As Luzes de Leonor
Caderno
†
Conhece bem quais são os seus deveres conjugais. Se D. João a procura, apesar da repugnância que ele lhe causa, a Princesa Real vai cedendo, embora jamais de bom grado.
Quando aos nove anos a mandaram de Espanha para Portugal a fim de casar com o Príncipe da Beira que ela nunca vira, a Princesa das Astúrias, sua mãe, não evitara contar-lhe nada, e desse tudo falado entre as duas os pormenores sempre vieram junto. E talvez também por isso, ao chegar, ela já era uma menina bravia, recusando com destempero de birras e gritos o que quisera negar de si própria àquele rapaz timorato, desgracioso e desajeitado que, meses depois de ela ter dado entrada no Palácio de Queluz, pretendera deitá-la na cama e tocar-lhe por baixo dos vestidos.
Agora, quando D. João a procura, Carlota Joaquina pode mesmo tentar tirar algum prazer da obrigação da entrega, põe-lhe as mãos nos sítios certos, ensina-o a fazer aquilo de que ela gosta. Ou provoca o seu interesse pelo gozo que sente em se negar de seguida. Sobretudo desde que, com o nascimento do filho varão Francisco António Pio, se sente desobrigada de se deitar com ele.
Esquivando-se, afastando-se, evitando-o, tomando cuidados. Apesar de tudo, nas últimas semanas tem sentido os nervos à flor da pele, revolvida de insónias e de náuseas,
como quando está grávida.
†
CADERNO
«Não sei bem dizer qual mostra menos arte: se quem escreve mal, se quem mal julga. Entre ambos menos risco há, menos dano, o que me cansa. Dos primeiros há poucos, muitos destes.
Por musa, que escreve mal.
É mais raro, entre os críticos o gosto. Uns e outros têm precisão de Luzes.»
Lisboa, 27 de Abril de 1798
†
A primavera de 1798 está a ser ácida e agreste,
clima instável e perfumes improváveis a irritarem os nervos, numa mistura de fragrâncias várias e arredias: a goivos, a âmbar e também a camélias adormentadas ao relento, ou a rosas trepadeiras, subindo o que podem pelas traves dos caramanchões e das latadas, embora prefiram os troncos dos limoeiros.
Rosas que adoçam o chão com as suas pétalas incipientes.
Odor a erva fresca, molhada, rasteira em canteiros delimitados a mármore, crescendo na terra regada pelo orvalho e a chuva leve, que dia após dia se vai tornando mais rara. Mas dentro do palácio mantém-se o cheiro a cinza crestada dos tapetes, acumulada durante o inverno junto das lareiras, ao pó dos cortinados e dos panos de veludo que as criadas sacodem agora às janelas escancaradas.
Da cozinha, trazido pelas correntes de ar que sempre atravessam o Palácio de Queluz, vem o cheiro gorduroso dos fritos, o olor peganhento do caramelo, dos doces de ovos que suam a erva-doce, a vagem da baunilha no creme de leite, e o odor mais áspero do gengibre e do tomilho, a misturarem-se com o afago acre da canela deitada no arroz-doce a arrefecer já nas grandes travessas da Companhia das Índias.
Do pomar de amoreiras ao fundo, ou do bosque de acácias e lilases, parte um perfume pesado, que se sobrepõe ao das mimosas, a acirrar a alma de Carlota Joaquina que, saturada do inverno, da chuva e do frio e de estar fechada em casa, percorre impaciente as alamedas dos limoeiros e das faias dos jardins, com o seu passo largo de amazona que lhe disfarça a perna mais curta.
Arrebatada, vai fustigando à sua volta com a chibatinha que leva na mão desenluvada, a decepar com acinte as flores e os arbustos, olhar de castigo a deter-se desatento nas fidalgas e nas damas de sua companhia, que a rodeiam, a seguem, e por vezes tanto a enfastiam. Acabando por se deter diante da grande jaula que a pantera negra percorre de ponta a ponta, andar felino amputado que o próprio cativeiro sotura. Mas que ao vê-la se detém a fitá-la com o seu olhar facetado.
Como se detectasse as faltas de mênstruo do seu ventre.
À volta delas faz-se então um silêncio desmedido, como se o tempo se tivesse imobilizado. Silêncio de súbito fendido pelo inesperado bramido da fera,
que faz levantar no interior obscuro dos corredores do palácio, uma colorida nuvem de periquitos, em torvelinho, num restolhar de asas atordoadas.
†
Para Leonor as tardes podem ser de temperança, entre a leitura e a poesia, o estudo e as traduções, onde se exercita com fascínio pela escrita alheia. As noites, essas, têm de se tornar excessivas, imponderáveis, de desafio; entre um improviso, uma glosa, um arroubo de alma, opiniões ousadas em atitudes por demais ardilosas mas de risco.
Além das próprias assembleias, ao longo da semana ela divide-se entre as tertúlias de Catarina, os saraus de Mariana de Arriaga, ou o salão dos Freire de Andrade onde vai sempre que Pedro chega a Lisboa. Em todos ela é reclamada para declamar poemas, e uma vez por outra até para cantar árias e Lieder, como já fizera nos salões da corte austríaca. Mas Leonor tem o condão, sobretudo, de transformar o tédio dos serões em discussões polémicas, em controvérsias acesas, indo sempre mais longe do que se espera dela, ora despertando sorrisos tolerantes de esconder invejas, ora um ou outro encolher de ombros enfastiado, a contrastar com cautelosos e envenenados olhares.
Ninguém já se admirando quando a vêem afastar-se da companhia das mulheres que na sua maioria se contenta em dar motes para serem glosados pelos poetas presentes, em busca dos grupos onde se fala de política, se debate a ciência, se polemiza sobre literatura, filosofia e botânica. Sendo já conhecidos os desenhos que ela faz de flores e plantas, tentando captar-lhes as tonalidades, as nuances e os matizes das cores, tal como a gradação dos odores numa transparência invisível, de cambiantes translúcidos, diluídos e frágeis.
Como se fossem de névoa e pérola.
Como se fossem de orvalho.
†
Ao sentir-se cada vez mais perdida na solidão gélida do convento de Chelas, onde lhe parecem ecoar os seus soluços, Gonçala clama por Leonor, julgando tocar-lhe e agarrar-se a ela durante as longas e desesperadas vigílias.
Chama-a nos seus delírios em noites de febres altas e visões de negrume sem misericórdia. Longa camisa de pano áspero subida no pescoço alto, enrodilhada e marcada pelas humidades do corpo e do amargor das lágrimas.
O cabelo que há muito não se lembra de cortar e esconde preso debaixo do véu do hábito, desce já até aos ombros. De madrugada solta-os humedecidos pelos suores nocturnos, e quando finalmente adormece espalham-se esparsos na almofada manchada do sangue que ultimamente lhe sobe à boca, não só quando tosse; e durante o sono parece transformar-se em gotas de rubi,
a aflorarem devagar entre os seus lábios.