As Luzes de Leonor
Diário
Primeiro fitou-me, rosto com a palidez da cera, mas logo abriu a sua bolsa de cetim lilás e, sem dizer uma palavra, substituiu o que lá tinha pelo rolo de papéis atados com seda vermelha, mais nó de lacre do que laço de fita, que me tirou do regaço.
E só então lhe ouvi a voz velada:
– É uma honra para mim servir Vossa Majestade.
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DIÁRIO
Mal entro no boudoir do Petit Trianon onde, envolta pelo seu ambiente de sensualidades escusas, Sua Alteza Real me espera, logo me vejo reflectida nos múltiplos espelhos movíveis, num habilidoso jogo de vertigem no qual de bom grado me deixaria perder. Caso não sentisse pousado sobre mim o olhar límpido e inquiridor da Rainha que, toda de branco, vestido de rendas e cetim a alisar-lhe as ancas, com uma simplicidade elegante,
se vira para mim mal sou anunciada.
Está em contraluz, envolta por uma poalha dourada, cotovelo apoiado no parapeito da janela que dá para o pequeno lago azul-índigo, deixando antever ao fundo a delicada e flexível floresta de juncos – como as fidalgas da sua câmara lhe chamam – meio encoberta pelo Templo do Amor.
No ar adormentado vacila uma equívoca mistura de perfumes: mais volátil o das rosas carmim do Jardim Inglês, a embrulhar o odor doce dos lilases que os rouxinóis vindos do bosque ali perto arrastam consigo nas minúsculas asas; mais espesso e intenso o da pomada de flores de jasmim, com a qual ela massaja as têmporas de pele rosada junto à raiz da nuvem dos seus cabelos muito louros.
A aia que me conduzira à sua presença, pelas escadas de mármore até ao primeiro andar e em seguida ao longo do estreito corredor dourado, é de pronto dispensada, deixando-me sozinha, insegura e subitamente tímida junto à Rainha de França, na intimidade macia do seu domínio. Sentindo a correria desordenada do meu coração no peito apertado de ansiedade.
O silêncio que em torno de nós se faz é cortado apenas pelo fio de voz contida das rendeiras, das engomadeiras e das fiadeiras, que noutra ala do pequeno palácio trabalham no atelier e na casa de engomar.
Por um tempo indeterminado ficamos a escutá-las até que, aninhando-me as mãos na maciez das suas, me faz sentar numa chaise-longue dourada, tomando assento a meu lado um pouco inclinada para a frente, as duas rodeadas por almofadas de seda e shantung, entre as quais desponta a echarpe verde-pálido que na véspera eu vira Gabrielle de Polignac usar no Palácio de Versailles.
Seguindo o meu olhar, a Rainha estremece, e um ligeiro rubor sobe devagar pelo seu pescoço de cisne até lhe ir colorir levemente a face. Sobressalto logo dominado com secura e altivez, a cortar cerce o embaraço despertado pela marca inequívoca da presença da sua favorita. Dizendo-me de seguida, num tom quase ríspido: «Preciso que a senhora condessa de Oeynhausen escute com atenção o que tenho para vos propor.» Depois, com simplicidade, sem dramatismos inúteis, expõe com clareza o seu plano, que me escuso de mencionar.
E quando, tombado que está o crepúsculo, madame Campan, camareira-mor-de-quarto da Rainha, pede licença para entrar, trazendo atrás de si os criados com os candelabros acesos, eu tinha guardado já no meu saco aquilo que havia de ser escondido. Mas ao ver-me erguer disposta a partir, a Soberana ainda me detém, puxando-me pelo pulso na sua direcção, a sussurrar-me ao ouvido:
– Vossa Excelência tenha cuidado, D. Leonor, pois eu costumo trazer má sorte àqueles de quem me aproximo.
Paris, 28 Julho de 1780
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Ainda não saiu de Paris e já Leonor tem saudades da vivacidade das discussões que se travam nos salões literários franceses, onde tudo pode ser debatido com uma abertura de espírito inigualável.
De bom grado continuaria na cidade das Luzes.
Enquanto Carlos Augusto insiste em partir, ela anseia por ficar, sobrevalorizando os encantos que naquelas assembleias mais a prendem, a retórica que aflora a cada passo, os debates acesos, a cultura mostrando-se no seu mais arrebatado fascínio.
Salões onde a arte, a argúcia, a escrita e o pensamento das mulheres florescem radiosos e provocadores,
a influenciar os homens.
Como aconteceu com Madame de Châtelet e Voltaire, com Madame de Lespinasse a marcar o espírito dos enciclopedistas, frequentadores entusiastas do seu salão filosófico. Especialmente D’Alembert que, quatro anos depois da morte dela, ainda a lembra e chora, confidenciando a quem o quer ouvir numa das terças-feiras do salão de Madame Necker: «Ela marcou-nos a todos com a ardência do seu espírito rebelde.»
Pudesse Leonor e ficaria em França, entregue à sua própria audácia e chama, sem qualquer entrave nem ninguém que lhe travasse o passo.
Parte com a tristeza na alma, deixando para trás o desafio, o conhecimento e o gosto. A sentir que se atarda demais em direcção ao futuro. Pronta a aceitar o tudo e o nada que tem para lhe oferecer o resto da Europa, senão do Mundo.
Para já, espera-a a Áustria.