As Luzes de Leonor
Monólogo da Infanta
Com a longa mão muito branca, punho de renda subindo a desvendar o pulso fino, acaba por empurrar a custo a pesada porta encostada à sua frente.
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MONÓLOGO DA INFANTA
Encolho-me, agacho-me atrás de um dos cortinados abertos, a descobrir as janelas escancaradas para o grande terraço onde estão sobre as balaustradas os vasos de pedra com miosótis e amores-perfeitos. Balcão onde teria gostado de correr se não me cansasse tanto, obrigada a ficar deitada, encostada nas almofadas de seda lavrada ou de renda de agulha, travesseiros de linho puro e bainha aberta de cada lado da fronha, como me ensinou D. Apolónia Pacheco de Sousa, dona da Câmara da Senhora minha Mãe a Rainha D. Maria.
Jamais descurando a saúde dos filhos, vem todas as noites passar-me os dedos compridos e frios pela testa temendo a temperatura alta, a puxar para cima a dobra bordada do lençol, enquanto pergunta às amas, voz presa não sei por que pedra na cisterna do peito: «A Princesa D. Maria Isabel tossiu muito hoje?» E eu, para não a afligir, tento não tremer debaixo das mantas, sem me queixar da farpa de gelo cravada nas minhas costas, a contrariar o verão em que estamos.
Mas logo me faltam as forças e fecho os olhos, deste modo permitindo que o mal saia da sua torpitude e cruelmente monte, trepe e rasteje no meu corpo, como as lagartixas nos muros altos; usurpando todos os rubis do meu sangue, ajudando a respiração a tornar-se opressa e ruidosa, imitando o rumor da areia ou do xisto no fundo da garganta; camisa de dormir encharcada de um suor ruim, como comentam baixo as aias umas com as outras trocando olhares de viés cheios dum inexplicável rancor aleivoso, que me dá medo: «A infantazinha esvai-se, a infantazinha esfia-se por conta do mal feito dos outros, a infantazinha morre pela mão da culpa alheia, a infantazinha fica-se no cumprir do castigo de outrem.» – «Arama! Arama!», ouço-as repetir, perscrutando as sombras que as trémulas chamas das velas fazem mover ao longo das paredes, enquanto eu ardo.
Febrões que me tomam, me empurram, me atiram para dentro das chamas altas onde queimo, fazendo-me esbracejar por entre visões de espanto e aflição, a gritar de pavor estrebuchando na cama revolvida e húmida. A fugir de diabos, de bruxas e dragões, de figuras translúcidas debruçadas no meu sono, fazendo volutear com o seu hálito as cortinas de tule do dossel do leito. E eu choro e grito, escorrego para o chão, caio e levanto-me na vertigem, indo embater na mesa onde se alinham os xaropes de frutos e raízes, os bálsamos com sabor a casca de árvore, os unguentos de ervas, os frascos de tintura de eucalipto.
Tropeço nas cadeiras de braços, nas banquetas de veludo espalhadas pelo quarto apenas alumiado pelos finos pavios das lamparinas bruxuleantes postas diante dos santos do oratório. Tossindo, tento que me acudam numa aflição de susto e pasmo, recusando-me a sufocar de ranho e cuspo e lágrimas, até que por fim me voltam a deitar na cama desfeita, onde me seguram até chegar o físico para dar-me o remédio que sempre me acalma e faz dormir, mergulhando exausta num mórbido descanso de desassossego.
Ao fim da tarde, antes de a febre começar a subir de novo, se consigo escapar à vigilância das amas cabeceando de sono, ou à das aias entre si arrufando de riso, à das camareiras fidalgas perdidas nos seus pensamentos, deslizo pelos corredores, asinha, desço as escadas apoiada aos corrimãos de bronze ou de madeira de lustro, escapo descalça pelas esquinas e umbrais das salas tentando evitar a tanta luz das tochas, das velas dos candelabros, das palmatórias e dos lustres de Veneza e venho esconder-me quieta e muda, acocorando-me enroscada na penumbra dos cortinados de damasco dos salões onde julgo perceber maior animação e ruído. A agasalhar a doença que me esburaca a lisura do peito magro, na tentativa de abafar com afinco a tosse com a mordaça do xaile de caxemira onde me envolvo. E quando me descobrem soluço de desconsolo, inconformada com a ideia de perder todo aquele brilho e tumulto feito de vozes, de riso, de música, de sussurros, furta-cores das jóias cintilantes, a substituir o desabrigo dos olhares ou dos sorrisos de malícia tapados pelos leques voláteis.
Queixo-me sobretudo quando me impedem de escutar, como acontece agora, os poemas que D. Leonor de Almeida, hoje vestida de seda escarlate, recita afoita, modulando e fazendo crescer a voz um pouco rouca, refrigério a atenuar-me o temor e o desagrado. Mas há sempre alguém que acaba por me pegar e me levar ao colo, por entre um surdo murmúrio de palavras hesitantes, relutantes, como se aqueles que me rodeiam tanto temessem calar-se como chamar sobre si a atenção da Senhora minha Mãe e Soberana.
Em silêncio fita-me ela sem nenhuma expressão no rosto severo, mas quando mais tarde vai aos meus aposentos apenas me ralha em termos brandos: «Minha angelada, indo já nos onze anos de idade, não pode comportar-se a minha filha com tamanho estouvamento e alarde dos sentimentos tristes. Não te deves esquecer, Maria Isabel, de que és uma Princesa de Portugal!»
E apesar de arrependida por haver de novo desobedecido aos médicos e me ter comportado como uma inconformada criança impedida de o ser, pouco a escuto, revolvida na habitual aflição, a tentar desfazer o novelo de tosse, de muco e vómito que reprimo, limpo e tapo ao mesmo tempo com um lenço logo escondido debaixo da travesseira, de onde só volto a tirá-lo ao ficar sozinha,