As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 36 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

 

As obras de Voltaire e de Rousseau, de Diderot e D’Alembert que vão chegando a minhas mãos com dificuldade e risco, guiam-me na direcção da claridade, nestes tempos que percebo serem de transformação e mudança. Como garante Novalis: «A noite original é substituída, enfim, por cadeias de luz…»

A perturbação, mas também o deslumbramento estremecido que me tomam ao ler cada um deles, deve-se não sei se à acutilante lucidez a que o seu pensamento conduz, agudizando em mim a consciência da minha atroz condição com um futuro eternamente adiado, se à aproximação já dos ventos de revolta que a Luz inevitavelmente arrasta consigo. Tendo como meta abrir no mundo portas e janelas de claridade, desse modo destruindo o antigo estado de negrume onde se encontram firmadas as raízes dos nossos antepassados.

A liberdade exige a mudança. E a mudança, por seu lado, exige que nos comportemos como se fôssemos outros, deixando de ser tal como fomos nascidos e educados.

Não sei se algum dia serei capaz de uma mudança tão radical.

Chelas, 24 de Agosto de 1774

†

«Meu querido Pai e meu Senhor

do meu coração

Quero ter o gosto de conversar com V. Ex.a e de tocar vários pontos em que tenho apetite de falar-lhe. Gostei muito de ver que V. Ex.a conhecia alguns dos Franceses modernos, de que eu faço estimação.

Sobre Voltaire não acho que dizer, porque V. Ex.a entende daquelas matérias melhor do que eu; sobre a controvérsia sou proibida de falar por todos os princípios, e até devo a S. Paulo a obrigação de me escusar ao meu parecer absolutamente.

Contudo ele é reputado por um grande filósofo e como o assombro deste século. Eu me lastimo dos seus erros, mas não posso deixar de confessar a V. Ex.a que me vieram as lágrimas aos olhos, quando vi que V. Ex.a lhe dava sentença de queima. De que servem homens queimados, meu querido Pai? Por ventura reconhecem eles a verdade na fogueira? Não é Deus só quem deve pôr termo aos nossos dias? Se Deus sofre os homens miseráveis sobre a terra, que direitos têm os outros homens para os não sofrer? Eu conheço que V. Ex.a tem muita virtude e muito juízo para decidir bem, mas eu que sou mulher com o coração muito pequeno, quando se fala em matar sempre me aflijo pelo sentenciado, seja quem for. Não está mais na minha mão. Deus terá piedade da minha fraqueza se não é boa, em consequência do preceito – de amar o próximo como a mim mesma. Queira Deus que eu nisto não diga alguma tolice, que desagrade

a V. Ex.a; mas copiei o meu sentimento e disfarçá-lo parecer-me-ia pior.

Depois de ter estudado como V. Ex.a sabe, e com o fim único da minha felicidade, formei um pequeno plano para as minhas acções, que, sendo conformes com as intenções dos meus queridos pais, eu pudesse contentar-me também e praticá-lo livremente. Meditei as minhas obrigações a respeito de Deus, da sociedade e de mim mesma, avaliei quanto me era possível o estudo do mundo e principalmente o da minha terra, e resultou daqui assentar fixamente, que eu não podia ter uma hora de sossego, se me lembrasse um dia só de escrever para o público, que a este só servem verdades disfarçadas, ou mentiras positivas, que a liberdade (ídolo do meu entendimento) seria uma vítima infeliz das máximas estranhas da minha terra, e que se queria fortuna com ela, servisse o jugo da opinião posto pelas tolas da idade, pelas ignorantes de título, e por outros indivíduos semelhantes, a que chamo em segredo baixa plebe. […]

Cuidei de distinguir bastantemente o carácter das pessoas com quem falo, e com quem estabeleço muito acauteladamente as minhas relações literárias. Assentei que o número devia ser muito pequeno, e com efeito o é. Assentando fixamente que os meus versos não encontram o parecer de nenhuma das pessoas a quem os mostro, de quem quero o prémio, ora os dirijo a um ora a outro dos três amigos nossos que me entendem, e gosto de o fazer assim porque me agradam os ingleses bons e os alemães, onde vejo este método estabelecido, como um meio para facilitar e acender mais a imaginação, e as circunstâncias do objecto a que dirijo as minhas palavras.

Filinto é de um carácter original para a nossa terra. Conhece bem que a felicidade está em si, que lhe não vem das honras que lhe fazem os fidalgos; não os distingue senão pela virtude ou pelos talentos; é um filósofo incapaz de sujeitar-se a lisonjas, nem de gabar-se das que recebe.

A confusão em que concluo esta carta talvez me fará pôr mil parvoíces.

V. Ex.a olhe sempre para o meu coração e perdoe o resto, se vai mau.

Meu querido Pai, dê-me V. Ex.a a sua benção e adeus.

De V. Ex.a

Filha muito amante e obediente

L.»

†

As freiras de Chelas oferecem com frequência uma grade de doces a que Leonor raramente falta. Até porque os maiores atractivos dessas tardes mornas e longas são ela e a sua poesia, que aceita declamar no final, a quase todos conquistando com o porte esbelto e altaneiro, a beleza clara e a desenvoltura exultante. Avivando a sua presença com a palavra certeira e a personalidade forte, a contrastar com a melancolia do olhar entornado, do sorriso ambíguo, algumas vezes irónico, a aflorar-lhe apenas a comissura dos lábios.

Ainda mal desponta a alva nesses dias, já as rodeiras colocam na portaria de fora as mesas de madeira velha, lascadas nas esquinas e nas beiras pelo passar do tempo, mas muito limpas, tampo de lustro bem puxado que elas cobrem com as toalhas brancas de bainha aberta, sobre as quais é colocado o serviço de porcelana guardado nas arcas trancadas para as festas de gala.

Nelas irão ser colocados os doces começados a preparar de véspera, invadindo o convento com as suas essências gulosas: açúcar em ponto onde os ovos são deitados em fio, laranja amarga e arroz a cozer no leite a um dos cantos da lareira. Mais tarde haverá outros aromas, o da canela e o da erva-doce, o do vinho do Porto e o do aniz escarchado.

Odores que disfarçam o bafio da humidade das paredes, do limo e das águas paradas do tanque do claustro, abafando de passagem os piores cheiros da capela: o azeite rançoso das lamparinas, o perfume enfermiço das flores e o do sebo das velas.

Leonor gosta de ir para a cozinha ajudar a fazer os papos-de-anjo, os ovos moles, o caramelo, o manjar branco de que as madres de Chelas se orgulham tanto. Ou então os rebuçados de chocolate, os biscoitos de manteiga, o bolo podre, os melindres de mel, as argolinhas e as ferraduras. Lembra-se bem de como em pequena adorava rapar o tacho, às escondidas da mãe.

São horas de alvoroço alegre, em que as noviças e as recolhidas mais jovens correm entre a copa, a cozinha e as próprias celas, passando de fugida pela capela, onde fazem rezas rápidas e sem esmero. Empurrando-se umas às outras nos corredores e nas escadas, pequeno riso nervoso que tentam ser contido, os hábitos adejando como asas escuras, para logo tombarem, omoplatas murchas e braços caídos ao longo das ancas.

Quando os convidados começam a chegar, já Leonor está arranjada: o espartilho a adelgaçar-lhe mais a figura esbelta, cintura muito fina a poder abarcar-se com as duas mãos. Sapatos de seda bordada, laço no peito arqueado do pé fino, punhos de renda aberta a apertarem nos pulsos delicados onde dança uma escrava de ouro.

Antes de sair do quarto, alisa com a ponta molhada dos dedos as sobrancelhas douradas e aviva os lábios cor-de-rosa. Cabelos aos caracóis frouxamente presos com pregos de granadas, a roçarem o tafetá do vestido simples, com decote a descobrir-lhe o começo dos seios e os ombros. Sem se esquecer de usar os brincos de diamantes e pérolas dados por Teresa de Mello Breyner no dia em que fez vinte e quatro anos, nem de passar nos pulsos e por trás dos lóbulos das orelhas como pétalas a essência de gardénia, de um frasco que esconde entre a roupa branca; odor almiscarado que se adensa na curva da nuca encoberta.

Quando finalmente chega com Maria, já as freiras serviram o refresco de limão; depois vêm os bules ferventes com o chá preto, acidulado e áspero e as leiteiras a transbordar de leite quente, onde a nata começa a coalhar no cimo. Só nessa altura se retiram os guardanapinhos que tapam os doces dispostos nos pratos e nas travessas, ao lado das taças de geleia e das tigelas de marmelada que ela e Gonçala haviam feito, com a ajuda de mais duas ou três irmãs cozinheiras, atarantadas com as gargalhadas e os cochichos de ambas. Os confeites equilibram-se perto dos sequilhos, assim como as fatias de pão-de-ló junto dos biscoitos de manteiga.

Numa terrina de porcelana está a ambrósia.

Por fim chega o café acompanhado com os bolinhos folhados e os rebuçados de ovos, enquanto se vai brincando a dar mote para versos, ou contando as últimas intrigas e novidades da Corte. Depois, será a vez de Leonor recitar versos, seguida por Filinto Elísio, Mariana ou Gonçala, que escolhe Camões, enquanto Maria os acompanha no cravo. Tudo isto intercalado por alguns motetes à viola, e sonetos de Sebastião José Ferreira Barroco.

Mas é só quando desce o crepúsculo que as discussões ganham especial brilho, depois de a prelada se retirar, seguida pelas madres mais velhas; levando os seus presentes nos braços, a tropeçarem de sono. Leonor fica com a irmã, Gonçala e Fílis, além do resto das suas discípulas, duas ou três freiras interessadas e outras tantas a mando da prioresa, incumbidas de, no dia seguinte, lhe fazerem o relato de tudo o que ali se diga ou aconteça. Porém, nada entendendo daquilo que ouvem, elas acabam por adormecer nas cadeiras, até serem despertadas pelo toque do sino a chamar para as matinas.