As Luzes de Leonor
Caderno
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Para Filinto Elísio nenhuma outra mulher chega à sua graça, ao seu encanto. Apesar da determinação e de uma certa aspereza que nela tanto o fascinam como o afugentam, e de o trato nunca ser fácil ou demorado, pois aquilo que hoje desdiz amanhã reinventa.
Tudo podendo acontecer de súbito, num gesto desabrido, num donaire de encanto, num rompante alado; intensidade desacostumada, provocando susto.
Temperança e fogo lado a lado.
Coração galgando e desarrazoando no peito, mas no mesmo movimento sendo já a razão que a alimenta.
No doce e no ácido em que se impregna.
Inteligência aliada à espontaneidade, a audácia à singeleza, desmentindo as irónicas teorias de Molière acerca da sabedoria das mulheres que a ele, Filinto, tanto cativam.
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CADERNO
Da última longa carta enviada por Teresa, quero fixar um passo, por me tranquilizar muitíssimo:
«Posso afirmar-te que não me passa pelo pensamento escandalizar-me que me não confies quanto te pertence; uma carta não é seguro canal de um segredo, além de que ninguém me constituiu tirana dos corações das minhas amigas; basta que sejam verdadeiras as provas da sua amizade, a sua qualidade há-de ficar-lhe livre: obrigas-me se me julgas capaz de saber o que encobres doutros, mas não me escandalizas se me não disseres o que a ninguém revelas.»
Por vezes o seu ciúme sobressalta-me.
Chelas, 5 de Março de 1771
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Joana Isabel Forjaz continua a visitar o locutório fora dos outeiros, onde se sente invisível à mistura com os outros poetas, apesar de Leonor sempre a distinguir entre todos puxando-a por entre as grades mais para a sua beira. Mas como têm muito para conversar fora da escuta alheia, combinam outros dias e horas diversas.
Encontros demorados, onde o riso se mistura com estrofes, os escritos com as confidências, as dúvidas com as palavras escusas e aladas.
E quando os olhares delas
tropeçam um no outro,
escuta-se sempre o restolhar de uma pomba.
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Só Maria sabe quanto os encontros sobressaltados com Joana Isabel Forjaz divertem e encantam a irmã, mas também entende que Leonor não pode passar sem a amizade de Teresa de Mello Breyner que, possessiva e ciumenta, vai pressionando no sentido de afastar a amiga da outra, invocando as inúmeras razões que a levam a crer estar certa dos malefícios de um relacionamento que só lhe pode vir a ser nefasto.
«Não puxes por uma amizade que te não é muito conveniente», aconselha numa das inúmeras cartas que chegam ora do Vimieiro ora de Estremoz, onde ela passa grandes temporadas com o marido. E desse modo, com tenacidade e afinação, Teresa vai envenenando Leonor contra Joana Isabel, tal como um dia mais tarde tentará fazer, sem sucesso, em relação a Catarina de Lencastre.
«A mana não devia ligar àquilo que Tirse lhe conta, aflita pelo muito amor que lhe dedica, e picada por suspeitas, ralamentos e medos de se ver substituída no vosso coração» –, alerta-a inutilmente Maria. E quando sem alarde, depois de muitos envenenamentos e intrigas, Joana Isabel Forjaz, embora relutante, acaba por se afastar, é com mágoa e decepção que Leonor lê as palavras de regozijo e alívio enviadas por Teresa: «Não posso deixar de dizer-te que estimo o que te sucede com J. I.: eu desejava que ela se desse a conhecer antes de te empenhares muito na sua amizade.»
No peito de Leonor começa a abrir-se uma sinuosa brecha.
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Há muitas freiras velhas, agrestes e intransigentes nesta imensa casa de mulheres, onde permanentemente se escuta o leve arrastar das bainhas dos hábitos a varrerem o chão das escadas e dos corredores – como se fossem arrepios da pedra – à mistura com as litanias, as orações rezadas à pressa, o ruído áspero e seco das contas dos terços que trazem dependurados dos cintos tecidos por mansos fios entrançados.
E não me parece, infelizmente, terem as religiosas mais novas maior inteligência e tolerância; talvez só mais riso – gargalhadas trocadas entre si enquanto inventam histórias e cochicham intrigas, a gastarem o tempo que lhes sobra muito, dias a arrastarem-se com vagares infindáveis entre as horas canónicas que pautam a sua existência árida.
Sono sobressaltado entre a lauda e a prima, estremunhadas com os dois toques do sino que mais tarde assinalará a tércia; alegrando-se quando ao meio-dia, para anunciar a sexta, a irmã sineira sobe à torre e, depois de ter sentido a aragem do vento quente no rosto pálido, puxa uma única vez a corda grossa, deixando-a depois subir sem receio de queimar a palma incólume da pequena mão cheia de graça.
Ao som da nona e das vésperas, alvoroçam-se as noviças, divididas entre as pequenas obrigações e a grade, de onde ficam a olhar de soslaio a elegância e os sorrisos caprichosos dos fidalgos, na ânsia de adivinhar os olhares esquivos que nelas se demoram, no final aceitando sem rebuço os agrados das visitas. Mas, durante o estio, parece ser nas completas que melhor se espalha a melancolia, desperta pelas quatro vezes em que o timbre metálico mas harmonioso do sino, mal se fazendo ouvir, logo se dissipa no crepúsculo entornado.
É num desses intermináveis fins de tarde de calor velado que Gonçala chega em sobressalto. Olhar acossado trepando pelas paredes, embatendo nas portas trancadas, escapando por entre as grades altas das janelas estreitas, ansiosa por maior espaço. Lágrimas mal contidas na borda macerada das pálpebras descaídas, a acentuarem o bistre das olheiras que lhe marcam a face morena e delicada; expressão de névoa num rasto de amargura esmaecida.
A dar-nos conta do desgosto pelo forçado abandono do mundo.
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O calor do estio chega-lhe através da pedra das paredes, refreando assim o nervo frio do Tejo, a correr ali tão perto que até quando sonha lhe escuta a correnteza.
Frente ao cemitério para onde dá a janela alta e pequena do quarto, Leonor relê os versos escritos há instantes:
De que serve, ó sorte ingrata,
Do bem passado a memória,
Se a lembrança do perdido
Torna em pena toda a glória?
Mais uma vez, retorna ela à mágoa que a memória arrasta consigo, por demais conhecedora de como o doce se torna amargo na boca afeiçoada à inocência pura. Uma súbita pontada no lugar do coração tumultuado mergulha-a na turvidade da dúvida e do medo que em permanência a consomem.
Afinal, não será o pseudónimo de Alcipe âncora demasiado imobilizadora para quem tudo quer, em mudança constante?
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Filinto Elísio
Coloquei entre as páginas do volume de poemas de Petrarca que vos emprestei ontem, ao encerrar da grade, versos feitos com o fim de vos demonstrar como a minha voz em relação à vossa, partindo do mesmo estado, pode ser mais extrema. Cousa pouco de se estranhar, pois toda a dissertação da vossa parte a propósito do amor é por demais vaga, dúbia, e acima de tudo equívoca.
Parece-me antes querer saber qual é o tamanho do risco que se corre ao aceitarem-se os mais tumultuados sentimentos. Temo não poder aclarar-vos as dúvidas, pois nada conheço do sobressalto das emoções que arrastam consigo o corpo, que tão depressa se quer tomado, como se nega na entrega, enquanto tudo o mais em nós se esquiva com acinte. A ardência rejeita, com determinação e firmeza, a frieza derramada de um coração aquietado impedindo o incêndio da alma.
«De rouco cisne» – escreveu a vossa pena a meu respeito. Aceito o desafio, se bem que o tema me perturbe. Mas em assuntos do coração como em outros de acinte será bom não me tentarem.
De mim, afinal, o que quereis? Porque eu, senhor poeta, de mim pretendo tudo.
Alcipe
Chelas, 2 de Dezembro de 1771
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De nós duas venho falar-lhe mana, sabendo quanto difícil é por aqui conseguir evitar o desacerto, na teima de manter a serenidade e o afecto sem conflito, com entendimento e nenhuma briga ou inquietação maior neste espaço circular, neste lugar de limites e trancas, grades e paredes, que mais parecem cercar-nos, sufocar-nos, em termos de ambas os partilharmos, Maria, como se fôssemos siamesas.
Minutos e horas multiplicados por dias, semanas e meses, por anos mana… Quem sabe, minha querida, se não mesmo por toda a nossa vida. A sua de fugida ladina, menina alada e mimada pela nossa Mãe, e a minha mais arrastada na clausura e sina imposta. A teimar eu na liberdade e em privilegiar o pensamento e os versos, na tentativa de dominar e comandar o corpo que inutilmente me esforço por enganar nas suas exigências naturais, ao reconhecer o grande sossego que a frieza e a razão sempre trazem consigo, em detrimento do meu coração que na inquietude se esmera. Mas não se iluda a mana só porque enquanto se aprimora nos sentimentos eu tente disfarçá-los, pois isso não quer dizer que os despreze ou não os possua e conserve desmesurados em mim.
Não use a mana comigo de embuste, nem finja falta de entendimento, que o tem e muito. Se os jogos de enamoramento lhe são assim tão caros, e se tanto a diverte participar nos seus ardis, busque quem lhe seja par e outra face. Brinque se quiser, mas sem confundir alegria com ligeireza, estouvamento com deslealdade.
Deslealdade que me exaspera e revolta, considerando-a parente próxima da traição e da falta de esmero; deslealdade, quando a mana se esconde ao abrigo da sombra da grade para trocar trovas e motes com o Sr. Francisco Manuel do Nascimento; deslealdade, quando lhe aceita os versos; deslealdade, quando lhe provoca a atenção; deslealdade, quando por ele se deixa cortejar ou o corteja, tanto monta! Deslealdade, quando permite que a prenda pelo braço e a mana faz voar até nós o riso solto.
Conhecedora a minha irmã das cumplicidades, dos gostos e interesses que eu e ele temos em comum… porquê a sedução? Porquê utilizar com este poeta a sua arte? Porquê o requebro, a graça extrema, as odes e as cantigas, as modinhas brasileiras, o pretexto da música e seu ensino como meio de ambígua proximidade?
Saber ter sido eu própria a despertar na mana a centelha da curiosidade, ao gabar de Filinto «a voz divina», a ousadia, a correria um pouco pesada da imaginação, o atropelo das emoções na vastidão do peito! Quem vos ensinou, minha irmã, a usar com tamanha precisão a lâmina da crueldade?