As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 218 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

O ministro sabe também que o conde de Assumar não está isolado nos seus confrontos e conflitos com Forbes; por trás dele encontra-se a maioria dos oficiais-fidalgos mais ilustres da Corte. E como se isso não bastasse, ele tem ainda o sólido apoio do coronel Gomes Freire de Andrade, comandante do regimento de seu nome; militar corajoso, inteligente e esclarecido que, segundo os seus opositores, é um homem de orgulho exacerbado e de índole altiva.

Temendo precipitar-se, o ministro demora-se a maquinar uma estratégia que não o comprometa e vulnerabilize, antes de falar com o Príncipe D. João. Por isso, quando finalmente recebe Pedro de Alorna, antes mesmo de este começar a narrar a sua versão dos conflituados acontecimentos, dos quais tem sido principal protagonista, pede-lhe com afabilidade que, antes de mais, faça um relatório por escrito.

 

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DIÁRIO

 

Acabam de ser criadas três autoridades censórias:

a do Santo Ofício,

a do Desembargo do Paço,

a do Bispo.

Muito embora sempre pese um factor como este, os poetas cuidarão de não começar a escrever e a pensar de modo diverso daquele que sempre entenderam ser livre e seu.

No Portugal de mil setecentos e noventa e quatro, o gosto pelo mando, pelo poder de censurar a mente, o pensamento alheio, mantém-se o mais pernicioso e nefasto.

Almeirim, 20 de Novembro de 1794

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– Quantas saudades, meu irmão! – desabafa baixo, encostando por breves instantes a cabeça no seu ombro fardado. Enquanto lhe vai falando do próprio descontentamento, pondo-o em paralelo com o de Pedro, regressado da Catalunha decepcionado e amargo.

– Tens razão, quero mais do que o apagamento, do que o fracasso da campanha do Roussillon. Mas para ti, minha irmã, também esperava melhor do que este nada, do que este isolamento, este ermo – responde-lhe Pedro, apontando à roda com a mão seca, longa e masculina, no côncavo da qual fica bem o punho da espada.

Leonor escuta-o emudecida, embora disfarce a expressão impaciente. Há muito que deseja regressar a Lisboa, enfastiada de Almeirim e dos seus intermináveis dias de sossego. Negando-se no entanto a admitir ter errado ao trocar a sua vida antiga pelo silêncio das matas que envolvem a casa. Esquecida já do propósito de se afastar para sempre do mundo e do seu tumulto, no falseado desejo de se despedir da vida.

Pedro encontra-a macilenta e debilitada como nunca, a adivinhá-la perdida no próprio desamparo. No entanto disfarça o cuidado, temendo vê-la soçobrar. Por seu lado, ela imagina enganá-lo ao esconder-lhe as dúvidas, as tristezas, as noites sem dormir, apesar do láudano e da beladona.

Ambos calados, em sobressalto.

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Nas noites de temporal vão para as camas umas das outras assustadas com a trovoada, os relâmpagos a riscarem o céu de chumbo e a alumiarem o quarto como fulgurantes e rápidas lâminas de luz ácida que as cegam e as fazem cobrir as cabeças com a dobra bordada a matiz dos lençóis de linho, as mantas espessas e macias nas quais se enroscam, meninas friorentas e solitárias a procurarem abrigo e segurança ao lado das irmãs mais velhas.

Escondendo estas o receio que também as toma ao escutarem a saraiva a empapar a terra que a muita água ensopa, a formar regos que escorrem e correm e engrossam, misturando-se às correntezas galgando as pedras, a levarem consigo os galhos, as silvas, as sementes e as folhas caídas, tomando corpo por entre as raízes das árvores, vindo depois até ao cimo a derrubar as plantas frágeis, arrancando as flores, as cascas das oliveiras mais baixas.

Enxurrada já, arrastando as pétalas, os insectos afogados, levando lama e barro, elevando-se, marinhando insistente para logo descer em direcção ao Tejo que sobe escapando do seu leito, e devagar se estende e alarga, alaga a lezíria em torno, crescendo num ruído surdo e lento. Água barrenta simulando um lago, fundo e baço e quedo, a tentar em vão brilhar quando o sol finalmente se abre, escapando por entre as nuvens de um cinzento sujo e carregado, libertando uma claridade esvaída que não permite nenhum reflexo.

João Ulrico chora baixo, e de camisinha de dormir que mal lhe tapa os pés pequeninos, brancos e gelados, vai aninhar-se com o seu medo junto do corpo morno da ama, que o abraça a tentar sossegá-lo, enquanto lhe diz ao ouvido, «durma o menino que a borrasca já passa», embalando-o.

Mas a chuva não pára, fortalecendo a cheia que alastra na lezíria, cobrindo tudo o que pode, entrando nos celeiros e nas casas, levando o gado consigo, afogando as ruas, os campos e os palheiros, as alminhas das estradas.

Voraz, com uma tenacidade impiedosa.

Inquieta demais para dormir, Leonor ergue-se a escutar o rio, cansada dos rigores daquele inverno que tem juntado o frio às bátegas de água, o granizo aos ventos agrestes e cortantes, arrancando tudo o que apanham pelo caminho, atemorizando as pessoas, levando-as a confundir as catástrofes naturais com castigos implacáveis vindos dos céus.