As Luzes de Leonor
Diário
na arte do seu imperfeito descontentamento.
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A seu lado vai o estojo de escrita e um saco de couro com livros que lhe levaram longos dias a escolher, entre os tantos da sua biblioteca que viajam consigo num dos carros que a seguem. Não quisera deixá-la para trás. Já lhe basta ter ficado sem a que levara de Chelas para casa dos pais e que lhe haviam roubado durante a mudança para a sua nova morada no Porto.
– Não corro esse risco –, garantira ao marido. E ela mesma se encarregara de acomodar os volumes em baús, em caixas e pacotes, ajudada por Thérèse.
Mal sai de Viena entrega-se a uma bendita modorra, que lhe anestesia os sentidos, impedindo-a de sofrer ou de se arrepender, levando-a a regressar. Pouco a pouco, porém, os primeiros versos de um soneto vencem a penumbra onde a mente dela prudentemente se afunda:
vibrantes, teimando em despertá-la.
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DIÁRIO
Volto a partir, em tumulto, avessa a mim mesma.
Desta vez deixo Viena onde tanta coisa me prende: afectos, poesia, música, as árvores esguias das áleas dos jardins dos belos palácios de pedra rendilhada, a dúbia mansidão azulada do Danúbio.
E torno a partir com a pressa irreflectida de quem se assusta.
Sufocando. Espiando-me, entendendo ser eu própria quem persigo na minha inteireza de mulher. Como desculpa invoquei a falta de saúde, debilitada pelos muitos partos que falseiam a minha identidade. O corpo e a sexualidade traem-me.
Sinto estar a desviar-me, a esquecer-me, a afastar-me do muito que quero para mim.
Mereço mais do que isto.
30 de Setembro de 1784
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Logo começam a multiplicar-se e a sobrepor-se suposições e insinuações, a renovarem-se as intrigas, quando à Corte de Portugal chega a notícia de que a condessa de Oeynhausen, em vez de guardar resguardo devido ao parto de mais uma filha, saíra inexplicavelmente da Áustria, largando o marido e as crianças ao cuidado das criadas e da ama austríaca.
Quem recebe a notícia da partida de Leonor é o marquês de Angeja, que de imediato se encarrega de a passar ao ministro Aires de Sá e Melo; mas quem trata de a espalhar ao longo dos salões e corredores do Palácio de Queluz é Martinho de Melo e Castro, empenhado nas idas e vindas, no traz e leva da história que ele conta aumentando-lhe sempre mais um ponto. A D. Maria, pelo contrário, a nova chegara atenuada pela boca do arcebispo de Tessalónica, embora da forma exaltada que lhe é habitual.
Mas aquilo que em todas as versões fica por explicar é o facto de Leonor de Almeida ter abandonado Viena sem cumprir a obrigação de informar a Rainha sua protectora, desse modo deixando o conde seu marido, enquanto embaixador de Portugal entretanto caído em descrédito, numa posição ainda mais frágil.
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Leonor segue para Estrasburgo.
Carlos Augusto, mal possa, partirá para Avignon onde, se a Rainha D. Maria o permitir, continuará a sua enviatura como embaixador de Portugal na Áustria. Irão pois viver em Avignon, embora ela preferisse outras cidades: Paris não lhe sai do pensamento, Veneza e Roma tentam-na por demais; mas, sobretudo, anseia por Constantinopla, sonha com o deserto do Saara e com as areias do Egipto, tanto quanto recusa Londres, num pressentimento ruim, sem explicação.
Quando dorme tem sonhos ardentes, ora na carruagem que cada vez mais a distancia da Áustria, ora nos quartos acanhados das estalagens de beira de estrada, onde pára exausta e impaciente, cheia de uma sede que mata com a frescura da água conservada pelas criadas nos potes de barro. Frescura que tolda com uma ligeiríssima névoa os copos de cristal onde se vêem as armas dos Oeynhausen, pois seguindo os conselhos de Madame de Thun, leva consigo a louça pessoal, assim como o talher de prata.
O café preto tem um intenso travo a verdete, acre e forte, mas mantém-na acordada e atenta às estradas, atapetadas por uma forragem de folhas cor de fogo, caídas das árvores derrotadas pelo outono, que nesse ano de 1784 começara mais cedo e mais triste. Mas quando a temperatura sobe um tudo-nada e se apercebe estarem a passar junto de um rio, manda o cocheiro parar e desce sozinha até à margem, onde fica largo tempo sentada junto aos seixos molhados pela mansa ondulação que vem cobrir-lhe os pés descalços. Caderno, diário ou livro de poemas aberto nos joelhos levantados e unidos por baixo da saia ampla do vestido simples e prático. Gosta de lavar na correnteza fria a cara, os braços e as mãos, a libertar-se das poeiras das estradas e dos atalhos que tomam a fim de cortar caminho; desmancha a trança de cabelos suados, deixando-os descer, livres, ao longo das costas.
A seu lado crescem a esteva, a urze e pequenas flores a salpicarem a terra de amarelo e de azul, esquivando-se por entre as grandes raízes das árvores; sabendo já que se seguisse os sinais do aroma volátil e doce de que dera conta acabaria por descobrir ali perto um renque de rosas selvagens.