As Luzes de Leonor
Monólogo da Ama
palpitantes,
submetidas àquele artificioso clima contrafeito.
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MONÓLOGO DA AMA
Levanto-me todas as manhãs no quarto da menina antes de baterem as seis horas, indo debruçar-me com pressa assustada sobre o berço onde está deitada, face cada dia mais pálida e transparente, de quem nem o leite forte do meu corpo saudável alenta e reanima.
Quando me pressente acordada, mesmo antes de me inclinar afastando a cortina de gaze, a condessinha abre os olhos azuis como se me adivinhasse, me reconhecesse pelo ruído dos passos, pelo cheiro do meu corpo lavado; e logo que a tomo nos braços, mal sentindo o seu peso de pena, parece suspirar de alívio – pequeno silvo a alinhavar-lhe apenas o interior dos lábios e a língua estreita de ave.
Caracóis ruivos colados à testa com o suor das febres que a apagam, menina-círio quebradiça, só pele e osso debaixo dos cueiros bordados no peitilho a ponto favo-de-abelha, sem que por isso a senhora condessa se desleixe de a banhar. Ela própria a despe, mãos levíssimas a libertá-la das fitas de cores, dos atilhos, dos botões de madrepérola, dos alfinetes de prata, dos nós de que cuida para ficarem lassos, pois qualquer saliência ou falha ou acrescento lhe magoa o corpinho de uma alvura sardenta e lívida, de cristal posto à transparência da luz.
Por vezes parece-me ver correr-lhe o sangue aguado nas veias sob a pele translúcida; e quando se queixa, o ruído do seu lamento nunca ultrapassa o de um pássaro no novelo do ninho. Nessas alturas, se estou só, canto-lhe baixinho e embalo-a ao som da roca de prata.
«Chus!, angelada», digo-lhe em surdina, e ao ouvir-me ela pára de gemer sossegando um pouco, apertando a ponta das rendas e das fitas de cetim no enfeite dos xailes entre os dedos mínimos, ou a desenredá-los das nervuras, mantinhas de pele de marta e das nuvens de tule que descem em cascata a partir do dossel do berço. E eu insisto mais baixo ainda:
«Chus!, cordeirinho de Deus», seguindo-lhe o olhar vago atraído pelo claror de rubi, arco-íris das velas e rubor do brasido da lareira sempre acesa a querer vencer as friagens dos rigorosos invernos de Viena. Calor no qual a menina é despida, acalentada no cimo dos nossos joelhos, pois dela não tiro o sentido, cabeceando de sono à sua beira, temendo ter chegado o momento de o anjo descer em busca da sua alma; e ao senti-la tremer, mofina, sem forças já para sugar os meus peitos doridos de tão cheios e inchados, aflijo-me e começo a ralhar comigo mesma:
«Chut!, não é tua a criança que te morre nos braços, não, não é tua. Chora antes por aquela que à nascença perdeste sem remédio nenhum. Cuidado com a armadilha, pois o leopardo acoita-se à espreita no breado pego da floresta.
Uxt!, coração mole, uxt!, coração pardo, não sejas tão entirrado. Sus! desassossegada, molestada e aguiçosa! Pertinaz e ansiosa! Sus! alumiada em busca de refrigério, seca o choro no teu rosto.
Em má hora vim para aqui a roçagar o desgosto.»
Mas quando a senhora condessa chega de madrugada, branca de cera e olhar turvado, compadeço-me ao vê-la diante do padecimento da filha sem a conseguir salvar, pois só Nosso Senhor tem esse poder, e Ele nem sempre escuta as preces dos pecadores, nem deles se amerceia.
Entorpecida, deita D. Leonor a condessinha no aprisco do colo, querençosa, miudinha e mal respirando já, enquanto eu vou orando sozinha, queimo incenso e queimo sândalo, mirra e rosmaninho, odores a entrançarem-se com o perfume do fumo doce e ardido nas braseiras do quarto.
Pão ázimo de cada dia, sem nenhum dulçor na escuridade, onde a tremer as duas aguardamos o fim,
escutando o som cavo da chuva caindo lá fora, a tornar-se lama por entre a névoa gelada.
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Querida Maria
irmã da minha alma
Maria Regina morreu ontem de madrugada. Do mesmo modo alheado do pouco tempo que viveu.
Extinguindo-se.
Entregando-se, apagando-se.
Embrulhada nos meus braços, cerrou muito devagar as pálpebras como pétalas quase transparentes, sem o mais leve estremecimento do seu delicado corpinho febril.
Uma vidente havia previsto há meses a morte dela. Na altura ri-me da sua extravagância e acusei-a de ser ignorante, fiando-me na ciência que desta vez me falhou.
Confundida, já não sei mais nada, teimando no entanto nesta incongruente tentação de absoluto. O que não me impede de chorar há horas esta nova perda, reclamando da má sorte que parece perseguir-nos, minha irmã, desde meninas.
Dê a mana esta notícia a nossa Mãe e ao mano Pedro, já que o nosso Pai pouco se importa com o que de mal ou de bem me aconteça. Diga-lhe no entanto como tenho o coração partido, culpando-me sem alívio
de não ter cuidado melhor de Maria Regina,
de ter ligado tão pouco a esta filha, que nem me dei conta de ela estar a definhar em vez de crescer. Deste modo, minha irmã, terei de fazer luto também pelos meus fracos sentimentos maternos.
Garanta também à nossa Teresa a minha constância a seu respeito e que mais tarde lhe escreverei longamente. Por enquanto, as forças falham-me até para agarrar na pena e fazer os poemas que me pesam na alma.