As Luzes de Leonor
Memória
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Ao retomar dia após dia o fio tecido e inconstante de uma revoltosa memória que me abisma, mantenho-me viva e sem custo de nada que me seja vital; a olhar-me ainda hoje como Narciso no espelho do abismo. Preferindo esse olhar àquele que agora me dá a ver esta em que os tantos anos impiedosos me tornaram.
Tentada a observar o mundo sem ser através do falso embelezamento translúcido das claridades coadas, que os nossos dias têm gosto em desmascarar sem dó nem piedade.
Aferidora de paixões, só neste momento me atrevo a deslindar o bater apressado do próprio coração aceso, infelizmente certa de não me poder mais queimar. Tão diferente eu hoje da mulher ardente que nos primeiros anos do século XIX se precipitava, entregando-se a acontecimentos e a causas, cheia de incendiadas e inabaláveis certezas; temendo, talvez, mas nunca recuando frente aos limites e obstáculos, aos reveses da vida.
E foram tantos os precipícios!
De revoltosas águas onde preferia mergulhar a perder a hipótese de descobrir os tons de esmeralda do seu fundo; a reveladora palavra da ciência, e tudo o mais que, com o estudo e a dolorosa aprendizagem, fui aprendendo.
Lembro-me de Portugal, então, e de mim própria.
Sem nenhuma compaixão.
Declina a tarde ao fundo do jardim que abarco da janela, em cuja balaustrada me apoio a fim de seguir lá fora o voo das aves, que a esta hora sempre regressam às árvores que circundam o labirinto das alamedas, para irem dormir entre as largas folhas das magnólias, das nogueiras ou do cedro frondoso por baixo do terraço.
Demoro-me debruçada no ocaso, consciente de que mal me torne a sentar irei de novo até ao passado, onde me demoro se me encontro só.
Ou se não escrevo poesia.
Coração sobressaltado, como se revivesse acontecimentos e presságios de quando, sem precaução alguma, ia imaginando o futuro almejado por mim… Desejo amordaçado, a perseguir desacatos e seguindo tumultos.
Poderia eu ter fugido ao excesso que sempre repudiei? – pergunto-me em desassossego. E, sem que o possa impedir, mil outras perguntas regressam, arrastando consigo a dúvida.
Mais uma vez a dúvida…
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