As Luzes de Leonor
Diário
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Vai pela primeira vez ao salão literário de Metastásio, aceitando com satisfação o convite especial que o poeta lhe enviara.
Cada um deles com curiosidade de conhecer o outro.
Leonor temendo decepcionar-se, Metastásio receando vir a descortinar nela a superficialidade, a futilidade, que sempre matam a poesia.
Mas ao ouvi-la recitar os próprios versos, com uma contenção e uma precisão despojada e quase fria, entusiasma-se e deleita-se com a sua inteligência e talento, maravilhado à medida que lhe vai descobrindo a invulgar cultura.
Por seu lado, ela deixa-se encantar, lisonjeada com a atenção do velho poeta, que desde sempre admirara e até defendera. A entregar-se, muito embora reconheça, ao escutar as discussões que se travam e as retrógradas posições literárias tomadas,
sentir-se deslocada.
Mesmo assim, defende com entusiasmo Goethe e Schiller, usando argumentos baseados na urgência
de uma nova e ousada literatura.
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DIÁRIO
Imaginei ir viver na Áustria somente tempos de exaltação e de diferença aventurosa, mas em vez disso confronto-me com a vulgaridade, com a banalidade a que pode levar a sujeição do corpo feminino. Demostrando até que ponto as mulheres fazem parte recôndita e inseparável da própria Natureza.
Com ela partilhando:
mucos, sucos, corrimentos, suores e sangues; luares que, como marés, nos inundam em segredo, pois cedo aprendemos a encobri-los, a tapá-los, a dissimulá-los. Embrulhando em perfumes, em culotes e panos os nossos insidiosos odores de agulha do mato, de caruma seca, de ferrugem acesa, de resina a ressumbrar na ferida aberta da casca golpeada das árvores.
E eu, que tanto julgava saber acerca de tudo isto, nada afinal entendo das lianas que, passado o êxtase, desatam o prazer do corpo das mulheres, traiçoeiramente enredando-o com a nossa própria condição feminina, transformada numa sofrida prisão uterina.
Perigos e reveses tanto maiores quanto impossíveis de evitar. Agarro-me pois à poesia, ao estudo, sem querer sucumbir ao desespero, queda após queda, parto após parto.
Viena, 20 de Maio de 1781
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A 7 de Abril de 1781,
os juízes acordam, no que diz respeito ao atentado contra o Rei D. José, terem sido culpados apenas o duque de Aveiro e seus cúmplices. Todos os outros que foram torturados e em seguida executados com grande crueldade no cadafalso em Belém, numa manhã de tempestade, estavam inocentes.
Ao ser informada desta sentença definitiva, a Rainha fica lívida e cambaleia. Recolhe-se à sua câmara onde permanece no escuro, somente consentindo que dela se aproxime D. Mariana de Arriaga, a tentar aliviar-lhe a alma e levar consolo ao seu atormentado espírito; aconselhando-a a que se distancie por uns tempos de Queluz, partindo para as Caldas ou para a Quinta Real de Caxias.
Mas será em Salvaterra que a Soberana se encontra, quando a 23 de Maio é redigida a sentença,
que ela assina,
com o espinho do desespero cravado no seu afecto de filha dedicada, sentindo que nesse acto está a condenar o Rei seu Pai e Senhor, tornando-o para todo o sempre da história de Portugal aliado activo de Pombal na morte de tantos inocentes.
Mal acaba de assinar tolda-se-lhe a vista, angústia revolvida a assolar-lhe o peito, coração estilhaçado em mil pedaços. E num movimento descontrolado, D. Maria risca a própria assinatura enquanto grita, desabrida:
«Estou condenada aos infernos!»
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Minha eterna amada
«Para que tenhas um sinal de que vivo, de que te amo, faço estas regras. Tem-se exaltado tanto a minha hipocondria, que apenas posso reger-me. Isto faz com que não possa dar-te novas; para além de que a certeza das nossas cartas serem vistas me tira a liberdade de poder conversar contigo em toda a efusão da amizade, porque quem sabe que interpretações se darão às graças que a decência nos permite? Uma vez que falta a fé pública, quem é que pode confiar-se e ter gosto de escrever?»
Leonor pára de ler e torna ao princípio, preocupada e perplexa: para que perigo estará a alertá-la a amiga? E sentindo-se culpada de ter demorado tanto a responder-lhe, relutando em aludir a estas suas angustiadas linhas, queda-se interdita sem saber como chegar até ela em perfeito resguardo da intimidade de ambas, tendo em conta, também, a insegurança aludida por Teresa, que igualmente se queixa de Portugal a propósito do seu romance acabado de escrever:
«Se devo crer no voto dos amigos, dou a Portugal uma coisa que ainda não tem, que nem o feliz século de quinhentos produziu sem defeitos: serei capaz de tanto! Para um homem não fora muito, porque trabalharia os vestígios de antiguidade com as Luzes do século presente: não é coisa de merecimento ir ao index das coisas notáveis. Mas para uma mulher no país em que nasci, e onde talvez se armem contra mim porque leio e porque vou à Academia, sim é heroísmo; contudo não terei valor para que se imprima em minha vida, e como esta será (ao que promete) de pouca duração vocês chorarão dobradamente quando lerem o que deixo escrito.»
Adeus querida do meu coração
Beijos de muito amor
Teresa
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Carlos Augusto tira da sua pasta um documento chegado naquela manhã à embaixada portuguesa através do correio diplomático. E ao entregá-lo a Leonor, diz: «Esta é uma cópia da certidão oficial que faz justiça aos teus avós marqueses de Távora.»
Incrédula e sobressaltada, ela lê o documento num ápice, sem saber no final se na pressa não lhe teria escapado nada do que os juízes assinaram.
«O que tudo e o mais que dos autos consta, com a mais séria, exacta e escrupulosa circunspecção: separando a verdade da confusão e da desordem, e a inocência da perfídia.»
Inesperadas palavras que arrastam consigo memórias que Leonor julgara estarem nela submetidas; e a lâmina da saudade volta a revolver-se-lhe no peito, enquanto, atordoada, avança na leitura da certidão: «Revoga a mesma sentença pelo que respeita aos Marqueses de Távora, Francisco de Assis e Dona Leonor, seus filhos Luís Bernardo e José Maria de Távora, e seu genro Jerónimo de Ataíde, Conde de Atouguia, por se não provar que fossem cúmplices no referido insulto a Sua Majestade.»
Leonor sente-se de volta àquela noite de cristal de frio, chuva e medo, a ser empurrada para fora do aconchego da cama e erguida pelos braços trémulos da Mãe em lágrimas; torna a escutar os pesados passos dos soldados na escada da casa levando seu Pai, empurrando-o para o negrume da madrugada de tempestade solta pela cidade.
Debruçada sobre o texto, Leonor não se cansa de ler e reler o seu final: «Declaram que não incorreram em nota, ou infâmia alguma. Absolvem a sua memória, e restituem todas as Famílias dos sobreditos às suas honras, e ao uso do apelido de Távora que lhes foi proibido pela dita sentença.
Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, em vinte de Agosto de mil setecentos e oitenta e um» – Seguem-se as assinaturas dos juízes e dos secretários de Estado.
Leonor procura em vão a assinatura da Rainha D. Maria.
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Foi um parto simples, sem história,
sem gritos.
Um parto passado entre pesados silêncios e gemidos logo amordaçados, tesoura aberta debaixo da cama para cortar a dor.
Um parto sem esforço que quase passara despercebido na lonjura da casa, até porque os débeis vagidos da menina de nascimento breve facilmente se perdiam pelos corredores e dobradiças das portas fechadas, a embaterem no lençol bordado, subido até aos seus fininhos lábios.
Pálidos.
Tão pequenina e frágil de cera transparente, que Leonor se afligia sem conseguir olhá-la durante muito tempo, prendendo-a para logo a desprender dos seus braços, empurrando-a de si para voltar a mandar tirá-la do berço. Desatenta ao seu pouco choro, mas sentindo-se irritada com a calmaria em que a menina ficava.
Prostrada.
Vestia-a de cambraia branca ou cassa cor-de-rosa de pétala translúcida, com aplicações de fitinha de seda ou renda picotada. Tons neutros a condizerem com o seu corpo quebradiço, franzino, sumido sob o peitilho ajustado com cordões de cetim cruzados nas costas, cueiros compridos a cobrirem-lhe os pés sempre frios e azulados, só a aquecerem nas suas mãos fechadas; a impressionar de tão magrinha quando a ama a banhava na bacia redonda de prata, corpinho massajado com óleos depois de seco com toalhas aquecidas a ferro de engomar acabado de recolher das brasas.