As Luzes de Leonor
Maria Regina
Touca macia a cobrir-lhe os finos caracóis ruivos, folhinho descido até à testa de boneca de porcelana que, com um gesto de indiferença, os outros se atreviam a pôr de lado.
Maria Regina adormecia onde a largavam:
equilibrada nos joelhos, agasalhada no colo, embalada nos braços cansados ou no berço de madeira entalhada e com dourados até ao espigão alto onde se prende o tule, ondeando até ao soalho. Laço que ela própria dava, a arrematar a colcha de renda de bilros.
Assustada com a apatia,
com a doçura doentia da sua segunda filha, e tentando reagir aos medos que a acometiam, à inquietação que ela lhe dava e às insónias que a tomavam até à alva, prisioneira de uma melancolia infindável que a afundava numa angústia sem sentido, Leonor, recusando-se de novo a guardar resguardo,
depressa começou a sair de casa.
Como quem foge.
†
MARIA REGINA
Descobre-lhe o olhar assombrado e o sorriso fugaz que antes de nascer apenas adivinhara; reconhecendo-lhe a voz de veludo agora calada, e o toque da mão com a qual, distraída, ela a afagava ao de leve do outro lado, em difusas tardes de bruma. A cada minuto que passa a memória esvai-se-lhe, e pouco a pouco mergulha, sonolenta, num espaço alvacento onde coisa alguma existe, senão o começo de tudo pelo avesso do nada.
Respira com dificuldade:
o ar é áspero, duro e laminado, sente na língua a maciez translúcida da Mãe, tal como há pouco tomara o gosto ao carmim de que era feita a atmosfera.
Esvai-se-lhe suavemente o coração tremeluzindo no peito liso, como um pirilampo mínimo em noite de lua cheia; sangue desmaiado que não a alimenta, limitando-se com custo a mantê-la viva e enovelada, embrulhada no xaile de lã branca traçado à sua volta, e assim enfaixada posta no aconchego curvo da axila que a Mãe tem morna com odor a jasmim, toma do seu corpo o calor necessário; corpo de que ainda lembra todos os recantos, ruídos e sobressaltos.
Vê-a inquieta debruçada sobre a sua boca de menina alada, tentando aperceber-se do sopro imperceptível, ligeiríssimo zunido de abelha por entre os lábios finos mal entreabertos. «Filha…» – ouve-a murmurar, sem saber o que isso quer dizer. Esquecida do significado do pouco que aprendera ao longo dos meses, enquanto crescia dentro dela; e mesmo esse lugar tépido vai olvidando, na perda do seu conhecimento.
Um calafrio fá-la estremecer, como se fosse uma pétala tocada pela aragem, e logo o braço dela a envolve melhor, subindo-a aos seios túmidos de leite, e ao inclinar-se para a frente dá-lhe a ver o rosto aflito, enquanto sussurra ao seu ouvido: «Coitadinha…» – e à roda das duas fecha-se a aura do arco-íris lá fora restolhando, arrastando consigo as folhas, os caules, as raízes secas pelo estio, como se já anunciasse o outono.
Mesmo da gravilha a soltar-se da terra a menina dá conta.
Ela é quem escuta melhor lá em casa, habituada que está a aperceber-se dos grãos de pólen a soltarem-se dos ovários da Mãe, que lhe examina com ansiedade minuciosa os olhos azul-da-china, os dedos e os pulsos melindrosos, os tornozelos quebradiços, a delicada concha rosada dos ouvidos.
Na mesa-de-cabeceira brilha fixamente a pedra do seu nascimento, com o fito de convocar a felicidade, afastando as ameaças imediatas, substituindo pela luz a penumbra do quarto através da qual, pelas estreitas fendas entreabertas das pálpebras de seda transparente, a menina descobre no ar a poalha dourada e suspensa movendo-se ao de leve.
Embora esgarçando-se já, recém-nascida, dá conta dos intensos cheiros do parto numa mistura de sangues, zimbro e amoníaco, de verdete e suores; mucos e líquidos onde ela nadara durante nove meses de felicidade plena, de que começa a sentir a falta.
As longas pestanas sombreiam-lhe as faces descoradas, a aumentarem-lhe o sulco das olheiras. Descoroçoadas, as parteiras, as aias e a nova ama cochicham entre si na habitação ao lado, deitam contas às horas que a menina poderá durar, vingando na impossibilidade, com a graça do Santíssimo. Rezam e acendem lamparinas e velas votivas diante das santas do oratório da larga câmara que dá para o quarto.
«Um anjinho!» – dizem em surdina, supersticiosas, a benzerem-se, a fazerem promessas e figas, desfiando litanias assim como os terços que trazem nas algibeiras dos aventais ou pendurados na cintura; costurando e salgando em torno as fissuras que trazem de volta os espíritos malignos, fazendo estranhos sinais enquanto queimam incenso e salva, espargindo água benta.
Maria Regina, embalada pela tranquilizante presença da mãe exausta, descansa esvaída e miudinha.
Perigosamente a apagar-se no sono leve.
†
Preferia um filho varão
no entanto evitei mostrar o meu pensamento, calei a decepção, os sentimentos de contrariedade, quando as vi deitadas entre panos e lençóis ensanguentados, dobadas uma na outra na cama do parto, demasiado grande mesmo sendo duas: Leonor, esquálida e lívida, apertando ao corpo a filha recém-nascida que parecia morta, a desaparecer na curva do seu braço; sem nenhuma cor no rosto de boneca francesa de olhos fechados.
Preferia um descendente
grande e forte, mas consegui sorrir quando a ama e a parteira me puseram no colo a minha filha miudinha que imaginei desfalecida, tão branca como a neve e como ela, fria; engelhada e encolhida no agasalho de mantas, xailes e envoltas de lã, unhas como amêndoas pequenas e lustrosas contrastando com as mãozinhas roxas, apertadas e erguidas à boca, como se já nem sequer lutasse por respirar.
Preferia um rapaz
em vez de outra rapariga, mas calei a desilusão sentida e fui agradecer a Leonor, ainda exaurida do dificultoso trabalho de parir, ter posto no mundo aquela criança sem choro, apenas suspiro como indício de vida, mal mostrando o seu alento, dolente e esquecida, perdida debaixo dos lençóis, da colcha, das cobertas, gemido quase inaudível a escapar-lhe por entre as linhas esboçadas dos lábios secos e pálidos.
Preferia um sucessor
a quem passasse meu nome e brazão, e nunca esta criança de cera mais fazendo lembrar um ex-voto; cabelos quebradiços e fininhos como fios de seda, que Leonor se recusa a cobrir com as toucas de lã debruadas a cetim, para não lhe magoar a pele delicada e translúcida de ruiva; sem a aprisionarem com faixas, com folhos, com fitas e rendas. Eu tê-la-ia enfaixado e não liberto, aquecida com o leite da ama e o calor do corpo materno.
Preferia um herdeiro
que seguisse meus princípios, sangues e apelidos estrangeiros, com virilidade, oposto e avesso da menina como lua minguada que nos coube, débil e vaga e espiga, com palidez de lírio, de fio; mais sopro do que vida, criança de cristal de rocha, ou ninfa ou fada na fiada maneira de sumir-se a si própria; adivinhando-lhe eu as asas translúcidas sob as camisinhas, rumorejando; a esvair-se já, com o seu olhar de pervinca.
†
Atenta, Maria Wilhelmine inclina-se sobre elas, a procurar-lhes as semelhanças,
mais nítidas do que as diferenças,
a despertarem nela a comoção e o carinho, que no entanto logo se dissolve, carícia suspensa nos dedos subitamente inertes perto do cabelo frisado de ambas, testas altas perladas de suor.
Mal se curvara, porém, e logo evita os seus equívocos odores desprendidos: a branco e a carmim, a fluidos e a plasma, a líquenes e a placenta, subindo das humidades femininas das suas axilas e das suas virilhas, dos seus hálitos, nucas e baixos ventres. Odores de saliva e salva, de lágrimas e leite do corpo,
refluindo.
Aroma de malva, de musgo e de raízes, de filtros e marés retardadas, na finura das artérias e das veias,
de sereias dolentes.
†
Depois de te haver nascido mais uma menina,
foi a vez de Maria pôr no mundo outra minha neta; tal como a tua segunda filha, tão miúda, fraca e franzina que temi o pior ao vê-la, como morta, sem nenhum sopro de vida na boquinha entreaberta, enquanto a tua irmã desfalecia nos lençóis ensopados do sangue perdido num parir difícil e demorado.
Tu, Leonor, és o futuro, mas a pobre da tua irmã é o passado: enquanto te revoltas com o destino quando este se te apresenta cruel e adverso, e o refazes a teu modo e à tua medida, ela vai de manso cumprindo e acatando a infelicidade, a aceitar a desgraça que à sua beira desponta – flor funesta que colhe com os dedos pálidos.
Pudesse eu voltar atrás e talvez soubesse encontrar em mim forças suficientes para impedir o seu infausto casamento, fruto da cegueira teimosia do senhor vosso Pai e meu marido. Mata-me vê-la tal como a encontro agora, infeliz e perdida, tendo como única alegria a memória dos seus delírios, das suas visões aladas de anjos, que num tempo próximo acabarão por levá-la. Melhor será eu não acrescentar mais nada, Leonor, ao que agora te digo, pois existem coisas que não devem ser abordadas.
Há que selar em nós o que houver para selar, como nos obriga o decoro e a honra desde sempre caros à nossa família. Maneira de nos exigirem o aceite do desamparo e de uma eterna solidão, mesmo se vertendo lágrimas amargas em noites intermináveis e esconsas, prontas para observar as ordens de quem nos comanda e nos impõe a sorte – lei do sacrifício cumprido pelas mulheres virtuosas.
Estou, filha, a falar de intimidades, de inquietações, de penumbras e de desassossegos, de desacertos, e por isso te digo Leonor: as mulheres têm de saber afastar de si os sentimentos verdadeiros, têm de aprender a calar o fogo dos desejos, têm o dever de ocultar os crimes executados no seu corpo.
Segredos escondidos no interior das casas, dos confessionários, dos quartos onde são usadas e dormem, onde mais tarde dão à luz e onde morrem em paz ou finalmente libertas.
Resolvi abrir-me contigo, filha, sobre este sigiloso e doloroso romance, temendo que de Lisboa te chegue eco e conhecimento dele a partir das intrigas da Corte, ou de alguém que tente tornar pior o que já é tão nefasto. Quero, Leonor, no entanto, saber-te afastada desta história de cobardia e maldade. Nela abunda o medo, o destempero e a cólera. Não aumentes ainda mais a vergonha da tua irmã referindo-lhe o que por mim já sabes. Espero não me vir a arrepender de ter-te feito confidências, mãos entrelaçadas contigo através da distância.
Toma pois estas linhas como meio de te participar a notícia do nascimento da tua sobrinha, a quem Maria fez questão de pôr o teu nome. Pouco a pouco vai a menina medrando, prazeirosa e linda, do Pai herdando só o nome.
Tu medita bem no que te digo: nunca se deve pretender mudar, transformar ou sequer remediar seja o que for na existência dos outros. Até porque existe apenas um possível caminho na vida das mulheres – o da conformação e aceite da pesada cruz que sempre teremos de arrastar até ao fim dos nossos dias.
Recebe a bênção da tua mãe
que muito te ama
Leonor de Lorena
Lisboa, 4 de Setembro de 1781
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