As Luzes de Leonor
Diário
Rondo muito perto a tua nudez de pérola.
De pérgola.
Sei das tuas longas pernas mal domadas pelo cetim e os tafetás dos fatos, dos shantungs das saias, dos saiotes de algodão da Índia; braços erguidos em enovelamento ao tirares pela cabeça a pequena camisa transparente de cambraia de alva acesa.
Anca leve, pescoço branco e alto, colo de cisne e pulsos incipientes de menina onde rolam pulseiras estreladas de diamantes, num levíssimo ruído de sino arrepiado.
Tu, roseira eriçada de espinhos.
Tu, surpreendente de audácias.
Tu, de súbito friorenta,
num jeito crispado fechas mais a capinha de arminho sobre os seios a despontarem no decote fundo. E vais andando, a escutares do vestido de seda a cauda que se enriça.
A reclinares mais longe a meiguice letal do teu feitiço.
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DIÁRIO
«As circunstâncias em que me achava então com meu Pai não deixavam de me dar cuidado; porque, como me tinham feito assinar uma escritura, e ao Conde também, de que eu nunca sairia de Portugal, necessitava de uma nova ordem da Rainha para poder acompanhar meu marido. Depois de beijar a mão à Rainha, foi o Conde conferir com o Arcebispo, que o tratou às mil maravilhas e logo lhe disse que era preciso tirar uma Princesa de Portugal do paradeiro em que elas estavam; que ele não tinha ordem nenhuma da Rainha para lhe falar naquela matéria, mas que estava certo que, observada toda a decência e delicadeza neste ponto, a Rainha estimaria ver a senhora Infanta D. Mariana Vitória casada com o Imperador. O Conde respondeu-lhe que desejava encher todas as obrigações do seu emprego com a maior habilidade possível e que ficava muito lisonjeado com a simples ideia de uma incumbência tão lisonjeira; mas que a mesma importância da matéria exigia a maior circunspecção, e por isso lembrava a Sua Excelência que, para que não o julgassem intruso ou o vissem a arguir de precipitado, seria bom que, pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, mandassem pôr aquele ponto nas instruções por escrito que ele devia receber. Pareceu isto muito bem ao Arcebispo, louvou a sua prudência e sagacidade e continuou dizendo que esse serviço lhe daria a ele, Arcebispo, ocasião de fazer valer a sua amizade e ao Conde a de consolidar a sua fortuna; que esta ausência, sendo cheia por um serviçal tal, aplacaria as intrigas e emulação dos Angejas e a antipatia do Visconde, e lhe daria a ele tempo para vencer objecções que tinha feito o marquês de Angeja ao estabelecimento da caixa militar, sem a qual era impossível a execução do plano feito pelo Conde, e que ele esperava que, depois de estar alguns anos em Viena, pudesse vir executar, sendo chamado para se pôr à testa das cousas militares, que era o que se precisava; que, por agora, o melhor era partir, para extinguir a parcialidade do Visconde, motivada pelos alaridos dos meus parentes, e que eles calariam a boca, quando o Conde estivesse no lugar que lhe competia..»
Salvaterra de Magos, 1780
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Será possível, senhora minha Mãe, que para vencer a teimosia e o ressentimento do senhor meu Pai não chegue a razão dos meus argumentos, baseados no amor pelo conde de Oeynhausen meu marido?
Como poderei deixá-lo partir sem eu mesma ir partindo? Desejando-me a seu lado mais pela alegria de finalmente sair de Portugal, do que pelo dever conjugal de segui-lo, o que não escondo.
A impor-vos de novo a minha vontade.
E não será isso, afinal, o que mais vos desagrada na minha partida, sentida como uma nova desobediência filial? Fazendo braço-de-ferro comigo, não quer meu Pai desobrigar-me de cumprir a cláusula do meu contrato de casamento que vincula o Conde a não me levar para fora do nosso país.
Achais isto justo?
Tantos são da parte de meus pais os rigores do preconceito e do maior despotismo, que preferem concorrer para a minha desgraça a abrirem mão de direitos obsoletos. Assim sendo, conversei com o Conde meu marido, que não desejando viver separado da minha pessoa tanto quanto eu da vida dele, se dispôs a pedir à Rainha para dispensar o termo do contrato que me impede de abandonar Portugal.
Por meu lado estou disposta a aceitar, com o coração despedaçado, a condição que Vossa Excelência me propõe: entregar-vos a minha filha Leonor Benedita como uma espécie de garantia do meu regresso, em troca de eu poder seguir viagem.
Duro e intransigente espírito é o da senhora minha Mãe, tão perto da intolerância quanto da doce passividade. Como podeis guardar no brando coração tanta dureza a meu respeito, quando ainda menina vos tratei na doença e acompanhei nas difíceis horas de clausura e desgraça? Não me poupando sequer agora à atadura dos laços dos vossos suspiros e aos nós dos vossos lamentos, com os quais minha Mãe pretende prender-me à sua saia.
Pergunto-me se saberei alguma vez combater com eficácia armas tão fortes como as vossas lágrimas. Apesar de tudo rogo-vos que intercedeis por mim junto de meu Pai, pois desse modo estareis abrindo-me os caminhos da alegria e da ventura.
Estou a deixar Almeirim de regresso a Salvaterra onde ficou o Conde, consciente de quanto vou envenenar-lhe estes instantes de merecida satisfação com a notícia da nociva atitude da minha família.