As Luzes de Leonor
Diário
Depois de terem sido executados alguns trios de Bach, a acatar a vontade da senhora minha Mãe, prestes a seguir para a corte de Espanha, senta-se ao cravo Policarpo José da Silva, primeiro cantor da minha capela, homem com um talento delicado e nervoso, a interpretar dois perfeitos adágios de Haydn. Por momentos desço as pálpebras fatigadas e consigo alhear-me dos cochichos das açafatas, do riso áspero das anãs pretas aninhadas a meus pés. Indiferente à irrequietude das infantas, ao ruído roçagante dos leques esvoaçando nas mãos das fidalgas.
Em boa verdade tento sobretudo ignorar os olhares perplexos dos senhores ministros, a darem conta do meu alheamento e inesperada lassitude: ansiosos, o marquês de Angeja e o visconde de Vila Nova de Cerveira, os primeiros que chamei para o governo ao afastar Pombal, julgam ser seu dever defender-me de mim própria.
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DIÁRIO
Joana Isabel Forjaz chegou depois de mim ao Paço de Almeirim. Encontrámo-nos na varanda da Sala da Música onde eu assistia sozinha ao tombar do crepúsculo.
Ao escutar uns passos leves, voltei-me, e ali estava ela com a sua beleza de loura mate a olhar-me, crispada.
E ficámos uma diante da outra, emudecidas e hesitantes.
Expectantes.
Com os olhos rasos de água, ela estendeu-me os braços longos; vacilando, deixei que me abraçasse, ainda relutante. Mas ao sentir sobre o meu o seu coração sobressaltado, esquecida das suas invejas, das suas queixas, das suas revoltas, apertei-a de encontro a mim.
Sem nenhum ressentimento.
Temo a reacção de Teresa ante a nossa reconciliação.
Paço Real de Almeirim, 17 de Agosto de 1777
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Ao saber que a filha mais velha dos marqueses de Alorna está a passar o verão com a Corte em Almeirim, Carlos Augusto de Oeynhausen apressa-se a ir ao beija-mão da Rainha e acaba por ficar para o serenim onde facilmente encontra Leonor, que agradada de o ver deixa escorregar o olhar fugitivo no seu, sorrindo-lhe vagamente numa cedência furtiva, fingindo escutar com atenção o que lhe diz ao ouvido a Princesa do Brasil, mãos inquietas, muito pálidas e finas a comporem as espigas de diamantes que lhe enfeitam os cabelos fartos.
Na pequena sala onde se abafa de calor, o ruído arrepiado dos leques das damas ameaça perturbar o concerto de Haydn que a Rainha D. Maria faz questão de ouvir nesse dia. Em seguida serão servidos os sorvetes em pequenas taças de cristal da Boémia, por certo na tentativa vã de trazer um pouco de fresco à noite sufocante.
Sem desviar os olhos de Leonor, que igualmente o fita, Carlos Augusto aproxima-se da porta que abre para a sala com paredes forradas de cetim amarelo onde Joana Isabel Forjaz, que viera na véspera, firmada no seu talento e na sua beleza de loura, se prepara para recitar os próprios versos.
Nesse momento chega Teresa de Mello Breyner, muito magra e morena no seu vestido esmeralda, que larga o braço do marido onde levemente se apoiava, à procura de Leonor que conversa com D. Mariana de Arriaga, linda e intranquila no seu fato de seda lilás. E nos lábios pálidos de Tirce nasce e logo morre um breve sorriso de prazer quando revê a amiga, ao reparar como esta e o conde de Oeynhausen se entreolham de longe sem se aperceberem de estar a ser espelhos dos próprios sentimentos irreprimíveis.