As Luzes de Leonor
Angelus
A razão, de acordo com o meu pensamento, por entre a consistência ainda frágil dos acontecimentos só agora iniciados e dos quais tenho sido testemunha?
Tal como Penélope, vou tecendo a minha existência.
Escrevendo versos que na mesa do meu quarto se amontoam.
Paris, Verão de 1789
†
ANGELUS
Há anos que te sigo enquanto recuas.
Agora que em França a revolução avança, necessária e ávida de si mesma, tu em vez de te recusares-recuares, entregas-te, entreabres as pétalas, as tuas asas rubras.
Desproteges-te.
Ajustando a perplexidade e por vezes até o medo em que te encontras, juntando à tua vida uma nova alegria que te assalta-sobressalta.
Ao mesmo tempo que te desabriga.
Rasgando a tua saia, trepando à tua boca onde se acolhe o riso e o grito que evitas soltar. Mas a tua voz ganhou o matiz do júbilo e do entusiasmo, de ti escapando para ir até onde ainda vacilas, aristocrata, embora entretanto tenhas aprendido o requebro solto e ondulado das ancas.
Silvando à tua beira o que te assombra.
Primeiro fazes frente e entregas-te vacilando àquilo que te atemoriza e a que eu assisto, e só depois sacodes a vertigem magoada, admirada com a própria audácia que te empurra pelas ruas, a tomar parte de acontecimentos que continuas a considerar errados. Por isso muitas vezes te isolas nas praças ensolaradas, ou sob as devassadas copas das árvores.
Curvas-te a aparares no côncavo das mãos em concha o cintilante jorro das fontes, a esperares matar a sede que te engrossa a saliva perfumada,
minha única e revolucionária por semanas tão curtas.
Mas o gume do frio da água corta-te a respiração e deixa-te na boca um estranho travo a ferro e a ferrugem.
Cada vez mais próxima,
Leonor,
do dia em que terás de encarar a tua realidade.
Apesar de a cada momento estar a teu lado, minha Diana caçadora de sonhos e ilusões, o que poderei eu saber de ti neste momento, Leonor, se de ti mesma foges tentando ignorar quem és?
Como se quisesses seguir um novo destino, recusando as raízes do passado, fingindo ignorares a inquietação, teimosa e determinada em permaneceres em Paris, numa luta que não sendo tua a tomas como tal.
Apesar das tuas indocilidades, reconheço-te de ti mesma retrato, na aura acesa, Leonor, e sobretudo na indocilidade permanente
do teu voo invisível.
†
Théroigne chega à praça onde havia combinado com Leonor encontrarem-se no início da tarde. Vê-a de longe debruçada na pequena fonte, cuidando em não molhar a saia do vestido de bainha já enlameada das ruas e dos caminhos de terra batida, por onde andaram, participando da marcha das mulheres revolucionárias.
Amazonas…
Como sugerira Théroigne, divertida com o olhar surpreso da amiga seguindo à sua beira.
Ainda longe, pára a fim de a olhar à vontade, a querer surpreendê-la antes que ela a veja e, hábil, muda a expressão fatigada do rosto emagrecido. Vê-a inclinar-se, o vestido enrodilhado e franzido na cintura vergada, a aparar a água que lhe escorre por entre os dedos, como uma pequena cascata cintilando ao sol.
Depois aproxima-se, enquanto Leonor mitiga a sede, sem conseguir apagar o incêndio ateado bem no fundo da avidez do peito.
Do seu corpo de labareda.
†
Tal como prometera a si própria pede uma audência à Rainha Maria Antonieta, que a recebe a sós no Petit Trianon. Não querendo ser escutada, dispensa fidalgas e aias, camareiras e damas de companhia, aparecendo simples e esquálida, cabelos louros esparsos pelas costas em ondas largas, vestido cor de malva sem adornos a torná-la mais jovem. Pendurado num cordão de ouro trabalhado e esmeraldas traz um medalhão com o retrato a óleo da sua mãe, a imperatriz Maria Teresa de Áustria. Nos braços arrepiados, apesar do ar pesado e escaldante dos aposentos ultimamente trancados, usa uma longa echarpe cor de pérola entorpecida.
Impressionada com a sua magreza, Leonor curva-se numa curta reverência, sem encontrar palavras nem se lembrar dos protocolos da Corte francesa, arrependida já da audiência pedida. Mas ela puxa-a para si numa intimidade que jamais haviam tido, dando-se conta Leonor do intenso odor a rosas e violetas que se desprende da sua pele febril e macilenta.
– Estará Vossa Excelência lembrada de um dia vos ter falado de pressentimentos e de presságios? – pergunta-lhe Maria Antonieta, fazendo-a sentar-se a seu lado, e referindo-se aos seus antigos pesadelos funestos e predestinações sangrentas.
– Tudo o que então previ, Senhora Condessa, era afinal bem pouco e fraco em comparação com a presente realidade.
Embora a Rainha não chore, o seu olhar sobressaltado tem laivos do grande desatino a que só a total desesperança e o terror podem levar.
– Estou rodeada por tanto ódio, que às vezes julgo desfalecer sufocada pelo seu peso – confessa, ciente das ameaças e do gosto do veneno que as calúnias destilam, acusada de todos os males de França, onde nem por um segundo deixara de ser uma estranha, uma estrangeira indesejada.
Leonor mantém-se em silêncio, alarmada com o tom das suas palavras, a face marcada pelas olheiras fundas, as rugas a cavarem-lhe a pele em torno dos olhos inchados pelo choro e dos lábios descoloridos, onde paira um vago e triste sorriso amargo no rosto inesperadamente envelhecido.
Diante do calamento da portuguesa, das suas pálpebras descidas a encobrirem o olhar pesaroso, da desolação das divisões vazias, do cheiro a mofo que começa a tomar conta dos cetins e das sedas desmaiadas em torno delas, Maria Antonieta perde o pouco controlo que lhe resta e, de ânimo exaltado ergue-se, saindo em desatino pelos corredores, entrando e abandonando as salas delicadas e desertas, a Sala da Música, o teatro dourado e índigo, descendo e subindo a escadaria, a tropeçar nos jarros de faiança azuis que se quebram, indo de quarto em quarto dos quais abre e volta a fechar as portas. Leonor segue-a, sem saber como acalmá-la, limitando-se a vê-la estonteada como um pássaro a querer escapar da armadilha, indo embater nas banquetas, nas cadeiras e nas mesas, ora deitando ao chão as jarras que se estilhaçam ao caírem desamparadas e translúcidas em cima dos tapetes, ora em fúria, varrendo dos móveis as figurinhas de Sèvres e de biscuit que se despedaçam; estremecendo aterrada ao menor ruído que lhes chega vindo das áleas do Jardim Inglês ou da alameda das tílias.
Quando, finalmente exausta, se aquieta numa cadeira de espaldar acolchoado a veludo onde encosta a cabeça, pescoço níveo palpitante deixado a descoberto, Leonor toma-lhe as mãos pequenas e macias, débeis e translúcidas sob o peso dos anéis de diamantes, sem encontrar palavras de ânimo bastante para lhe atenuar a infelicidade. Mas Maria Antonieta sossega, o rosto volta a ganhar alguma cor, enquanto o lábio inferior treme de choro mal contido. Desmaio ou sono a que se entrega, na tentativa impossível de esquecer os motins que todos os dias enchem as ruas de Paris e as estradas que levam a Versailles.
Cada vez mais perto.