As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 121 de 289

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As Luzes de Leonor

Memória

†

 

 

Ninguém de mim dirá ter sido uma mulher compassiva.

E sim tão forte e determinada quanto a natureza, dela colhendo os seus ensinamentos.

No ano de 1782 em Viena, no entanto, mais uma vez me senti ludibriada pela vida.

Hoje, ao recordar esse tempo, volto a lembrar-me de mim enquanto menina em clausura a debater-se para não soçobrar no destino adverso; e até na Áustria, prestes a mergulhar na melancolia, só podia contar comigo mesma, demasiado autêntica, perseverante e firme para que Orfeu descesse por minha causa até às catacumbas da morte a fim de me salvar da sorte funesta.

Em Viena, no ano de 1782, por momentos vacilei,

tal como tantas outras mulheres levadas ao longo dos tempos a renunciarem a si próprias, a assombrarem-se com o remorso de, em algum momento da vida, terem querido ser mais do que sombra, mais do que a sua imposta condição inferior lhes permitia.

Remorso o meu por ter deixado morrer Maria Regina; remorso por não ter estado atenta à sua debilidade; remorso por não a ter amado o suficiente; remorso por me haver deixado desviar pela escrita; remorso por me ter deixado seduzir pelo estudo e pela leitura. Remorso, sobretudo, por me ter deixado distrair comigo mesma.

Nestes arrependimentos contradizendo-me em tudo: nos princípios, nos ideais, na legítima ambição, na desmesura do meu sonho.

Assim, «o ano de mil setecentos e oitenta e dois comecei-o sozinha» – recordo-me de ter escrito no meu diário. Desconfiada de que Carlos Augusto tivesse voltado aos hábitos anteriores ao nosso casamento, preferi calar-me a enfrentá-lo.

Neste calamento não me identificando.

Tal como hoje, por motivos diversos, não me reconheço…

– Quem é esta que me assombra com o seu reflexo no espelho? – pergunto-me, perplexa com a desconhecida cruel que me fita em silêncio. Dando-me a ver sem piedade o Mundo a distanciar-se, a perder-se do outro lado das janelas, das paredes das casas onde tenho ultimamente vivido, saudosa de sentir na pele o sol rutilante de Lisboa.

Sentimento de falta, que me leva de volta a Viena onde, privada das grandes claridades, me debatia com a sua agrura gelada de labor afiado.

Navalha de ponta e mola cravada no meu coração aflito.

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