As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 112 de 289

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As Luzes de Leonor

Caderno

Experimentara

em vão esquecer o brilho afiado da lâmina da espada, não se sentir

perdido, despido sem ela na sua ilharga de militar aventureiro; semeando em si a tristeza ao abandoná-la, ao trocá-la pela aridez, dependente e vicioso dela.

Desejara

dominar a vertigem, voltar à queda no prazer do corpo de Leonor,

deleitando-se com o jardim das suas coxas, os lírios e as túlipas das suas longuíssimas pernas, ventre de açucenas brancas, embora jamais alcance a salvação da sua essência.

Renunciara

à carreira começada cedo no exército prussiano, interrompida por

desvios da honra que desejaria afogar no oceano da memória; retomara-a em Portugal, para a largar ao querer ir mais longe na Europa, sendo Leonor o seu fulgor de diamante.

Pronunciara

com cuidado o seu nome, ofuscado pelo halo, a aura à sua volta,

enquanto a si mesmo se entende melhor na penumbra do que, como agora, enquanto embaixador de um país onde não nasceu e que mal conhece,

a soçobrar na obscuridade dos dias.

 

†

CADERNO

 

Abro, curiosa, o livro de Christine Pizan O Espelho de Cristina, edição portuguesa do século XVI, mas logo presa do seu enredo folheio-o, ora entusiasmando-me, ora revoltando-me, impressionada com a sabedoria e a habilidade dos seus conselhos não apenas pedagógicos, pois contido neles há um mais vasto voo, onde reconheço o meu.

No seu direito e reverso.

Numa permanente ideia de ambição, eternidade e glória, desde sempre interditas às mulheres, a querem-nos empurrar para o aceite da mediocridade, a desejarem levar-nos a acreditar que vale mais o pouco almejado do que a contenda pelo todo, pelo tudo.

Indagando, como exemplo deste falso dilema:

«Que farás tu, pois? Continuarás assim, querendo ser condenada?»

Pergunto-me o que é ser condenada. Quanto a mim sair das trevas é tomar o caminho das Luzes, que tanto devem alumiar homens quanto mulheres. Eu, que não anseio pela presença dos anjos,

desejo para mim a companhia dos sábios.

Viena, 24 de Janeiro de 1781

†

Sendo acima de tudo um militar, Carlos Augusto aceitara o posto de embaixador em Viena com a morte na alma, mas apesar de tudo esperançado em conseguir singrar por caminhos mais calmos do que aqueles que conhecera na sua vida acidentada.

Julgando ser simples a nova missão, pensa erradamente que não lhe será difícil cumprir com esmero a tarefa oficialmente aceite diante da Rainha de Portugal.

Mas enganando-se, ao não levar em conta:

o próprio desconhecimento das regras diplomáticas; a sabedoria da temperança; as dificuldades que sempre se levantam quando se trata de negociar casamentos reais; a aprendizagem do uso da hipocrisia e da falsidade; o abalo inevitável que trazem as intrigas; os perigos da inveja; a estridência da ingratidão; o negrume subido da maldade, da ganância e da sede de poder dos outros;

a importância das ciladas cruéis armadas pelo destino.

†

Amada da minha vida

«Tu queres receber em todos os correios cartas minhas; mas, querida amiga, porque me não julgas igualmente faminta das tuas? Há três semanas que não recebo uma regra de Viena, e isto desarranja bem a correspondência, e desacomoda ainda mais o coração de uma amiga do meu lote. O estado em que te achas é um motivo de cuidado para mim, e enquanto não passa o tempo crítico, sempre estou inquieta.

Não me escrevas com a tua letra porque isso te será muito penoso; mas quem quer que seja, diga-me em duas palavras como estás, e tanto me basta, enquanto mais não pode ser. Eu, minha alma, passo o mais cruelmente que se pode imaginar, não estando sujeita a viver como doente; mas a força da hiponcondria tem-me reduzida a um triste estado: contudo esforço-me quanto posso, e devo sempre algum benefício ao exercício a cavalo, posto que não podendo este ser quotidiano, não deixa de ser uma melhoria persistente, e agora que te escrevo, e acabo de o fazer a Madame Thun, estou com muita dor de cabeça.»

Já pedi a Maria Wilhelmine que me avise quando a tua hora chegar, e será boa, estou certa disso, minha pérola. Mesmo assim imploro que te cuides durante os próximos meses; a tua fertilidade quase me assusta, perdida que me sinto diante da minha esterilidade. Até Maria está pronta a dar à luz, para alegria de todos por aqui. A tua Leonor Benedita encontra-se cada vez mais agradável e delicada, de carácter vivo e prestimoso.

«Quando me escreveres faz menção da data a que me respondes, porque fico às vezes tão desorientada, que não sei do que tu falas.»

Sou a tua ardente

e fiel amiga

Teresa

Lisboa, 10 de Maio de 1781