As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 58 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Ao voltarem de Queluz, Leonor, que apesar de tudo encontra sempre motivos de crítica e de tédio naquilo a que assistira no Paço, irrita-se com a irmã e zanga-se consigo mesma por continuarem a perder da vida tanto tempo com superficialidades e futilidades que, ao tomarem conhecimento delas pelos amigos que as visitavam na grade, sempre haviam rejeitado. E como não sabe nem pretende esconder aquilo que sente, diz o que entende dever dizer, expõe-se em demasia, nunca sabendo ser prudente e acautelada.

– Eles não nos merecem –, acaba por comentar com voz de melancolia.

No escuro da carruagem que as leva de volta a casa vão ambas caladas, remoendo aflições e desagrados: Lília aborrece-se com a ignorância e o vazio em que se plasmam os dias à sua volta; Dafne, sem entender como tomar nas mãos a própria vida, atordoa-se, a tentar esquecer o casamento que o Pai lhe arranjara e a ela repugna, mas sem coragem para recusá-lo seguindo o exemplo da irmã.

Tão diversas que são uma da outra.

Maria, não conseguindo resguardar-se da vontade dos outros.

Leonor, para si própria exigindo tudo.

 

†

DIÁRIO

 

Por vezes,

naquilo que pretendo desacerto-me, mas também me entrego, me projecto e reencontro quando escrevo, nos versos que faço.

Descobri não muito longe de casa um lugar onde, quando posso, vou sozinha ver o sol pôr-se, deixando atrás de si um rasto de transparência púrpura como se nele uma ferida sangrasse durante a lenta descida no horizonte.

Numa queda retardada e indiferente.

Fico a imaginar-me longe de Portugal, de onde parece acenar-me o futuro. Gostaria de poder alcançar uma independência feminina só concebível em tempos vindouros, ainda perdidos na impossibilidade.

Para mim no entanto a lonjura é sempre demasiado perto.

Lisboa, 14 de Outubro de 1778

†

Carlos Augusto regressa a Portugal antes do previsto.

E quando consegue encontrar-se a sós com Leonor, confessa-lhe não ter podido manter-se afastado dela por mais tempo.

– Amo-te Nelly, muito mais do que eu pensava – diz, estendendo a mão para os seus cabelos dourados a ondearem nos ombros desnudados pelo decote do vestido malva.

Mas ela recua, ainda ressentida com aquela viagem que continua a parecer-lhe fuga ou abandono. E a mão dele hesita só um instante, antes de os seus dedos longos se estenderem mais um pouco a descerem para lhe aflorar a cintura estreita, e depois prendê-la puxando-a para o seu corpo.

A senti-la ceder ao abraço forte.

– Meu lírio! – murmura-lhe ao ouvido. E Leonor, apesar de lhe adivinhar a banalidade e a fraqueza, encosta em silêncio a cabeça ao seu peito, a respirar-lhe o leve odor almiscarado: mistura de água de cheiro inglesa e secura do tecido da farda.

†

O conde de Oeynhausen voltou antes do limite do prazo por mim concedido para a sua misteriosa viagem. Trazendo de novo consigo o alvoroço para a vida de D. Leonor de Almeida, que me veio procurar a Queluz presa da maior inquietude, o bistre das olheiras a pisar-lhe o rosto.

– Pela vossa fisionomia, adivinho que o senhor marquês de Alorna teima em se opor ao casamento de Vossa Excelência com o conde de Oeynhausen –, começo por lhe dizer, depois de ter mandado afastar as damas da minha câmara.

Mas reparando como, ao contrário da sua natureza habitualmente viva e calorosa, ela permanece cabisbaixa, eu, que meditara com cuidado sobre tão delicado assunto, considerei ser altura de lhe dar conhecimento da minha decisão:

– A solução para este caso, D. Leonor, está em encontrar-se um meio de o marquês de Alorna se ver constrangido a dar a vossa mão ao conde. E o melhor que me ocorre nesse sentido é expressar-lhe a minha intenção de ser vossa madrinha de casamento.

Apesar de continuar a olhar-me em silêncio, pareceu-me ver-lhe no olhar velado um clarão de esperança, logo extinto. Achei então por bem ir direita à parte mais penosa do meu projecto:

– Mas, para que o meu plano resulte, temos de apressar o baptismo do conde de Oeynhausen e a sua solene abjuração da doutrina protestante.

Acordando do marasmo em que se encontrara mergulhada até aí, a cruzar e a descruzar os dedos crispados no regaço macio da saia, respondeu-me D. Leonor, tentando a custo apagar a tristeza do tom da sua voz:

– Vossa Alteza perdoar-me-á, mas sinto-me incapaz de fazer tão grave pedido ao conde em troca do meu amor!

Para seu bem, resolvi ser absolutamente clara:

– Não é em troca do vosso amor que o conde de Oeynhausen terá de abandonar o protestantismo pela fé católica, mas sim em troca da protecção da Rainha de Portugal.

†

Minha Nelly amada do meu coração, desfaleceria no árduo trabalho de conseguir a tua mão, caso não fora o tanto amor que te dedico. Pretende o teu Pai contrariar esta paixão tão forte e impedir a nossa ligação, usando sem escrúpulos como seus motivos, para além de tudo o mais, cada um dos meus antigos pecados. Mas se tu de todos eles já sabes pela minha boca, e mesmo assim me queres, tudo farei para merecer-te, minha amada.

Deste modo, e seguindo em todos os passos os conselhos da Sereníssima Rainha D. Maria, serei baptizado no dia 15 de Fevereiro, tendo como padrinhos a Soberana e seu marido El-Rei D. Pedro. No início da cerimónia abjurarei solenemente a doutrina de Lutero.

Espero, tesouro da minha vida, conseguir assim atenuar os rigores da má opinião que o marquês de Alorna tem a meu respeito. Mostra aos teus esta carta, pois talvez os comovas e os convoques para a causa do nosso casamento, que já tarda. Quanto a ti, meu amor, cuida em estar calma e menos infeliz.

Acredito que tudo irá terminar a nosso gosto, se tanto afinal nos amamos!

Até breve minha Nelly adorada.

Carlos Augusto

Lisboa, 1 de Fevereiro de 1778

†

A missa começará logo que Suas Majestades a Rainha D. Maria e o Rei D. Pedro cheguem, acompanhados pelos Príncipes do Brasil, D. José e D. Maria Francisca Benedita, e por D. João, Príncipe da Beira.

Enquanto espera, Carlos Augusto de Oeynhausen, sentindo grande inquietação nervosa, procura refúgio no lugar mais obscuro da Capela dos Paços Reais de Salvaterra de Magos, de onde consegue distinguir William Costigan ao fundo, em conversa murmurada com os seus companheiros. Apercebe-se de como eles sussurram rindo entre si enquanto o olham, e por momentos arrepende-se e envergonha-se da resolução tomada de abjurar a fé na qual crescera e fora educado. Mas o ardente e persistente sentimento que nutre por Leonor de Almeida continua a ser mais forte e envolvente do que tudo o resto.

Motivo primeiro e determinante que o levara a pedir a naturalização portuguesa. Tal como o amor por Eurídice levara Orfeu a descer até às profundezas da morte para ir buscá-la, do mesmo modo Carlos Augusto sente ter aceitado o alto preço necessário para poder alcançar Leonor e casar-se com ela: o baptismo e a renúncia da doutrina luterana que sempre fora a sua.

Esse dia chegara.

O mordomo-mor D. João, que depois da chegada de Suas Majestades o procura inquieto com o olhar arguto, acabando por descobri-lo ajoelhado na penumbra, aproxima-se e, impaciente, toca-lhe no braço. Carlos Augusto estremece, encolhe-se, pensa ainda em esquivar-se, mas já está sendo conduzido até ao lugar onde assistirá à missa cantada e ao sermão de frei Inácio de São Caetano, cujo tema único é a sua retractação do protestantismo.

Depois do baptismo, ser-lhe-á conferido o sacramento da confirmação, tendo como padrinho o Rei D. Pedro, e em seguida, por comissão da Fidelíssima Rainha, governadora e perpétua administradora da Ordem de Cristo, ser-lhe-á lançado o hábito da mesma Ordem, sendo armado cavaleiro por El-Rei e os Príncipes.

Agoniado e febril, sente o corpo a suar debaixo do trajo de gala militar, tentando em vão ignorar o cheiro a sebo das muitas velas que iluminam o altar, de onde desvia o olhar ofuscado. Sem aguentar mais, volta-se, e de súbito para ele tudo muda, ao descobrir Leonor sentada num dos bancos de trás da capela, pequeno chapéu de veludo indigo do qual desce o véu cor de pérola sobre o rosto pálido, a nimbá-la de uma aura de mistério furtivo mas também de recato que o prende mais ainda ao enredo daquela mulher tão estranha e diferente de todas as que até então conhecera.

Sorriem de manso um para o outro,

perdendo ambos a noção do tempo. Mas o mordomo-mor surge para o acompanhar até onde se dará primeiro a abjuração e depois o baptismo. A Rainha D. Maria e o Rei D. Pedro, seus padrinhos, encaminham-se já com os Príncipes na direcção da grande pia baptismal de mármore branco, perto da qual frei Inácio de São Caetano, ricamente paramentado, nem sequer tenta disfarçar a irritação pelo atraso da cerimónia.

Para o conde de Oeynhausen o mais penoso é a abjuração,

de que começa por dizer as palavras rituais:

«Convencido há muito tempo dos erros da seita de Lutero em que me criaram e desviado do amor da verdade, projectei entrar na Comunhão Católica Romana e abandonar com valor as trevas em que me acho abismado.»

E se até ao fim do texto decorado da retractação Carlos Augusto aparenta uma segurança e uma indiferença altiva, no seu peito isso é contrariado pela grande tempestade que nele se desencadeia.

Mesmo durante a celebração do sacramento do baptismo, ele continua a tentar anular as emoções desencontradas, defendendo-se da própria consciência culpada. Esvaziando o melhor que pode o pensamento e o sentir, duelo travado entre o pejo e o sobressalto.

A fingir não dar conta do coração desgovernado.

Quando, ao ser armado cavaleiro, tudo finalmente termina, a Corte presente cerca-o, fechando um círculo de curiosidade hipócrita à sua volta. Seguindo-se a hora de agradecer a Suas Majestades e Altezas, de receber os cumprimentos dos fidalgos e do regresso da angústia, como uma garra cravada no seu peito desacertado, pois aqueles que até aí considerara os seus únicos amigos em Portugal afastam-se com olhares de desdém, sem se lhe dirigirem. Ao buscar o arrimo da presença de Leonor, encontra vazio o genuflexório onde a vira ajoelhada.

Pára, atordoado, sem sequer se dar conta das magníficas vozes do coro que, encerrando a solenidade, cantam um belíssimo Te Deum a prolongar o cair da tarde.

– Deus seja louvado – murmura para si mesmo em alemão. Sentindo haver traído a sua fé e a sua pátria,

por um amor, quem sabe, mal correspondido.

†

Durante a viagem de Estremoz a Lisboa, Teresa de Mello Breyner lê e relê as últimas cartas de Leonor. Reflectindo sobre elas, Teresa sente-se cada vez mais preocupada com a delicada e difícil situação da amiga, pois conhecendo-a como a conhece não está a vê-la ceder, nem pretender encontrar um ponto de equilíbrio que possa pôr termo àquele conflito.

Mesmo morando longe, ouvira falar dilatadamente do baptizado do conde de Oeynhausen, dando por outro lado conta, pelas palavras de Leonor, das esperanças que esta põe na execução do plano concebido pela Rainha, na tentativa de ajudá-la, sendo ela sua valida, por acreditar no amor dos dois, e sobretudo por se sentir de certa forma em dívida para com ela, em nome do Rei D. José seu Pai.

Mal chegada a casa, Teresa de Mello Breyner já está novamente de saída, para visitar aquela a quem na intimidade continua a chamar Lília. Encontra-a mais magra e pensativa, debaixo da latada das rosas trepadeiras, com um livro entreaberto no regaço.

Descida a escadaria de pedra,

Teresa pára antes de tomar o caminho de terra batida que leva até ao banco de pedra onde a amiga se encontra sentada, ficando-se a vê-la a perder-se na própria melancolia, vestido de algodão da Índia de um rosa muito pálido, pés nus e estendidos junto de um maciço de cravos brancos tingidos de vermelho ao sol da incipiente primavera.

Inquieta e julgando-a adormecida, cuida em não a despertar enquanto se aproxima sem ruído, mal dando conta do intenso cheiro a jasmim e a limoeiros doces que as rodeiam. Mas Leonor, de olhos semicerrados, sorrindo, segue-lhe o andar ágil, agradecida com a preocupação expressa no rosto de Tirce. E sem poder conter por mais tempo a alegria de a ver, ergue-se num ímpeto e corre descalça para se lhe atirar nos braços, a procurar-lhe a seda da pele do pescoço tépido, de onde se solta um terno odor almiscarado.

– Olha que me sufocas – ralha Teresa, fingindo querer desenredar-se daquele ardente abraço, do qual, afinal, tanto sentira a falta. E quando se soltam uma da outra, comenta com uma tristeza minada:

– Nunca serei capaz de me entregar assim aos sentimentos… Enquanto tu continuas loucamente igual ao que sempre foste.

De mãos enlaçadas sentam-se ao lado uma da outra e, tal como em Chelas, falam durante longo tempo, diluindo-se as fronteiras das horas… E enquanto uma se queixa, revoltada, a outra escuta. Argumentando Teresa, quando pode, com a prudência e rigidez que julga necessárias para levar alguma calma ao alvoroçado coração da amiga; e com voz compassada e tranquila invoca razões, acende lembranças de conseguidas vitórias mínimas, mas a estribar nisso a esperança de que Leonor tanto necessita para operar a mudança que exige para a sua vida.

E antes de ir embora, acha por bem alertá-la:

– Cuida-te, amada Lília, das afirmações feitas na maior ansiedade, pensa nas frases que vais dizer, evita as palavras equívocas, e alerta o conde de Oeynhausen para a possibilidade de as cartas que escreve serem abertas por ordem do ministro Martinho de Mello, «cujo carácter é mil vezes mais tremendo que o da sorte». Lembra-te, minha querida, que para tudo na vida é preciso singeleza e presença de espírito. Foge do excesso, foge do desconcerto.

Depois de Tirse ter partido, cai Leonor de novo numa tristeza profunda, solidão a oprimir-lhe o coração em sobressalto no peito dorido. Mas de tudo o que durante a tarde fora dito pelas duas guarda a última advertência de Teresa, assomando à pequena janela do carro:

– Foge do excesso Leonor, foge do desconcerto!

Conselho que sabe não ser capaz de cumprir, por enfermar de pouca sensatez à luz da sua ardência. Enquanto Teresa se resguarda na sombra dos dias,

ela arde sem temer as cinzas.

†

Quando Leonor vai à Corte

o arcebispo de Tessalónica, confessor da Rainha, fica a olhá-la de longe com curiosidade. Gosta de ouvi-la recitar poesia, mas desconcerta-o e irrita-o sempre que a escuta discutir filosofia e a vê tomar posições políticas ao lado dos Príncipes do Brasil. Sem esconder nenhum deles, sobranceiros, quanto veneram Voltaire e se tomam por discípulos de Rousseau.

Quando há serenins ou concertos e poesia no Paço, o arcebispo, com o seu hábito branco de carmelita, prefere ficar sempre por perto das damas de D. Maria, especialmente das açafatas e das camareiras, umas estouvadas a darem-lhe alegria e as outras mais sensatas como lhe parece ser conveniente.

Nesse dia olha com especial atenção primeiro para a linda condessa de Lumiares e em seguida para a condessa de Pombeiro, com quem conversa, deixando-o uma e outra bem mais tranquilo do que a simples presença de D. Leonor de Almeida, que não raras vezes toma atitudes inadequadas para quem usa o seu nome; como quando comparecera, a tentar passar despercebida, à abjuração e baptismo do conde de Oeynhausen,

que a tal se expusera na tentativa de a merecer.

Procurara-a então para lhe mostrar a inconveniência da sua presença, mas ela fitara-o irónica e respondera-lhe em latim.

Demasiado culta para uma mulher.

†

É Teresa de Mello Breyner, chegada na véspera do Vimieiro e que nessa noite vai à assembleia de Leonor, quem conta à amiga mal a vê:

– Encontrei Filinto Elísio à tua porta, mas não o querem deixar entrar!

Sentada junto do noivo, Maria fica lívida, e ao ver a irmã sair quase a correr para fora da sala ainda estende a mão trémula, não sabe se para a apressar se para a impedir

de ir tão depressa…

«Uma rola», pensa com satisfação o conde da Ribeira Grande olhando-lhe de soslaio a aflição muda, conhecedor sigiloso da paixão recolhida que a noiva guarda pelo poeta-padre. Não se importa, ele está por um fio nas mãos da Inquisição e, quanto a ela, sabe o que tem de fazer depois de casados.

Teresa, já arrependida de ter mencionado a presença de Filinto à amiga, aproxima-se contrita para cumprimentar D. Leonor de Lorena, sentada no seu cadeirão de palha entrançada a falar com o marido. É então que Leonor regressa trazendo consigo Francisco Manuel do Nascimento. E estranhando o súbito abrandar do tom das vozes à sua volta, o marquês de Alorna volta-se e, ao deparar com o poeta, endireita-se num ápice e afasta-se, contendo a custo a ira desabrida. Proibira a entrada daquele homem, a quem não quer em sua casa.

Enfrentando o pai, diante de quem passa sem vacilar, Leonor conduz Filinto até onde a mãe se encontra, a qual, embora assustada, o cumprimenta com a delicadeza a que o acostumara em Chelas. E sendo essa atitude da dona da casa interpretada como sinal de bom acolhimento, Filinto vê-se rodeado com entusiasmo sobretudo pelos outros poetas presentes na assembleia.

No entanto o seu olhar inquieto busca entre todos a figura delicada de Dafne,

para ele perdida.

†

Pela frincha da porta que leva à salinha onde se refugiara, Maria pode vê-lo agitado a procurá-la com os olhos. Sem conseguir respirar, ela sobe a mão delgada ao peito tentando acalmar o coração aflito.

Mais do que por si mesma, teme por Filinto.

Consta ter sido o marquês de Alorna seu Pai a denunciá-lo à Inquisição. Não quer acreditar nessa cruel possibilidade, mas sabe-o capaz disso.

E Maria treme de frieza, do gelo onde a mergulharam.

Forçada.

Presa da consciência da própria fraqueza.

Quisera ter coragem para chegar de rompante onde Francisco Manuel está e lançar-se-lhe nos braços, quebrada de saudades mas radiosa de amor confessado à vista de todos:

«Ó meu amado bem-amado, quanta paixão e fogo desperdiçado, impedida que estou de seguir o caminho da esperança, amaldiçoada por esta paixão fatal num mundo feroz que nos afasta!

Ó meu amado bem-amado, minha água desatada de foz e de fonte, eu peno de sede neste infindável deserto de viver sem ti, ferida e cravejada de setas, de espinhos e sangues.

Ó meu amado bem-amado, sacrificada sou, sem dó nem piedade alguma, fenda onde me aninho neste amor de fissura cerzida pelos diamantes das lágrimas. Onde esconderam o meu júbilo?

Perdida estou sem ti, meu único.»

Apoiada ao umbral da porta entreaberta, aturdida, Maria continua a seguir cada um dos movimentos de Francisco Manuel do Nascimento, e quando vê D. João dirigir-se-lhe, tomá-lo por um braço e afastarem-se,

resvala para o chão desmaiada.

†

Além de Maria, ninguém mais viu o marquês de Alorna aproximar-se com discrição de Filinto Elísio e levá-lo até ao seu escritório. Trancada a porta, ficam lá dentro durante o resto da noite, numa discussão acalorada que jamais algum dos dois revelará. Embora o poeta venha mais tarde a descrever num poema D. João de Almeida como sendo um dos seus algozes,

aquele que o denunciara à Inquisição:

o Naire, como passa a designá-lo a partir dessa noite.

Maldito o Bonzo, e mais maldito o Naire

Que calunioso urdiu o meu desterro;