As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 22 de 289

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As Luzes de Leonor

1769-1772

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A princesa do Brasil, D. Maria, arde de curiosidade por conhecer Leonor de Almeida, de quem a grande fama chega do convento de São Félix, onde se encontra enclausurada, até ao Paço, onde continua a ser proibido pronunciar o apelido Távora. No entanto, a curiosidade é mais forte perante o eco da sua arguta inteligência e grande beleza, aliada a uma sabedoria infelizmente escassa entre os fidalgos e fidalgas portugueses, cuja maioria mal sabe ler.

Ciente de tudo isto, D. Maria apercebe-se da inquietação do Rei seu Pai, mas sobretudo da irritação crescente do secretário de Estado, de quem ela mesma teme o olhar cruel. Ele que agora mantém constantes conciliábulos com o arcebispo de Lacedemónia, a quem fora atribuído o difícil papel de carcereiro-mor das filhas dos marqueses de Alorna.

«São damas rebeldes – desculpava-se o arcebispo –, sendo a mais velha a pior delas, sempre a inventar atrevimentos destemidos, pondo esmero e acinte na provocação descarada…»

A princesa só de escutar isto já simpatiza com ela, mas apesar de culpabilizar Sebastião José de Carvalho e Melo pela injusta situação daquela descendente dos Távora, passa a pegar mal no sono quando se deita, nas noites em que à sua volta mais se debatia e discutia acerca dos outeiros de Chelas, onde Leonor de Almeida surge sempre como a maior estrela que nesse firmamento brilha.

Por vezes tem pesadelos, que esquece ao acordar.

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Ao fim da tarde procura por vezes a evasão que lhe proporciona a música, sentada ao órgão, no centro do desmesurado coro do convento de Chelas.

Através da música que interpreta enquanto organista do mosteiro, Leonor ganha o voo da liberdade, tão embriagada com Bach que o coração pelo seu meio parece estilhaçar-se, cedendo ao crepúsculo o seu sangue de rubi, numa espécie de vertigem, a fazê-la vacilar, oirada, sem nunca conseguir matar a própria sede.

Sobeja-lhe, no entanto, a ambição de partir.

Chegar à extremada dimensão da longitude.

Tocar a distância.

Para trás ficam as tristezas reprimidas, os desejos recalcados, os anseios suprimidos, as revoltas desalmadas. Memórias que arrastam consigo a assustadora ameaça da tirania, assim como as ambiguidades e dúvidas, a constante sofreguidão a convulsioná-la, a marcá-la.

A precipitar tudo o que parece recusar.

Negando-se ao precipício das emoções e dos sentimentos, quase sempre opostos ao princípio do rigor e da razão a que deseja submeter-se por gosto.

E pelo qual pretende ser regida.

Contrariando-se assim na própria origem.

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Margarida Telles, condessa de Redondo, vê-a crescer à sua beira, sempre tão diversa desde menina que não se admira quando, rapariguinha ainda, começa a estudar filosofia, matemática e física, ao mesmo tempo que aprende línguas, música, escreve versos, faz récitas, canta e declama poesia; nem se espanta do seu brilho encantatório quando mulher já feita.

Também ela fora para o convento de Chelas como pensionista, a querer contrariar em si uma paixão maldita. O relato a Leonor dessa sua história sombria, criara entre ambas uma ligação duradoura, feita de leituras, longas conversas e confissões mútuas, gostando Margarida da sua rebeldia, inteligência e talento que em si própria escasseiam. Mas o estar prisioneira naquele casarão sombrio faz faltar o ar à filha dos marqueses de Alorna, que apenas na cerca consegue mitigar um pouco a sua falta de liberdade, num arremedo de vida para quem é forçada a habitar o mosteiro.