As Luzes de Leonor
Monólogo de Leonor de Lorena
Enviou-me o mano Pedro, de quem me chegam as melhores palavras e a maior ternura, uma cópia do documento oficial no qual a Rainha D. Maria declara aceitar o pedido de Vossa Excelência no sentido de ser reaberto o processo da nossa família Távora, a fim de ser provada a sua inocência no que diz respeito à tentativa de crime odioso contra El-Rei D. José pela qual foram injustamente executados.
Saber da magnânima decisão de Sua Majestade no sentido de finalmente se fazer justiça, produziu em mim o melhor efeito, emprestando-me algum alento e gosto. Só me falta pois o vosso perdão e as vossas almejadas cartas. É uso dizer-se que só se perdoa por inteiro a quem muito se ama. Será então o amor de meu Pai a meu respeito assim tão fraco e pouco?
De Vossa Excelência
a filha muito obediente
L.
Viena, 5 de Novembro de 1780
†
MONÓLOGO DE LEONOR DE LORENA
Pudesse eu vencer os meus temores, depor a languidez e o desfalecimento, o desgosto profundo embora sem causa; ordenar às minhas pernas que me levassem, me conduzissem a todo o lado em vez de vacilarem como fazem, aprisionando-me na cadeira de descanso.
Pudesse eu sobrepor a minha vontade à do Marquês meu marido, tão diverso de quando o conheci e com ele vivi pai dos meus filhos, que me parece trocado; olhar com aspereza de sal e lábios sem carinho, impondo a sua vontade com a fria intenção de amedrontar, ele que continua a amar as estrelas.
Pudesse eu mudá-lo e à minha fraqueza, deixar falar mais alto o coração do que o hábito de obedecer, defendendo e ficando do lado das nossas filhas contra a sua vontade de as vergar, em vez de me manter neste deplorável estado de apagamento, sentindo em mim o peso e o sopro impiedoso do destino dos Távora.
Pudesse eu impedir-me de ter consciência da infelicidade de Maria, minha filha sofrida, esquecer-lhe as nódoas negras e as lacerações a aparecerem por entre os folhos das mangas dos vestidos, a despontarem nos decotes subidos, a resguardar da indiscrição alheia.
Pudesse eu não reparar no bistre das suas olheiras entornadas na exaurida palidez da face, no desespero febril agasalhado no olhar esquivo, na doce delgadeza da silhueta, nas marcas e vergões no alvo colo de garça aprisionada; a tomar eu para o meu lado o ajuste das tempestades e das marés altas.
Pudesse eu, Maria, comungar das tuas assustadoras visões, das tuas elevações, levitações em segredo; comungar dos teus enredos de dor, partilhar teus sigilos, amargos credos, pois aos versos já renunciaste vencida por teu marido, que te quer estilhaçar, quebrar como um caule, sujeita à sua ferocidade.
Pudesse eu arranjar coragem e tomar o partido de Leonor em tudo, começando por aceitá-la tal como é, na maior diversidade e preceito de todas nós; saber perdoar-lhe a desobediência, sofrer-lhe a rebeldia que tanto nesta casa pesa e apoquenta, desencadeando mágoas, manchas e penas.
Pudesse eu, Leonor, acolher-te a diferença, acatar o saber-te menos interessada na maternidade do que nos poemas, nos livros, nos cadernos e nos estudos, ansiando tu, aventurosa, partires pelo Mundo levada por ventos, oceanos e viagens na travessia dos fulgurantes contentamentos das Luzes.
Pudesse eu perguntar-te de mãe para filha: que sabes tu da minha infelicidade, da minha lenta agonia, da morte dos meus sonhos depostos, moldada a todas as regras e preceitos fidalgos? Conseguisse eu, filha, e mudava a minha sorte, esgueirando-me como o sol por entre as acácias e as nuvens.
Pudesse eu e faria melhor do que tu consegues fazer por ti própria pelo meio dos percalços, cansada que me sinto das mágoas, das cedências, da acidez das lágrimas retidas, do hálito e da saliva envenenada a assombrarem-me os lábios com o seu minado e imperceptível torpor do láudano.
Pudesse eu ter entendido melhor para ir mais longe, evitar lembrar-me do passado, do cheiro a salitre do medo a cobrir de névoa o azul-turquesa do céu dos meus olhos; pudesse eu recuperar os antigos sonhos de infância, urdidos pela calada da noite para serem esquecidos de madrugada.
Pudesse eu criar-te minha neta, sem estiolar-te o viço, evitando os labirintos da alma a ressumbrarem já os indícios, os malefícios que irão toldar-te a felicidade, precipitar o sofrimento que o mal porá na tua vida; conseguisse eu atapetar-te os meses com as rosas matizadas do canteiro junto ao muro que dá para a estrada.
Pudesse eu olvidar e tornar atrás, até à fundura da cisterna da sorte, a desatar os nós dos pensamentos ruins, do bordado a ponto cheio dos sangues do corpo feminino, do descaminho da respiração a passajar os dias, a desfiar o rosário entre os dedos, cumprindo a rosa divina.
Pudesse eu ser absolvida por mim mesma, e nesse perdão recolher-me na sua cor de anil ou de narceja, a escutar com gosto o rumorejar da chuva nas magnólias do parque, demorando-me a recordar as parreiras tingidas pelo outono, as estrelas constelando a toalha de mesa à nossa frente, inventando o impossível.
Pudesse eu calar o coração despedaçado onde as esperanças se amedronham e os espinhos picam onde podem, a disfarçar o desacerto em que me encontro, vestindo sedas e musselinas, evitando os confrontos, cerzindo as fissuras, unindo os espaços, dando laços prontos a voar como borboletas de cintura.
Pudesse eu defender-me das próprias reservas, das minhas maneiras, desfalecimentos e manhas e ranhuras da mente, tal como me defendem dos crepúsculos as cortinas de cassa; quisera eu ajustar as alças da claridade, as velas das palavras, os sinos dos sentimentos, as mágoas que transfiguram.
Pudesse eu calar este remorso pelo desapego em relação a todos os que me rodeiam e afastar-me sem pena nenhuma, devido à minha incapacidade de amar muito seja quem for, em qualquer altura e motivo, a não seres tu menina minha neta, cosida à bainha de minha saia ou beira de minha cama.
†
Observa-o a pintar-lhe o retrato todos os começos de tarde, tentando captar as transparências da luz indizível. Sentada, Leonor esquece as mãos entreabertas apoiadas no colo ou nos braços da cadeira, a sentir o corpo magoado pelo espartilho. Com o olhar índigo desafia Franz Joseph Pitschmann a tentar captá-lo, com os seus inúmeros matizes, toques do pincel a aflorar as cores atonais e comedidas.
Adormentadas?
Carlos Augusto tentara que ela vestisse de gala nas sessões de pintura, escolhera-lhe o vestido de seda do tom sanguíneo das amoras silvestres que ele prefere a todos os outros. Mas, como se quisesse testar a própria medida de resistência e lume,
Leonor, contrariando-o,
optara por um fato mais simples, saia de cetim verde encorpado, corpete branco-chumbo e casaquinho toldado de cinzento-escuro a ajustar-lhe o busto. Agradam-lhe as suas mangas tufadas com gomos de duas tonalidades, renda aberta e clara a debruar o decote quadrado, contornando-o de ambos os lados numa amodorrada subida até aos ombros.
Fita de levíssima gaze entre os cabelos que descem em largas ondas num penteado artificioso, no qual se entrança uma longa fieira de pérolas; dois canudos frouxos acompanham-lhe a delicada linha do pescoço.
Franz Joseph distrai-se a misturar no godé os pós de cor e o óleo de linhaça, tentando encontrar os tons exactos para pintar os seus olhos franjados de longas pestanas.
A reinventá-la,
hesitando em usar terra-de-siena queimada com uma gota de azul-de-metileno e uma pitada de amarelo ocre e malva; enquanto ela se diverte, sabendo ser essa uma tarefa impossível.
Fingindo ignorar o júbilo sufocado de Leonor ou a ansiedade do belo rosto inquieto, ele não se apressa, trabalha os tons com o pincel na paleta antes de recomeçar a pintá-la.
Consciente de haver nela algo que lhe escapa:
o olhar dobado, o silêncio ambíguo, uma naturalidade ardente de vulcão contido, que na tela insiste em transfigurar-se numa altiva teatralidade.
Em sobressalto o pintor vai-a recriando com vagares de feltro, como se lhe tocasse: a sedosa pele do seu colo, a dobada luminosidade da tez, a tépida vertigem do precipício dos seios que imagina altos e firmes e doces ao tacto quando à noite desaperta o espartilho usado por baixo daquele vestido que tanto a afasta dele. Condessa portuguesa casada com o embaixador português em Viena ela demarca-se com alarde, acentuando as diferenças que os separam.
Os versos e a pintura, pelo contrário, conduzem-na até si.
Ambos igualados pela arte.
Ao vê-lo tão perdido à sua frente, Leonor domina a custo o sorriso, a esconder os sentimentos sob a aplicação com que lhe copia a face enquanto tenta adivinhar-lhe o corpo.
De súbito atraída, fita-o impaciente.
Ela é de aço e mel, mesmo quando se encontra diante dos desvarios com os quais se desentende, contendo-se e entregando-se, negando-se e dando-se, num desperdício de vida.
Tão depressa ardente como melancólica.
Agreste e fugidia.
Não tolerando mais os sentimentos amotinados, levanta-se de rompante e atravessa a sala, a levar de rojo a saia que lhe embaraça as pernas, e só pára ao lado dele diante do cavalete, ansiosa por ver o retrato apesar de inacabado,
a olhar-se nos seus olhos que da tela a fitam, ignorando já qual das duas será mais verdadeira.
Ao sentir-lhe tão perto o hálito de fogo e o perfume ardente da sua pele, no qual detecta a gardénia, a água de rosas e o suor a nardo do seu corpo, Franz Joseph estremece, tolhendo a custo a vontade acicatada de a apertar nos braços, atraí-la ao seu corpo a cheirar a zimbro, a óleos, a tintas, a pigmento vermelho.
A tomá-la para si num eterno e ardente enleio.
Esquecida da perturbação do pintor há muito emudecido, Leonor perde-se na contemplação do turvo desafio do próprio olhar escurecido de ansiedade, tão habilmente captado, assim como no sorriso de sensualidade mordida a percorrer-lhe a boca dominada, lábios tomados por um mal dissimulado desejo contido.
Há ainda a elaborada perplexidade da expressão do rosto, mas ela de imediato recua, corando daquilo que no seu retrato julga estar a descoberto sob a fulgente máscara do disfarce.
Ei-la na tela,
mostrando a sua verdadeira face, sob o artifício da pintura.
A parte mais secreta e escondida de si mesma?