As Luzes de Leonor
Caderno
Em pratinhos de porcelana há fatias-da-china e pão-de-ló, mas Leonor recusa os doces, não querendo perder o travo intenso da romã no rasto da saliva.
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CADERNO
«Madame a Infanta perguntou-me esta tarde se eu estava comodamente instalada; disse-lhe que me sentia mais ou menos como se estivesse sobre a ponta de um espeto. Moro numa casa que não me pertence, janto em casa da marquesa de Tancos ou na do duque de Lafões. De manhã estou na Corte; em seguida passo parte do meu tempo com amigos e a minha tia. De tarde volto, corro de um lado para o outro, durmo, tenho pulgas e reflicto sobre a vanidade das coisas deste mundo.
A minha cabeça e as minhas pernas não podem mais.»
Lisboa, 6 de Fevereiro de 1788
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É intensa e equívoca a fragrância anelante do óleo de nardo que se derrama no ar à passagem da Princesa Carlota Joaquina, como se fosse indício, laivo ou vestígio da sua insubordinação, pois é com ele que as damas espanholas tentam em vão domar-lhe os escuros cabelos abundantes e crespos.
Ficando este perfume como um atalho,
um trilho, ao longo do Corredor das Mangas até à sala de passagem para o jardim onde, astuta, ela troca os passos à sua camareira D. Helena de Mascarenhas assim como à condessa de Lumiares, uma das suas damas de honor, e por ali passa como uma flecha, com toda a esfuziante agilidade de menina azougada e ladina, tentando chegar depressa ao ar livre para se esconder antes que a agarrem e a levem de volta à missa ou à reza do terço na capela de onde fugira,
ou à companhia triste da Rainha sua sogra, que em silêncio a olha enquanto lhe afaga o emaranhado dos caracóis em desalinho, apesar dos cremes e das loções, dos pentes de marfim e das escovas de cerdo áspero, com cabo de prata.
Carlota Joaquina jamais usa os carrinhos de jardim. Ela precisa de correr ao ar livre pelas áleas e as matas que circundam o Palácio, ainda mais pesado e silencioso desde a morte de D. Pedro, seu sogro. Sorrateira, sempre que consegue escapar à apertada malha do controle de quem a deseja prisioneira do protocolo da Corte, vai até às jaulas dos animais selvagens, desejando soltá-los mas sem coragem para tanto.
Gosta de ficar concentrada nos seus olhos fixos, sequiosos, vazios e amarelos; a tomar para si, com um prazer esquivo, o seu amargoso e ardido cheiro a savana.
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Vai vestida de tafetá de dois tons, alfazema e verde-espesso, saia quase direita nas ancas macias, vestido cortado debaixo do peito, como começara a ser usado na corte francesa na altura da sua partida para Portugal.
Leva também luvas cor de pérola, muito curtas, chapelinho escarlate com uma pequena pluma branca recurvada sobre si mesma, a mostrar-lhe o cabelo naturalmente ondeado que lhe ensombra a nuca, caracóis macios emoldurando-lhe o rosto longo. Olhar enxuto e fresco a examinar sem disfarce a sala de jantar do marquês de Bombelles.
A encimar o grande aparador à sua frente vê-se uma paisagem de Fragonard, e as outras paredes estão em parte cobertas de tapeçarias Gobelin. No tecto há uma pintura de Vénus a nascer das ondas, corpo nacarado e nu, cobrindo com as mãos as partes da vergonha.
Nas cabeceiras da mesa comprida sentam-se os donos da casa, delicados e atentos aos seus convidados. Impaciente, Leonor desliza as mãos na toalha de linho, sentindo na ponta dos dedos a haste dos lírios bordados a cheio. É a única mulher portuguesa entre vinte homens, que se entretêm a ouvi-la. E ela diverte-se com a situação que a estimula, falando de tudo um pouco, de assuntos triviais e fúteis, de arte e filosofia, de teologia e política. O que partindo de alguém do sexo feminino os desconcerta, lhes desagrada, mas igualmente os atrai e fascina.
Sobretudo intimida-os.
Sem constrangimento, Leonor continua a monopolizar as atenções, alegre, desenvolta, aceitando as apostas e os desafios que lhe propõem. Então inventa outros em troca, e lança-os àqueles que a cercam e não lhe sabem dar resposta, enquanto ela vai trabalhando o seu encanto, debicando mais do que comendo os pratos que vão sendo servidos: primeiro a sopa de lampreia em terrinas fumegantes, depois o pâté de lebre, o faisão, e por último o folhado francês e os frangos turcos.
Junto ao prato de Sèvres ela esboroa com a lâmina das unhas o pão de trigo, em seguida levando o vinho ruivo aos lábios sem carmim, finge beber, mas aflorando apenas com a língua o límpido travo aromático, frutado, luminoso. Gosta de tomar o peso dos garfos e das colheres de prata, e de ver reflectidas nos copos e nas taças de cristal as luzes estilhaçadas das muitas velas do lustre.
No decorrer das horas, demoram-se numa discussão viva que os absorve. Entusiasmam-se com os versos improvisados e o pensamento filosófico que ela ousadamente expõe e defende, a querer espicaçá-los, escandalizá-los. Mas eles preferem aplaudi-la, ficando as travessas de arroz-doce coberto de canela esquecidas nas mãos enluvadas dos criados que, imperturbáveis, aguardam.
– Contaram-me que a senhora condessa de Oeynhausen, para além da política, da filosofia e da poesia, é ainda entendida em doces – intervém a certa altura o marquês de Bombelles, mandando servir de seguida as covilhetes com os queijinhos-do-céu das Freiras da Esperança, as raivas e as ferraduras das freiras de Santana, a sopa dourada, e por fim o pudim de leite e ovos. E como se não bastasse, trazem pratinhos com marmelada e um baltazar de pão-de-ló.
Quando finalmente se levantam da mesa já é tarde. Mesmo assim passam ao salão do embaixador, e demoram-se ainda a tomar o café acompanhado pelos digestivos, vinho do Porto e licores ambarinos, cintilando nos pequenos cálices de pé fino.
Para fechar a noite pedem mais versos a Leonor que, encantada, para além dos próprios, declama Camões e em seguida Correia Garção e Filinto Elísio. Não resistindo à tentação dos sonetos de Petrarca.
Por último atreve-se a recitar Goethe e Schiller.
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DIÁRIO DO MARQUÊS DE BOMBELLES
EMBAIXADOR FRANCÊS EM PORTUGAL
«Madame d’Oeynhausen jantou hoje connosco: éramos vinte à mesa e ela a única Portuguesa, rodeada de Franceses empenhados em agradar-lhe, em escutá-la. Ela elevou-se ao tom da poesia e deu-nos um grande prazer ao improvisar numa língua que não é a sua. Recitou-nos versos de uma grande beleza. É uma mulher que sem contradição possui uma imaginação muito viva e muito brilhante; não a julgo dotada de igual bom senso.»
Lisboa, 19 de Março de 1788
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Desde a chegada de Leonor a Portugal que Gonçala vive em sobressalto, arrastando o hábito escuro pelas pedras do chão, a rondar a grade do convento, como se esperasse vê-la chegar de um momento para o outro.
O seu coração desenganado diz-lhe que ela não vem. Mas o conhecimento dos seus sentimentos e do seu carácter impele-a no sentido contrário, levando-a a aguardar-lhe a vinda.
As noites são passadas em branco, em grandes insónias febris que nem o láudano tomado na calada da cela ilude. As madrugadas passa-as na cerca, debaixo da árvore onde a amiga escreveu tantos poemas. Mariana, que também pertencera ao grupo das suas discípulas, enerva-a com um riso cúmplice de quem sabe coisas que a todas as outras escapam. Gonçala afasta-se dela, e mesmo na capela isola-se, sem no entanto conseguir rezar e menos ainda alcançar a paz de espírito; coração ora revolvido pela dor e pela decepção, ora aliviado pela esperança que, apesar da longa espera, nunca verdadeiramente a abandona.
Mas no momento em que a vê aparecer queda-se imóvel e incrédula, como se Leonor fosse uma aparição ou delírio dos seus sentidos. Vagarosa, dirige-se para ela, e quando se abraçam as grades de ferro ficam entre as duas,
duras, hirtas e frias,
parecendo apunhalá-las. Depois, olham-se à distância dos braços estendidos, como duas desconhecidas.
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«Ilm.o e Exm.o Snr.
Que fiz eu a V. Ex.a, senhor Martinho de Melo, para castigar-me com um silêncio tão firme e tão austero! Se V. Ex.a me quis fazer reconhecer que os meus gemidos são inúteis, e que a piedade de Vossa Excelência os não atende, esteja descansado, porque a extensão das minhas penas prova-me bastantemente qual é a extensão do seu poder. Saiba Vossa Excelência que injúrias não as sofre um homem de honra, mas perdoa-as uma mulher pouco feia, que trabalha pela felicidade de seu marido e de seus filhos; tal
é a que de novo se apresenta a V. Ex.a. V. Ex.a bem sabe no fundo da sua alma que eu tenho razão, e que se V. Ex.a quiser achar-ma custar-lhe-á
ainda menos do que provar que a não tenho. Queira V. Ex.a por humanidade decidir bem ou mal o que me respeita, porque se não posso viver em paz, quero ir morrer de miséria ao pé de meu marido e dos meus filhos.
Obrigadíssima a V. Ex.a
Condessa de Oeynhausen
Lisboa, 23 de Março de 1788»
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Nos jardins do Palácio de Queluz,
àquela hora da tarde, as dálias, as rosas-chá e as petúnias entreabrem muito devagar as suas pétalas. É nessa exacta altura que ele a vê a contraluz, cabelos frisados incendiados pela chama intensa e a aragem húmida. Sombrinha aberta um pouco inclinada sobre o ombro direito, a descoberto pelo decote largo e fundo, a fazer sobressair um fino colar de ouro e ametistas.
Num passo leve Leonor avança, talvez distraída com um verso ainda não terminado; olhar distante, saia de cassa carmesim bordada a fio de prata, bainha de cetim a arrastar na gravilha miúda da alameda delineada por buxo recortado.
Vê-a estremecer quando se cruzam, mas sem o fitar.
Também não o evita.
Apenas o desconhece.
É ele quem pára, hesitante no jogo de quem espia, e acaba por voltar-se cego pelo sol, temendo perdê-la de vista. Sôfrego da sua imagem: da seriedade dos seus lábios pálidos, da luminosidade do olhar de cinza azulada e ávida, do gesto inquieto que os seus dedos esguios reflectem.