As Luzes de Leonor
Caderno
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«Um objecto porém extraordinário e para mim incompreensível é Filinto, cuja imaginação lhe faz dar os passos mais inconsequentes sem que lhe baste todo o conhecimento que tem do meu carácter, certamente incapaz de ver em um desgraçado um diverso homem do que considerava e estimava na fortuna. Vendo que não vinha falar-me lhe escrevi, respondeu-me depois de muitos dias que o ódio e a vingança lhe tinham impedido esta diligência, mas que a amizade e o reconhecimento o instavam a pedir-me que decifrasse o meu misterioso escrito para deliberar-se.
Eu conheço este estilo que parte de uma imaginação singular, mas o Conde não, e eu mesma não sei, por mais voltas que dê ao juízo, o que quer dizer ódio e vingança. Não me alterei e respondi polidamente, mas fiz uma parvoíce, porque ele não deu mais sinal de si; ainda me resta mais alguma diligência que fazer. Para satisfazer o meu próprio ânimo, que gosta de fazer bem, e se ele me não falar, aqui o deixo recomendado a várias pessoas importantes, no caso que tenha alguma precisão de socorro.»
Da carta escrita a Maria, Leonor copia ainda mais este trecho:
«Ser-me-ia agradável conservar a estimação das pessoas de juízo a quem a mereci algum dia, mas ainda mais agradável aumentar os motivos desta estimação, sendo qual devo ser.»
A caminho de Metz, 29 de Julho de 1780
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Vai de manhã ouvir missa à igreja de St. Pierre-aux-Nonnains. Em seguida deixa Carlos Augusto a resolver problemas da próxima etapa da viagem, e passeia sozinha por Metz, abandonando para trás a carruagem.
Tenta não magoar os pés nas pedras, ou sujar de pó a bainha do vestido, tal como o cetim dos sapatos na terra esfarelada. As pessoas com quem se cruza olham-na admiradas por vê-la sozinha a deambular, envolta numa capinha leve. Ora descendo os olhos ao longo das ruas irregulares e estreitas, para logo os erguer até às casas, ora atentando nos muros altos. Tropeça nas fissuras que o tempo abriu nos degraus das escadas e nos passeios, distraída com a beleza das praças cheias de flores e de velhas árvores, onde os pássaros ao fim da tarde se refugiam.
No ar há um manso cheiro a gardénias e a fruta.
Mas à medida que caminha, vai-se instalando nela uma inquietante sensação de ser seguida por alguém: lentamente quando ela anda devagar, rapidamente quando ela se apressa, passos medindo os seus passos.
Leonor volta-se várias vezes sem nunca detectar ninguém que confirme a sua desconfiança, apesar do mal-estar que sente, algo que nem sabe explicar a si mesma.
Um vulto que se dissimula na sombra das arcadas?
Um ruído ciscado de quem atravessa a calçada?
Um murmúrio, um esvoaçar de asas, junto do seu ombro?
No entanto, quando de súbito se vira para olhar em torno tudo isso se dissolve, e onde juraria ir encontrar alguém depara-se com o vazio.
Desse modo, andando e parando, acaba por chegar cansada e apreensiva à Catedral de Santo Estevão, onde entra e se senta num dos bancos corridos de madeira escura perto do altar-mor, só então dando conta do tamanho do medo que ainda lhe aperta o peito:
pequena garra fechada em torno do coração.
O intenso odor a incenso e a velas acesas leva-a de volta a tempos ainda recentes. Começava a aquietar-se, quando escuta atrás de si o som de um andar furtivo, de quem avança pelo estreito corredor da nave central. A respiração dela acelera-se, mas o ruído pára e o silêncio do templo restaura-se, cortado apenas pelo sussurrar de uma mulher que reza ajoelhada.
Leonor pensa ainda em levantar-se para fugir, mas teme não ter força nas pernas que ainda vacilam, a tremer de susto e de frio, o corpo mal agasalhado pela capinha de fazenda fraca.
Sem saber quanto tempo terá passado desde que se refugiara naquela obscuridade afinal insegura, compõe as pregas da capa nos ombros, tentando apertá-la mais sobre os seios e, tremendo, ergue-se. Faz precipitadamente o sinal da cruz enquanto dobra o joelho diante do altar, e só então se volve para a pesada porta ao fundo da igreja, na direcção da qual se encaminha de olhos fixos nos bancos àquela hora desertos.
E ao seguir instintivamente o adejar de um voo que à sua frente se levanta, dá com ele: muito magro e todo de preto, cabelo farto, escuro e ondulado, mãos longas e quase transparentes a cobrir o rosto como se orasse. Apesar de não poder observar-lhe as feições ocultas, Leonor sabe já o ter visto antes, algures.
Em todo o lado?
Sai correndo até ao carro que a seguira de longe e a espera. Refugia-se nele em sobressalto, sentindo-se finalmente segura, e com a voz trémula manda seguir para a estalagem onde Carlos Augusto a aguarda há muito.
«Vais ver que te enganaste, que inventaste tudo isso» – sugere-lhe ele quando Leonor lhe conta a sua estranha aventura. Para logo acrescentar, ralhando:
– Que imprudência, Nelly! Que insensatez!
Partem de Metz bem cedo na manhã seguinte rumo à Alemanha, de onde o conde de Oeynhausen partira há anos fugido da prisão em que se encontrava detido por dívidas de jogo. Talvez seja esse o motivo que o leva a manter-se mais calado do que nunca, olhar encurralado,
de homem perseguido.
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