a pena na tinta cor de ferro, odor oxidado e acre de que tanto gosta. E começa a escrever, inclinada sobre o papel estreito de brancura velada:

«Senhor:

Negócios grandes não se fazem com meios medianos, e como Vossa Alteza Real está e deve estar certo do meu ardente zelo de servi-lo, assim eu devo também ter a certeza de que Vossa Alteza Real sustenta os passos que vou dar no seu serviço.

Parto, e nada obsta ao meu zelo, nada custa por ora ao seu tesoiro, porque quero unicamente o meu no coração de Vossa Alteza Real. Mas deste exijo eu:

1.o A assinatura das cartas que são credenciais secretas de que tenho a honra de apresentar as minutas;

2.o Segredo inviolável do negócio, excepto do Patriarca e de meu irmão, de quem Vossa Alteza Real conhece o zelo, etc.

3.o Que Vossa Alteza Real se digne ordenar ao Patriarca que avise meu irmão para ir falar com Vossa Alteza Real todas as vezes que ele for, e que estas conferências as não omita Vossa Alteza Real por nenhum motivo, porque não tem nenhum outro negócio mais importante que o que tratamos, e para isto ser indefectível, o aviso de Vossa Alteza Real por escrito, será concebido nestes termos: “O Patriarca avisará a Condessa de Oeynhausen, sempre que vier ao Paço, para nessas ocasiões vir tratar na minha presença dos negócios de que ela e seu irmão, o marquês de Alorna, estão encarregados por ordem minha” – Paço de Queluz, etc.

Uma cópia deste aviso ou decreto passará para a mão de meu irmão e Vossa Alteza Real nunca se arrependerá deste sinal da sua confiança.»

Entretanto, sem ela dar por isso, as manchas de luz ambarina anunciadoras do poente de uma tarde morna de final de outono foram gatinhando para longe do tapete onde no começo haviam estado entorpecidas no seu próprio fulgor; recuando por fim nos vidros da janela debruçada sobre o parque, onde as glicínias soltam o seu intenso perfume adocicado, a emaranhar-se no da madressilva por entre os botões das rosas-da-índia.

Humilha-a a recordação dos ministros que não a recebem nem a querem escutar. Enervada, ajeita a folha onde escreve, segura do que pretende ainda dizer ao Príncipe Regente que sente cada vez mais fraco e indeciso. E logo continua de forma impetuosa, escrevendo o que o seu sentido político lhe dita:

«As suas cartas virão directamente à mão de meu irmão, que as entregará em mão própria a Vossa Alteza Real, e Vossa Alteza Real consentirá que haja um correio às ordens dele, sem nenhuma aparência disto. E, para evitar esta aparência, bastará ordenar secretamente ao superintendente-geral das postas que o escolha e destine.

Acabada a minha missão, é preciso que Vossa Alteza Real se determine…»

É noite já quando Leonor acaba, à luz esvaída das velas do candelabro que Thérèse entretanto trouxera e pousara na secretária.

Com os dedos firmes usa o areeiro, em seguida volta a ler a carta, passando por cima dos termos de cortesia respeitosa usados para despedir-se: «Beijo humildemente a mão de Vossa Alteza Real»… E só em seguida a assina e lacra, esmerando-se no desenho da curvatura delineada pelo interior da haste delgada da primeira letra do seu nome:

L, de Leonor

seguido do primeiro A do apelido Almeida.

A que acrescenta, no final:

Condessa de Oeynhausen.

†

Continua a fazer questão de não dormir no Palácio de Queluz, embora tenha lá os seus aposentos, perto dos da Princesa Carlota Joaquina que, com benevolência, em vez de lhe ordenar que fique a cumprir as obrigações de dama de honor, manda uma carruagem buscá-la e levá-la de volta a casa, onde entretanto tornara a morar Pedro com Henriqueta e os filhos, desde que a Legião Alorna fora colocada em Lisboa.

Leonor vê-o passar os dias alheado de tudo e isolado de todos, orgulho ferido como bala na estreiteza do peito; mas depressa se recompõe e, incapaz de se manter inactivo por muito tempo, começa a tecer projectos que se a inquietam também a entusiasmam: a criação de um clube inspirado na ideia romântica da Távola Redonda, rodeada de ideais, de heróis e auras translúcidas, princípios de lealdade, com as suas figuras míticas. Ficando ela hesitante entre o justo Rei Artur e o corajoso Lancelote, personagens nimbadas pelo heroísmo.

No início escuta-o com atenção, cheia de dúvidas, indecisa sobre a posição a tomar, temendo por aquilo que possa acontecer. Mas o irmão garante não haver perigo para ninguém, e Leonor descansa. Ajuda-o mesmo a redigir os estatutos do clube. O que faz nascer nela apetências, aliás bem mais liberais. A criação de uma sociedade frequentada por mulheres e homens do pensamento culto, abertos às ideias novas,

à mudança.

†

A madre superiora do convento de São Félix em Chelas, debruça-se sobre Gonçala desacordada, depois de uma infindável noite delirando, mergulhada em aterradoras visões.

Já de madrugada a febre finalmente cedera, mas em vez de quietar-se a descansar, ela soerguera-se alagada em suores, numa lenta agonia silenciosa que dava aflição ver, sussurrando baixo o nome de Leonor de Almeida.

Para a tranquilizar, a prelada prometera-lhe enviar nessa manhã mesmo um bilhete à condessa de Oeynhausen, a pedir-lhe que a viesse visitar, a despedir-se. Como a própria Gonçala sublinhara, esboçando um pálido sorriso de amargura.

«Uma alma atormentada» –, pensa a prioresa, inquieta, enquanto a fita sumida nos lençóis da cama estreita, mas larga demais para a sua magreza. Sem entender do que ela morre.

«De paixão» –, segredam em alvoroço as noviças. Enquanto as freiras nem dizem o que pensam, de tão inconfessável. Por seu lado, o padre confessor, de olhos no chão, permanece em silêncio.

Mas a abadessa prefere imaginar Gonçala como sendo

uma alumbrada de Cristo.

†

Mesmo antes de Carlota Joaquina entrar em trabalho de parto, Leonor vai viver para o Palácio de Queluz. A princesa quere-a junto a si. Mais do que nenhum outro, ela teme pôr este filho no mundo, dizendo saber ser um menino, que chorou dentro dela, convicta de que, por isso, ele irá mudar o mundo.

Manda Eugénia de Meneses afastar-se do Palácio, rodeia-se de quem mais gosta, põe termo a festas e festejos, evita tensões nervosas, passa as tardes a ler poesia de Calderón de la Barca e de Soror Juana Inés de la Cruz.

Aguarda.

Quando as tardes de outono ainda aquecem, nimbadas pela claridade ruiva das folhas que caem, sai na companhia das suas damas espanholas e de Leonor, a passear vagarosa pelos caminhos mais amenos dos jardins, nunca se afastando da casa, dando mais atenção às flores do que é hábito dela.

Mas subitamente o tempo muda, as nuvens cor de chumbo carregado e cheias de chuva, que a ventania empurra num céu toldado e ameaçador, parecem parar por cima do Palácio, e no momento exacto em que a tempestade se desencadeia Carlota Joaquina sente as primeiras contracções, as navalhas, as espadas das dores. E antes que D. João dê ordem para serem convocados os fidalgos e montada a plateia do lado da Sala das Açafatas, a Princesa, num tom que não admite objecções, dá a conhecer a sua determinação de que o parto decorra na mais absoluta intimidade.

Escolhe quem ficará junto dela, manda sair quem não quer perto de si e, intempestiva, entrega-se a pôr no mundo aquele filho vindo juntamente com os negrumes do temporal que lá fora se acirra e dentro dela parece empurrar o menino para a saída do corpo. E quando o colocam a seu lado nos lençóis ensanguentados toma-o nos braços. Pela primeira vez apertando um filho recém-nascido ao coração sobressaltado, dizendo-lhe o nome ao ouvido: Miguel.

Como se o chamasse.

O tomasse para ela.

†

Agravam-se os indícios. E por demais se adensam nos céus de Portugal as nuvens negras da borrasca, que inevitavelmente se aproxima num turbilhão de causar vertigens, agravando as insónias do Príncipe Regente. Aumentando nele o medo desencadeado pela profunda depressão de sua Mãe e da própria melancolia, da qual sua mulher, a Princesa do Brasil, sublinha a hereditariedade com argumentos de físico. Apontando traços irrefutáveis no comportamento de D. João que, segundo ela, indiciam já um descontrolo de espírito semelhante ao de sua sogra, a Rainha D. Maria.

Na realidade, D. João vê em tudo presságios ruins, chegando a assustar-se com boatos de adivinhações de bruxas, ciganas e profetas, que juram enxergar nas cartas e nos sinais celestes grandes tormentos para Portugal. Então, enerva-se e transpira, tem cólicas, rumina desgraças, e até o riso agudo dos anões do Paço o arrepiam em vez de o distraírem depois das infindáveis sessões do Conselho de Regência, onde os ministros sempre o põem ao corrente de factos e intrigas que preferia ignorar.

Tudo isto aumenta a sua vontade de se encontrar nos braços de Eugénia de Meneses, regaço de repouso com odor de almíscar, a descansar nele a cabeça fervilhando de fantasmas e receios de cataclismos que em todo o lado adivinha, temendo a chegada de França de intimações ou outros documentos assinados pelo próprio punho de Talleyrand, ministro dos Negócios Estrangeiros. Desde a partida de Lannes que Paris se mantém num inquietante silêncio.

Angustiado, D. João gostaria de se demorar junto da neta do marquês de Marialva, que lhe tempera os dias opressivos e desgastados, a abrir nele cintilantes clareiras de esperança. Mas Carlota Joaquina mantém-se por perto, como se adivinhasse a relação de ambos: o olhar arguto a deter-se nas suas expressões, nos sorrisos, na troca de olhares, a fazê-los adiar os encontros pelas negruras das noites, tentando inutilmente iludir quem já lhes segue o rasto; a escaparem por entre a mordedura das cobras venenosas, na figura esgueirosa e melíflua dos olheiros da Princesa Regente.

O Príncipe, que sonha reinar em tempos mais auspiciosos para bem da sua vida e da Pátria, por demais enfranquecida e mergulhada num marasmo letal, desanima temendo o futuro. Por isso faria gosto em acreditar nas ideias messiânicas de Leonor condessa de Oeynhausen, buriladas pela idealização e a grandeza, heroísmos salvadores por ela inventados, a emprestar-lhes um efeito de realidade a poder encantar sem custo quem a ouve, caso os ministros, esforçadamente, não o obrigassem a manter os olhos bem abertos.

Atento ao canto enfeitiçante das sereias de Ulisses?

Há dias, porém, em que a sua determinação o atemoriza, tal como o excesso e o zelo político tão inabituais no Paço e raros nas pessoas do seu sexo. Então demora-se a recordar as palavras de Lannes sobre a personalidade dela. Escuta também Pina Manique que, por tudo o que nela é inusual e estonteante a odeia, temendo a sua nefasta influência na Corte, recriando e idealizando a realidade, arrastando consigo sonhos e conhecimento, versos e Luzes, a deixarem antever aquilo que, segundo ele, convém estar encoberto como a outra face da lua.

Mas a cada dia que passa acendem-se mais brasas nas brasas do olhar febril de Leonor, desassossegada e a desassossegar quem dela se abeira com as suas desvairadas previsões em relação ao destino da Pátria.

A traçar planos.

A desenhar itinerários para si mesma.

A delinear aquilo a que chama a salvação da Europa, cuidando de guardar nessas propostas exacerbadas, para ela e para o irmão, marquês de Alorna, grandes papéis na redenção da nação portuguesa.

D. João mantém-se dividido, não querendo recusar frontalmente aquilo que não se sente capaz de aceitar, atordoado com o comportamento daquela que é a mais destacada dama de honor da Princesa Carlota Joaquina. A partilharem as duas, aliás, comportamentos inusitados no que respeita à acção política das mulheres, na tentativa de intervirem directamente na governação ibérica.

Aproveitando a sua indecisão, o Intendente-Geral da Polícia, ignorando que o seu próprio futuro está naquele momento a ser discutido em França, tenta obter autorização para, de uma vez por todas, arredar do Paço D. Leonor de Almeida. Se possível afastá-la de Lisboa.

Ou quem sabe até exilá-la.

Expulsá-la de Portugal.

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