As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 191 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Como se sentisse a insistência desse interesse inusitado, Madame Roland volta-se e por segundos as duas ficam a olhar-se e a desentenderem-se de imediato, numa súbita antipatia mútua, sem a mínima vontade de se aproximarem.

Perplexa, Sophie de Condorcet baixa a cabeça a Madame Roland, num cumprimento rápido, e segue no encalço de Leonor, que já se distancia,

relutante e hirta.

 

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DIÁRIO

 

As Luzes tomam uma tonalidade tão intensa, que a sua poalha luminosa fere-me os olhos e apunhala-me a alma, transformando-se de seguida em cintilantes lâminas minúsculas, no trajecto entre a aridez lisa do papel e a fulgurante fertilidade dos tumultuados dias que vou observando no seu empolgante e ameaçador enredo.

Não nego ter-me deixado envolver pela vertigem que a liberdade desencadeia e pelo abraço que à fraternidade apraz. Risco de vida corrido por vontade própria, saboreando o vento a desmanchar-me os cabelos e a crestar-me os lábios, permitindo-me ao mesmo tempo respirar mais fundo; expondo-me. Embora eu sempre guarde uma «distância teimosa» que me sangra por dentro, acabando por dissimular os trilhos dos passos das mulheres minhas antecessoras, confundindo já o meu caminhar com o daquelas que agora me estão próximas.

Sem me dar conta, cada vez com mais frequência acabo por me render e juntar-me ao entusiasmo pulsante e ágil. Clamando no entanto por um entendimento que tarda a vir em meu auxílio, juntando as diversas partes das correntezas de um rio revolto.