As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 97 de 289

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As Luzes de Leonor

Raízes

†

 

Depois da chegada da Índia dos marqueses de Távora, Teresa deixa de encontrar-se com o Rei D. José, a tentar encobrir aquilo que durante muito tempo não tivera pejo de mostrar a Lisboa inteira.

Fecha-se em casa e evita quanto pode responder aos bilhetes e às cartas que o Monarca lhe faz chegar, no início impacientes de desejo, mas ultimamente apenas contendo ordens. Mais eriçadas de espinhos ameaçadores do que portadoras de anelos de amor.

A marquesa nova teme as consequências da pública ligação ilícita com o Soberano: a vingança tida como lavagem de honra por parte de Francisco de Assis seu irmão e sogro, e mais ainda a reacção tempestuosa e destemperada de Leonor de Távora, sua cunhada e sogra que sempre receara.

Mas, sem cuidar dos perigos que ela corre, o Rei quere-a de novo na sua cama; se a condição de Majestade o defende de tudo, porquê lembrar-se dos riscos que ela corre? D. José só atende à falta do corpo dela.

E Teresa sabe disso,

ao parecer querer esconder-se, aninhar-se nos lençóis de seda escorregadia a entregar-se ao marido, a cheirar-lhe o corpo novo, saboreando cada beijo como um fruto que a alimenta, tentando apagar a memória da flacidez e do suor azedo do amante Real. Sem, apesar de tudo, se sentir arrependida de nada.

Quando Luís Bernardo a afaga, murmura palavras lascivas, esvaindo-se na entrega, toda ela mel áspero e silva enleadora; doçura cortada pela acidez dos lábios a vacilarem na sua pele, que se humedece de torpor e ansiedade.

Concedendo-lhe tudo, tudo nega e despreza de seguida; nuca tépida que se escusa, se recusa e tapa na morena penumbra dos cabelos.

Segredo velado da sua beleza magra.

Leonor de Távora ronda-a, vigilante e atenta, como uma onça a caçar a presa. Mergulhada na própria luz de diamante lapidado, não se permite ser tolerante com a infidelidade, com a vulgaridade de Teresa, criada junto de si desde menina, primeiro como cunhada e em seguida nora. Sem poder perdoar o nó corredio da fragilidade quebradiça do seu carácter.

Nem da perversidade que faz enlouquecer os homens.

Uma ameaçadora asa negra paira sobre a cabeça de Teresa de Távora que, sobressaltada, acaba por ceder à ordens do Soberano e retoma os encontros clandestinos, tremendo como se tivesse febre,

dominada pelos piores presságios.

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