As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 98 de 289

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As Luzes de Leonor

Memória

†

 

Continuo a lembrar com prazer o meu deslumbramento ao entrar em Viena: cintilante luminosidade de Agosto que me apanhou de surpresa, quando abrindo lentamente os olhos acordei do sono a que cedera ainda na estrada, exausta da última etapa da viagem da qual tirei por igual gosto e cansaço.

Dias longos recordados com saudade.

Durante o trajecto de Portugal à Áustria, observei mais o mundo do que persegui ideias, e os meus versos sofreram a influência daqueles dias de entusiasmo. Escrevi-os nas estalagens onde íamos pernoitando, e mesmo na carruagem com o estojo da escrita apoiado nos joelhos unidos.

Ousando voar nos versos até onde ainda não alcançara.

Mal cheguei a Viena voltei à disposição antiga, retornando a alma à sintonia exacta com os poemas que regressavam mudados, à mistura com as cartas escritas a Teresa e também a Maria com quem desabafava as mágoas e contava alegrias e alvoroços. Para minha Mãe guardava as palavras mais fúteis, mas também as do coração e da saudade, a perguntar-lhe por Leonor Benedita, minha filha distante ainda tão pequena, a imaginá-la no berço de folhos, tule rosa e laços de fita. Indagando a mim mesma se algum dia poderia refazer a trança desmanchada do afecto entre nós duas, os nós do carinho por dar com o fio da estima materna, recebendo em troca o seu olhar e o sorriso fininho que imagino a enroscar-se meigo nas comissuras dos lábios.

Seria falso no entanto negar que me distraía, me perdia e encontrava sempre, maravilhada com o requinte da casa, com a recepção encantadora, com a cidade, com o Danúbio, com os densos parques de um verde florido, mas também com a riqueza dos palácios que ia descobrindo. E se não me deslumbrava, surpreendia-me com o fausto pesado dos salões literários, dos bailes de gala e de máscaras, dos espectáculos reais, dos inúmeros concertos.

Viena parecia-me, então, mais uma cidade de um conto de fadas do que realidade; com a sua elaborada beleza burilada, de mármore, cristal e madeira delicada, desenhada com o requinte dos iluminadores dos Livros de Horas, e a rutilante paleta dos retratistas da época: branco de chumbo com uma gota de azul-cobalto, ou vermelhão, ocre e terra-de-siena diluídos em óleo de cravo-da-índia ou de linhaça. A perder-me de bom grado na vastidão dos Palácios Imperiais de Hofburg e de Schönbrunn, este a fazer-me lembrar Versailles. E nos parques, matas e moitas floridas, cravos e rosas púrpura, arrepiada pelo condoimento que sempre me provocava o grito, o rugido, o uivo atravessando a tarde, das feras aprisionadas no Jardim Zoológico Real.

Mas o que continuo a recordar de Viena

é o brilho da inteligência a sobrepor-se ao cintilar das ofuscantes jóias usadas pelas fidalgas, em contraste com a modéstia das minhas. «É outro e bem maior o vosso ornato D. Leonor, e será ele que vos fará brilhar» –, assegurou-me a Imperatriz Maria Teresa, ao aperceber-se do meu acanhamento diante de tanta ostentação e aparato.

Tudo isto fez parte do intenso fascínio e atordoamento de que me senti tomada, a par de uma profunda tristeza que me foi ganhando à medida que os anos passavam. Chegando a temer que o frio me extinguisse a urgência de fazer poesia.

Me gelasse o raciocínio, o coração e o pensamento.

Ironicamente, Portugal faltava-me.

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