As Luzes de Leonor
Angelus
Quando, porém, torna a procurá-lo, aproximando-se das grades a fim de melhor lhe distinguir o rosto, ele já lá não está.
Ou nunca esteve?
†
ANGELUS
Vejo-a dividida.
Pois na sua inteireza ela é cindida: muitas de si própria na mesma face, arte, em cada nome poético onde se reinventa, volteando nas palavras e em torno dos mitos, dos símbolos, dos versos. Lídia e Lise e Laura, antes de Alcipe, criada por Filinto Elísio. Minha bela rigorosa e fugidio amor, pulsos tapados por rendas e mãos hábeis no escorregar por entre as grades do parlatório, numa inquietude extrema, a querer ultrapassar as barreiras que a cercam.
Tão revolta quanto o mar.
Clareira e rosa mate.
Espinho de silva acesa.
Ora de cassa ou de seda.
Da sombra onde me abrigo e uso como uma capa, vejo como ela se mostra e se esquiva, jogando ora com a própria imagem, ora com a inteligência e a sensibilidade. Ela muito alva, trocando incauta o rubro novelo do orgulho pelo fio ocre da crueldade. Por vezes desconfiada e curiosa, roça por mim, acutilante, os olhos ávidos, a querer descobrir-me as feições que eu abrigo quanto posso no lugar desviado onde me oculto, mas sem dela despegar em momento algum o olhar atento.
Sei de cor tanto os tons dos vestidos que veste como os livros que lê ou as ideias e ideais defendidos com ardor; entendendo quando se fatiga dizendo poesia ou discutindo ideias, mas também quando se entusiasma com a disputa da polémica, a despertar nas freiras senis arroubos de escândalo.
Num trajecto traçado entre Horácio e Young, caminha ela agora ofuscada pelas Luzes de Voltaire e de Rousseau, voluptuosamente atraída pela Encyclopédie, em rigor o Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers perseguindo com clareza determinada o progresso prometido por Diderot e d’Alembert. Porque, mesmo encarcerada por Pombal num convento, não deixa Leonor de Almeida de sonhar ser ela a mudança neste Portugal de Camões, mas também da ignorância e da superstição, do negrume onde a razão não encontra o seu espaço.
Seguirei atrás do seu passo alado,
a abrir clareiras nas florestas escuras, contentando-me eu em receber os raios facetados do seu arco-íris, limitando-me como agora, no parlatório do convento de Chelas, a ser silhueta no disfarce. Espiando-a do lugar mais escuso: à sua espera, à sua espreita, à sua descoberta. Dando início ao destino de segui-la,
a ver-te Leonor cintilar como uma estrela.
Junco, de tão delgada e vibrante. Tão doce quanto pode ser a cicuta, minha beladona de pérolas, de acácias e de mata selvagem.
Inquietude posta no maior desassossego.
Há uma equívoca tristeza naquilo que desalinhas.
†
D. Teresa Perpétua da Cruz é a nova prioresa do convento de Chelas. Talvez a partir de agora elas possam conhecer um pouco de calmaria, no revoltoso mar das suas vidas; bonança sempre bem vinda para lhes dar tranquilidade ao espírito inquieto, o que melhoraria sobremaneira a qualidade dos dias.