As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 280 de 289

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As Luzes de Leonor

Raízes

†

 

Ainda não deram as sete da manhã de 13 de Janeiro de 1759, madrugada nimbada por uma luminosidade anil e quebradiça cinzelada pelo eclipse, restos de negrume a estilhaçarem-se em mínimos cristais de gume afiado, quando a cadeirinha preta na qual segue a marquesa de Távora larga do Pátio dos Bichos a caminho do largo do Cais Grande de Belém, onde durante a noite de temporal fora levantado o patíbulo em madeira de pinho, com acesso por escada íngreme.

Fitando o nada com o olhar de violeta, a marquesa, esmaecida e pálida, leva os pulsos atados com baraço e nós dados muitas vezes, e as mãos desmaiadas no regaço sem viço. De fora chega-lhe o som cavo e cadenciado dos cascos dos cavalos ao embaterem nas pedras, a pisarem e a enterrarem-se na terra empapada pelo granizo. E semelhante a um estranho fulgor, através das finas cortinas descidas, dá conta da cor intensa das fardas do esquadrão de dragões que a escolta.

Atrás seguem os ministros criminais, tiritando apesar das suas togas, e o corregedor da Corte, que ainda há poucos meses corria a beijar-lhe a mão. E tão devagar seguem todos, que por brevíssimos segundos ela quase acredita terem ficado parados no meio de um nada sem tempo.

Suspensa ela mesma da sua própria imagem desfocada: a capa debaixo da qual o corpo magro nada dentro do vestido de cetim azul-ferrete que, tal como a camisinha interior e o lenço branco do pescoço, não lhe havia sido permitido trocar durante o seu cativeiro no convento das Grilas. Os cabelos dourados, ondeando devido ao vento que entra pelas janelas sem vidros, parecem querer escapar das fitas que os seguram, e os olhos de um violeta intenso – quem sabe se a reterem as lágrimas que não se permite chorar – ardem-lhe de cansados.

Tinham-lhe tirado tudo.

Menos a dignidade e a honra, o orgulho e a sua inocência.

Quando a pequena liteira pára, descompassa-se-lhe o coração no peito a gelar o sangue, enquanto respira fundo todo o ar que pode, a tentar reter a fragrância das folhas das árvores e o acre da sua resina, assim como o odor da chuva pesada, dos limos e do lodo do Tejo, a misturar-se interiormente com o cheiro das águas salgadas do mar, vindo dos lados da Torre de Belém.

Ao sair da cadeirinha firma o pé incerto no chão tornado lama pela chuva da tormenta da véspera, e Leonor de Távora inclina-se um tudo-nada, estremecendo quando o frio trespassando o cetim da saia lhe chega à pele do corpo.

Os dois padres presentes querem ajudá-la, mas ela recusa, e avançando ladeada pela guarda, ao chegar aos degraus do cadafalso logo no primeiro ajoelha, a confessar-se durante quase uma hora, voz num sussurro, num sopro, numa aragem. E pouco a pouco acalma-se apesar dos nervos, da tensão, do susto que a vergastam; ninguém mais poderá defendê-la, encontra-se sozinha consigo mesma.

Depois levanta-se ágil, e acompanhada pelos sacerdotes sobe até onde o meirinho, agitado, a espera junto dos carrascos com máscaras a esconderem-lhes as faces. Mesmo assim, encara-os com a luz acesa das suas pupilas claras, até eles baixarem as pálpebras pesadas, os três irmanados na construção da mesma morte: a dela.

Só então Leonor de Távora se dá conta de como a chuva cerrada e miúda continua a cair impiedosamente, arrastada pelo vento desabrido, zunindo cortante como lâmina de navalha, invasor a tomar conta de tudo, persistente e desatado, a formar com os sentimentos encobertos dela um torvelinho revolvido e frustre. Mas logo os algozes chegam à sua beira e com as mãos brutais empurram-na de forma brusca, a levá-la em torno do estrado onde se encontram alinhados os instrumentos de tortura, enquanto explicam com detalhe a sua serventia, nomeando cada um deles:

os postes,

as rodas, os garrotes, os arrochos,

as aspas,

as roldanas, os maços e os colares de ferro,

as tenazes, o potro,

o alcatrão.

Mais adiante está a lenha das fogueiras.

No seu ofício de crueldade, os verdugos demoram-se no pormenor, na explicação do suplício que sofrerá cada um dos filhos e o marido dela, a esmagar-lhes os ossos, a trucidá-los, a queimá-los ainda vivos, a garrotá-los. A marquesa de Távora oculta a custo o desfalecimento que a acomete, vertigem deslizando à flor dos nervos, e no entanto a sua face lívida permanece de uma apatia extrema; apenas um ligeiro tremor no canto direito da boca sem cor a denuncia. Prende o lábio inferior com a ponta dos dentes, e acaba por dizer com voz firme e alta:

«Deus permita que saibam morrer como quem são.»

Em torno do patíbulo começam a juntar-se as gentes que se acotovelam para a ver de perto, a gritarem-lhe insultos.

Indiferente, Leonor de Távora toma da vida o pouco tempo que lhe resta, e quando o primeiro carrasco num gesto desgarrado lhe arrebata a capa dos ombros muito direitos, ela nem estremece, a dar conta da minúcia do ruído das ondas e do arrebatamento alado de um bando de pássaros que de súbito levanta voo, enfrentando a ventania e a borrasca, diante dos seus olhos que buscam no céu de chumbo uma fresta por onde possa esgueirar-se a luz que lhe ilumine a cerração.

Para Leonor de Távora os pássaros foram essa fresta, e por isso sorri, apesar do medo que sente. E quando o verdugo, depois de ter atirado para longe a capa com uma lentidão de massacre, a faz sentar na cadeira colocada no centro do tablado, ela tenta com as mãos amarradas compor a saia enrodilhada, e não o conseguindo ergue-se, a endireitá-la com a ponta do pé impaciente.

À sua roda faz-se um silêncio incrédulo.

Até voltar a sentar-se sob o olhar desconfiado dos carrascos, que logo avançam para lhe arrancarem com brutalidade o lenço com o qual um deles a venda, tirando-lhe a luz juntamente com o verde profundo das copas das árvores que, de onde ela se encontra para morrer, parecem bordejar o firmamento. E quando lhe entreabrem mais o decote do vestido de cetim, o corpo dela vibra no recuo que o asco provoca.

– «Não me descomponhas!» – ordena altiva, com grande secura da voz.

E estas foram as suas últimas palavras.

Atrás dela, com as mãos a entrelaçarem-se, o algoz ergue o sabre e, num único golpe, separa-lhe do corpo a cabeça, que o outro logo agarra pelos cabelos ensanguentados e exibe, sem que ninguém mostre regozijo, nem se ouça um brado, um grito, uma blasfémia.

Os olhos vazios de Leonor de Távora,

que a morte mudara de violeta em azul-cobalto, parecem fitar a lonjura, enquanto o corpo fica tombado no seu próprio sangramento: primeiro um charco que alastra e em seguida desliza e se divide em pequenos rios de vermelho-romã, a escorrerem ao longo das traves, infiltrando-se por entre as frinchas das vigas mal unidas, indo ensopar a areia por baixo do cadafalso.

Puxam Leonor de Távora para um canto do tablado: encolhida, enrodilhada, ensanguentada, dobrada sobre si mesma. E antes de a cobrirem com a própria capa, põem-lhe a cabeça entre os braços um pouco recolhidos,

que desse modo parecem resguardá-la.

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