As Luzes de Leonor
Angelus
Ao seu ouvido então uma voz baixa e enleada, tratando-a pelo nome, sobressalta-a. E Leonor, enchendo-se de uma falsa coragem, volta-se de respiração suspensa, mas não encontra ninguém à sua beira.
Atemoriza-se, pois sempre receia o que escapa à sua explicação, e quando o espectáculo termina e o céu volta a mergulhar na própria escureza sente-se extremamenteo cansada. E temendo não conseguir ficar de pé mais tempo, aceita o apoio do braço de Marie Wilhelmine de Thun, que a ajuda a cobrir os ombros com a echarpe de tule e renda.
Leonor estremece sob a aragem fresca que se erguera, trazendo consigo o odor da chuva.
†
ANGELUS
Quando me recolho por entre asas e plumas em penas de voar, muitas vezes apareces-me,
não em sonhos, que os não tenho,
Leonor.
Já tu, da natureza da poesia, podes chegar ao meu ouvido com os teus versos, luz de enigma toldada de noite pelo láudano que te corta as insónias e te deixa antever as estrelas da tua constelação de cisne
e cintilância.
E nesse mapa austral para mim és uma visão, pois eu apenas te adivinho e te sei, ao tactear-te ao de leve a face com os meus dedos, como se fosse cego;
carícia leve que tu sentes sob a forma de aragem,
minha Penélope da urdidura dos versos, amazona destemida e febril a ires mais longe que o feminino da tua época.
De aço e mel adivinho-te, e quando à minha frente surges,
minha iluminação,
surpresa e curiosa, com tanto enleio, escondo-me à tua passagem, persigo-te e leio-te pelo avesso da tua própria escrita: arte das palavras por onde te esgueiras.
Sem querer eu saber senão da tua imagem.
†
Fechara-se no escritório a tentar iludir o desabrigo do resto da casa e o choro impertinente de Frederica, menina triste no seu fatinho de cambraia e fita de veludo nos caracóis sem viço, quando chega a primeira rosa-chá, acompanhada por um poema de Goethe. Carlos Augusto não faz caso das rosas que ela vai substituindo no solitário perto do clavicórdio, e ri-se dos versos que Leonor guarda, indecisa, entre as páginas de um volume de Novalis pousado na mesa a seu lado.
Dois dias depois chega uma nova rosa, desta vez púrpura, acompanhada por versos de Schiller e um bilhete com poucas palavras:
«A Senhora Condessa encontrará livros de Goethe e de Schiller na Biblioteca da Universidade de Viena.»
†
Vejo-a descer da carruagem, dispensando a ajuda do cocheiro, à frente da Universidade de Viena. Enreda o passo na tufada saia do vestido de seda verde-amendoado, ligeiramente erguido pelos dedos enluvados de negro. O vento despenteia-lhe os caracóis que conseguiram escapar do arranjo de veludo e rendas de Sevilha, posto de lado na cabeça delicada, como se escorregasse ao longo do cabelo.
A sua ida à biblioteca naquela manhã enevoada é a prova do crédito dado ao bilhete por mim enviado a garantir-lhe a existência de livros de Goethe e do volume de poesia publicado por Schiller. Com ela traz um caderno de capa forrada a pano bordado, de cujas páginas se soltam alguns papéis com versos que esvoaçam ao longo das arcadas de pedra sombria.
De onde estou a espreitá-la,
consigo ver-lhe a passageira expressão de desagrado, para logo correr atrás dos poemas que esvoaçam, despreocupada, com as saias a enrodilhar-lhe o passo ágil, até conseguir recuperá-los: folhas leves a tombarem já no chão húmido da geada da noite, para tornarem a erguer-se impelidas por um inesperado vento agreste que transporta consigo as neblinas do Danúbio.
Abandono a sombra das árvores na qual me refugio, e tento reduzir a distância entretanto alargada entre nós, cuidando em passar despercebido. Ao endireitar-se, Leonor – como prefiro tratá-la nas minhas fantasias – aperta de encontra ao peito o caderno juntamente com a pequena bolsa bordada. Nas suas feições suaves, percebo uma crispação que me surpreende, habituado que estou a vê-la usar como disfarce a máscara da expressão neutra, tentando encobrir o que lhe vai no espírito. Estremeço ainda ao recordar-lhe o olhar dolorido e alado, triste e pensativo, que tantas vezes passa de cinza a anil e de índigo a violeta suave.
Apercebo-me do desembaraço com que entra no enorme átrio de mármore: primeiro contorna-o, para logo se dirigir à larga escadaria de madeira escura e polida, que começa a subir sem pressa, a mão direita deslizando ao longo do corrimão, mais a tactear-lhe a espessura do que a amparar-se, ignorando os alunos que, ao cruzarem-se com ela, a fitam com assombro.
Sigo no seu rasto, atento aos risos, aos chistes, às veladas insinuações que à sua volta se levantam e aos que diante da sua beleza altiva se detêm, silhueta delgada que o vestido de tafetá azul-cobalto sublinha. E chegando antes de mim ao topo da escada, hesita diante das três hipóteses que lhe propõem os corredores sombrios. Dissimulo-me junto à pequena coluna encimada por um vaso de cobre com funcho-bastardo, de onde a espreito:
um ricto de determinação marca-lhe os lábios descoloridos, acabando por se dirigir num passo firme e rápido pelo corredor central, a bainha da saia a rojar no tapete grená, em direcção à grande porta ao fundo, onde está escrito numa estreita placa de metal dourado: Biblioteca.
Sigo-a.
Primeiro, tira as luvas pretas, em seguida pousa ambas as mãos nuas nos painéis de madeira maciça, pesada, e empurra-a com esforço, ombros um tudo-nada inclinados para trás. Num ápice, porém, alguém surge correndo a travar-lhe o gesto. Apercebo-me de como Leonor fita, surpresa, o homem fardado que, tirando o chapéu, lhe diz ainda amável:
– Vossa Excelência vai-me perdoar, mas as damas não podem entrar nas salas da Universidade.
Ao que ela responde num tom mordente:
– Vou à biblioteca, não preciso das vossas salas.
Ele abana a cabeça grisalha e recua atrapalhado, deixando a grande porta entreaberta, o que permite distinguir algumas das estantes com os livros alinhados nas prateleiras de madeira lustrosa, volumes nos quais Leonor repara com gula, avançando de imediato na sua direcção. Mas o guarda torna a barrar-lhe o caminho.
– As damas também não podem frequentar a biblioteca.
Como se tivesse sido esbofeteada, Leonor, indignada, pergunta quase num grito:
– E não podem porquê?
Um profundo silêncio responde à sua pergunta.
†
Ao acordar ele ainda está a seu lado,
estendido na cama larga. O corpo longo e branco de louro, as ancas estreitas e as compridas pernas que durante a madrugada tinham encontrado o caminho até ela por entre os lençóis de linho alvo, as cobertas e as mantas de lã, e expunham agora à luz matizada do início da manhã a sua equívoca nudez glabra.
Inclinando-se, Leonor fica imóvel e indecisa no sentimento imprevisto, contrariando a urgente vontade de o beijar, de lhe aflorar a nuca, de voltar a respirar-lhe o intenso cheiro de homem, acre mas também acetinado, numa mistura de esperma e de suor.
Com os dedos afuselados, cuidando não lhe tocar, começa a desenhar no ar o contorno límpido da nudez de Carlos Augusto.
†
Carlos Augusto aceita o convite do Imperador para ir na passagem do ano ver os fogos-de-artifício no Palácio Real de Viena.
Leonor teima em ficar em casa
e diante de 1784 acabado de chegar, promete ser fiel a si mesma no cumprir dos ideais e dos sonhos, jurados quando ainda menina.
Esses sonhos serão o seu futuro,
de mudança.
Tudo o mais dilui-se agora diante do seu novo olhar ainda oculto; embora tema continuar mergulhada na maior das indiferenças.
No peito, porém, sem ela dar por isso,
o coração bate já mais forte.
†
Ultimamente tem sentido desejo de comer flores.
Gardénias?
Pétalas mastigadas devagar, a deixá-las subir até ao palato, para as descer em seguida com a ajuda da língua, a levá-las depois até à comissura dos lábios.
Faz arranjos florais, dos quais mansamente se entretém a arrancar as folhas e os espinhos das rosas, antes de as levar à boca, a fim de lhes morder o caule e em seguida, voraz, as devorar. A degustar-lhes o suor escasso, com travo de tília na turvação do crepúsculo.
Exaurida.
Quebrada, na pele de lírio acetinado da cintura já larga, ou da delicada curvatura da anca, meses atrás ainda breve e delgada.
Débil.
Ultimamente tem sentido desejo de comer flores.
Orquídeas?
Em desesperados sabores ambarinos esfiapados.
Os pés longos e finos das flores, dos quais conhece o gosto ácido, com uma doçura citrina.
A dar de beber à criança no seu útero.
Flores de crina.
Com a maciez das zínias, dos goivos, da tepidez líquida do almíscar crispado no brando novelo do cuspo; plantas perenes a custo esquecidas no enlanguescer dos dias suspeitosos, embora suspire e molhe os lábios com levíssimos licores de alfazema e lustro de setembrinas, fruindo uma ardida sensação de desmesura.
Furtiva.
Ultimamente tem sentido desejo de comer flores.
Camélias?
Num odor opressivo a artemísia, a verbena e a láudano, fragrâncias obsessivas, compulsivas, a beladona, a bromélia, as papoilas vermelhas que a adormecem, a desfalecem e enfeitiçam, a debilitam de murta e escuridade, onde apenas sobressai a cintilação jubilosa de um coração palpitante e rútilo.
Perecível.
Ultimamente tem sentido desejo de comer flores.
Begónias?
Mimosas a fazê-la engolir o vómito quando lhes bebe as lágrimas, o orvalho, a rasgá-las com os dentes, de forma langorosa, vagarosa, tomando-lhes pelo avesso o dentro, o íntimo, no esplendor entorpecido do travo lento a absinto, sem dar conta dos braços franzinos, febris e palpitantes.
Quebradiça.
Ultimamente tem sentido desejo de comer flores.
Estrelícias?
Com uma graça esquiva, morde-as distraída, vagarosa, a sugar-lhes os sucos, os sumos, que tece e enrodilha com a ajuda transparente da saliva a escorregar nas gengivas suaves. O prazer a esconder-se no húmido crepúsculo por baixo da língua. Numa longínqua memória de júbilo.
Apaziguadora.
A iludir a voracidade do corpo e da paixão recolhida escondida no disfarce; violetas devoradas, com as suas pequenas corolas débeis, meticulosas e intactas. Assumindo o vício, alienada no seu ofício materno, na tentiva de olvidar a insubmissão dos poetas. Hábil no destrinçar dos versos, das palavras, dos paladares, deslizando-os e depois deglutindo-os.
Sequiosa.
Ultimamente tem sentido desejo de comer flores.
Gladíolos?
Em urdidura e vontade de os domar, de lhes sorver as raízes, os dormentes odores azul-pavão, que se lhe apresentam cheios de langor, a fremir nas horas da penumbra onde ela em sobressalto reconstrói e inventa.
Desvenda.
A tocar ao de leve a fímbria do decote de renda, quando a meio da tarde se recosta nas alvas almofadas da cama, envolta em nuvens de lãs caprichosas, em pálidas mantas de marta, e tenta afugentar a vertigem.
Ardilosa.
Nove meses seguidos friorenta e lívida.
†
Toca Mozart de manhã cedo,
e isso afasta um pouco a inquietação em que se encontra, dividida entre a vida e o sonho, as suas palavras e os seus silêncios; entre os seus intentos, os seus desejos e a realidade; sobretudo entre o coração e a razão, que a partilham em iguais metades, como se fossem de uma única laranja – cada gomo parte de um mesmo fruto ou flor de árvore.
Na sua arte incontrolável, o corpo voltara a escapar-lhe.
Leonor vê-se de novo grávida, presa de um encoberto desespero que a consome e entorpece. Queixume de mulher impotente e exausta diante da própria fertilidade indomável.
Toca Mozart de manhã cedo,
como quem tenta iludir os vómitos persistentes que acabam por invadi-la, vergando-a. Desespera-a a ideia de durante nove meses se limitar a contar as semanas intermináveis, a viver com uma criança que à sua revelia a habita, ocupando cada dia maior espaço dentro de si: invasiva, voraz e invisível.
Toca Mozart de manhã cedo,
ciente dos deveres que lhe cabem, mas nem por isso menos desesperada. Depois de três partos seguidos, a sua saúde encontra-se debilitada, ressentida também pelo clima cinzento e frio, a ferir-lhe o corpo como uma farpa e a adoecer-lhe a alma; falta-lhe o calor, o mar, o cheiro do Tejo, saudosa do sol ardente e do azul intenso do céu de Portugal.
Refém da natureza, que parece entreter-se a forjar-lhe um destino diverso daquele que ambicionara, não se revê na figura reflectida no seu espelho imaginário: imagem dupla, uma esvaída e débil, a outra hesitante e entorpecida.
Onde estará então aquela que, embora trancada num convento acreditava na liberdade?
†
A menina nasce de olhos abertos, cor de violeta.
Sem nenhum choro.
Para a parteira e as outras mulheres que rodeiam Leonor e lhe assistiram ao parto é por demais evidente que a criança respira e exala um levíssimo perfume delicado a ferrugem do sangue materno adoçado com a amêndoa dos lábios.
Tudo nela parece ter acerto e harmonia: da correcção das feições à pele alva, em contraste com a penugem escura da cabeça redonda; do oval perfeito do rosto às pálpebras como pétalas de transparência azulada, da boca de lábios carnudos e rosados ao queixo pequeno, marcado ao de leve por uma ligeiríssima cova de lua.
Limpam-na com panos húmidos e quentes, retirando-lhe os mucos, os coágulos, o difícil rasto dos sangues, dos sucos do corpo da mãe, que emudecida descansa nas almofadas altas e molhadas pelo próprio suor, que lhe cola os cabelos dourados às têmporas maceradas.
De mangas arregaçadas acima dos cotovelos, saias e aventais encharcados pelas águas ferventes onde haviam mergulhado as mãos e os braços ensanguentados dos líquidos do nascimento, vestem em silêncio a menina, dedos grossos e rudes, pouco habituados à delicadeza dos cetins, das lãs e das fitas.
Depois de enxugarem o corpinho macio e quebradiço, vestem-lhe a camisa de cambraia transparente, pano de linho dobrado entre as virilhas, e por cima um comprido cueiro a tapar-lhe os minúsculos pés. Por fim põem-lhe a pequena touca de algodão rosado.
Estranhando – quem sabe se temerosas por nunca terem feito nascer criança tão bela –, tomam-na nos braços e vão colocá-la na cama ao lado da mãe adormecida, entre os lençóis que ainda não houvera tempo de mudar e onde se perdeu a raiz de agrimónia usada à revelia de Leonor, na tentativa de lhe cortar as dores. Sem se atreverem a acordá-la, limitam-se a cobrir as duas com uma manta de lã.
E em bicos de pés saem do quarto.
†
Depois do nascimento de Juliana, muito ao de leve, começam a verificar-se mudanças em Leonor: pequeníssimos desvios na sua maneira de ser, subtis fissuras de comportamento, levíssimas indecisões ainda imperceptíveis, algum destempero no riso que, de imediato, pode mudar-se em choro.
Como já acontecera quando do nascimento de Maria Regina e de Frederica, vagueia muito esguia e exaurida pela casa, cabelo em desalinho, sem gosto por nada nem para nada; busca em silêncio os recantos mais sombrios das salas e dos quartos, cortinas corridas, velas apagadas, acabando por deitar-se vestida a meio da tarde, encolhida sobre as bordaduras da colcha de cetim e damasco.
A evitar a filha recém-nascida,
que no berço parece aguardá-la, tal como a Frederica, que ardilosamente sempre vai no seu encalço, esgueirando-se, disfarçando-se por trás de cada cortinado, escondendo-se debaixo das mesas, deslizando rente às paredes, espreitando-a pelas frinchas das portas, seguindo-a
por todo o lado.
†
Conhecendo a azáfama que provoca um nascimento, Carlos Augusto estranha o silêncio da casa e teme pelo que possa vir em seguida. Pensando conhecer Leonor melhor do que ninguém, julga saber interpretar-lhe cada fuga ou cada sorriso. Mas o presente alheamento desnorteia-o, pois mesmo quando parece aceitar a companhia dos outros ela permanece ausente como se ninguém existisse no vazio que a envolve.
E ao ver as lágrimas começarem a rolar sem motivo nas suas faces descoloridas, alarma-se. Tenta ainda falar com Leonor, que lhe foge ora através do sono sobressaltado, ora trocando-lhe o passo entre as salas e o jardim, onde ao longo das sebes de lilases ele a procura, indo-a descobrir a maior parte das vezes sentada debaixo do caramanchão das rosas trepadeiras, que ela mandara fazer igual ao da casa de Lisboa, de Teresa de Mello Breyner.
Um dia, porém, Carlos Augusto fica a examiná-la de longe, a cabeça reclinada no braço apoiado na mesa de pedra, onde costuma escrever no final das manhãs mais amenas; o braço esquerdo desce-lhe ao longo da ilharga, indo repousar a mão fina e aberta no ninho de seda do colo.