As Luzes de Leonor
Diário
†
Foi Teresa quem me mandou a notícia:
a Princesa Mariana Vitória Josefa partiu em direcção a Espanha, a fim de contrair matrimónio com o Infante espanhol.
Está dado o golpe final em Carlos Augusto, enquanto embaixador na Áustria. Nestes últimos anos andámos a lutar contra moinhos de vento, como diria Cervantes, tentando eu explicar o inexplicável à Rainha D. Maria, dando-lhe a ver como todos os dias pisávamos terreno para nós armadilhado na Corte portuguesa. Eu mesma escrevi a Sua Majestade, a demonstrar como o meu marido andava a ser vítima de maquinações e torpes intrigas.
No entanto não me chegou uma só resposta às minhas tantas explanações e queixas.
Avignon, Maio de 1785
†
Maria não conseguiu ainda recuperar do difícil parto de José. Levanta-se a custo de manhã, passo quase levitado rente ao chão que parece fugir-lhe debaixo dos pés descalços, a procurar apoio na beira dos móveis, a travar as vertigens que a acometem.
Depois de Teresa lhe ter contado os boatos e intrigas urdidas de novo contra Leonor, mal se soube no Paço da sua partida inesperada de Viena, a irmã não lhe saiu mais do pensamento atormentado. Algumas vezes parece-lhe vê-la a seu lado aflita, outras Maria desabafa com ela, confessando-lhe em surdina o que não se atreve a dizer a mais ninguém:
«Ultimamente, mana, a minha vida parece esbater-se, tomando a cor da névoa, da urdidura invisível da respiração do Tejo, marulhando em surdina por entre colunas e pedras esverdeadas de limos e algas no Terreiro do Paço.
Fujo de subir o olhar até ao cimo, ao topo das colinas, ou descê-lo aos buracos, aos escombros, às ruínas com que o terramoto juncou Lisboa, sem querer reparar no espaço vazio onde ficava o Palácio Real de que a grande onda se apropriara, ávida, a esventrá-lo, a saqueá-lo, rebuscando já no fundo ao recuar, ao retornar em direcção ao próprio leito, num bramido sobre si mesma.
Talvez por essa fenda, por essa falta, por essa falha, Leonor, por essa imperfeição, por essa rachadura, eu possa entrar, singrar, eu possa acercar-me, atravessar e chegar onde nos quebramos ou nos perderemos um dia. Ou se, pelo contrário, encontrarei aí a minha imagem, reflexo desfocado do outro lado desse espelho rachado, enegrecido e calcinado, daquilo que eu hoje sou.
Espelho no qual não me olho?
No qual não me vejo?
Desfasada, desfeada, movo-me com dificuldade por entre o resto, o rasto que os outros largam.
Escuto o ruído mínimo do insecto pousado na luz, da rosa a murchar na própria corola, da cera descendo ao longo do círio votivo, da lágrima suspensa na lisura da cara. Escuto o grão da voz de Deus.
Eu que tanto anseio pela pureza, pelo gesto intacto, pela beleza única, pela perfeição… morro à míngua de mim mesma, Leonor, à míngua de equilíbrio, mas também da sede do excesso que para sempre vou desconhecer; à míngua da cor exacta, da forma ideal, da marca dos afectos idealizados.
Dos anjos.
Dos anjos voando junto dos meus ombros.»
†
A Senhora Condessa vai perdoar-me, mas se fosse a Vossa Excelência, estando tão perto de chegar a hora do parto, não viajava para Marselha. Se tivesse a condição da Senhora Dona Leonor ficava deitada na minha bela cama a arrastar a preguiça; mas caso teimeis em partir, levai-me convosco, pois se estou aqui é para vos ajudar a parir. Será então melhor eu seguir com Vossa Senhoria, não vá acontecer as águas romperem, o cordão embaraçar-se no pescoço da criança, ou esta descer por dentro de vós querendo sair de pés para a frente e não com a cabeça. Desculpai-me a franqueza, minha Senhora Dona Leonor, mas tenho para mim que mulher nenhuma deve encontrar-se só em ocasião tão custosa de passar, enrodilhada no medo, que quando aparece rasteja nos lençóis aumentando as dores que com o tempo só pioram, sobretudo nas cruzes.
Há ainda os humores, Senhora Condessa, e Vossa Mercê sabe disso pois como já vos nasceram quatro filhas conheceis o trato com os sangues, com as águas mofentas, com as urinas, os suores e os vómitos azedos. Há quem diga ser o meu ofício um trabalho sujo, a fazer-me mergulhar as mãos, os punhos, os pulsos e os braços nos lugares mais fundos do corpo das mulheres, a dar conta das suas cruezas, Senhora Condessa, dos fluxos, das humidades e lodos, parecidos aos que existem no musgo e nas pedras. Mas eu não esmoreço: parir pode não ser coisa limpa nem bonita de se ver, mas é acto de atadura à terra, as pernas escancaradas, as carnes rasgadas, a dor varando as partes baixas como já se passou com Vossa Senhoria, que nessas alturas somos todas iguais, eu como Vossa Excelência e todas as outras.
Relevai-me eu insistir, se levada pela prática tento chamar-vos à razão, a querer impedir-vos de sair de vossa casa, minha Senhora Dona Leonor, que isto de pôr filhos no mundo muitas vezes mata. Não se deve tentar a sorte, Senhora Condessa, nem querer mudar nossos destinos; melhor será iludir a natureza com ardil: pôr a tesoura aberta debaixo da cama para cortar as dores do nascimento, raízes de agrimónia entre os lençóis, queimar rosmaninho contra as vertigens, zimbro para a criança nascer com ligeireza, que desta vez é menino, minha Senhora Dona Leonor, bem descubro os seus sinais na belezura de vossa pele e na barriga redonda e já descida.
Desculpai-me se por descargo de consciência me repito e continuo a rogar-vos que vos aquieteis, deste modo lavando as mãos como Pilatos de qualquer cousa má que vos aconteça. Pudesse eu e aproveitava a mordomia do descanso na quentura das mantas, travesseiras altas no amparo da cabeça à cabeceira do leito, camisa de dormir de linho e rendas, bainha aberta com bordado na ponta, a ver se me erguia!
Atendei o Senhor Conde vosso marido, tão gentil e bom conselheiro, a resguardar-vos por amor da vossa própria teima, da vossa sanha em vos perderdes a vós mesma, perdoai-me o desaforo de me meter onde não sou chamada,
ao pretender-vos deitada no sossego,
minha Senhora Dona Leonor.
†
O tempo que levam a percorrer os últimos quilómetros de Marselha a Avignon, parece-lhe durar anos; o ar abafado e engrossado pela poeira que os cavalos levantam sufoca-a. Afasta os cabelos da cara e do pescoço, pegajosos de suor, reparando com repugnância como o seu corpo exala um forte e requentado odor acre e azedo, a verdete e ferro do sangue.
Cheiro a nascimento.
Conseguira desatar as fitas do corpete, alargar os cordões do espartilho, desabotoar o vestido. Luvas lançadas a esmo para o chão da carruagem, onde ficam enrodilhadas a seus pés descalços, sapatos jogados para o lado. A barriga é um volume imenso entre os braços que, inutilmente, tentam acomodar o corpo exausto. As contracções, começadas há pouco, chegam e desaparecem a espaços irregulares. A cada solavanco da carruagem fazem uma nova investida, rolando pelo caminho dos rins e das virilhas, a fincarem-se mordentes, a abocanharem-na.
Tacteia o ventre enquanto tenta apartar as pernas, a que as saias húmidas parecem coladas, enrodilhando-se entre os seus dedos ao tentar puxá-las. O espartilho está lasso e a goma do corpete amolecida, sobretudo no sítio onde, antes da gravidez, fora a sua cintura, que ela mal liberta dos atilhos. Mas logo a dor regressa e foge e volta, teimando, insistindo, perseverando, para de novo se escapar, simulando distanciar-se, afundar-se no interior do corpo, joelhos desunidos ainda cobertos pelas meias de seda e pelas culotes brancas; mas já as contracções de novo trepam velozes, ágeis, temíveis, e Leonor a custo sustém o grito, recurvando-se sobre si mesma.
Conta-as uma por uma, memoriza os segundos que levam a passar e a tornarem, tentando sossegar o coração apressado, sem jamais lamentar não ter dado ouvidos à parteira quando esta a prevenira dos perigos da ida a Marselha. Estando sozinha geme alto, permitindo-se ir atrás daquela aflição que lhe rasga as carnes a cada solavanco do carro, rodas a desequilibrarem-se nas pedras irregulares, para em seguida resvalarem na direcção de traiçoeiros buracos camuflados pelos torrões de terra esboroada e seca, cobertos de tojo, de silvas, de dejectos dos cães vadios. Há ainda os trilhos dos pequenos animais, a empeçarem-lhes o andamento.
Aflige-se com a ideia de as águas poderem rebentar, e embora não deseje um parto feito na estrada ou nas matas em seu redor, por onde vagueiam os animais famintos, os assaltantes e os mendigos, não suportando mais aquele infindável balanço da carruagem, bate com os punhos na janela a gritar:
– Parem! Parem!
E logo Thérèse e a parteira acorrem aflitas, humedecendo-lhe a testa e os lábios com uma água amolentada, tépida, que apesar de tudo lhe lava a garganta, iludindo por momentos a secura da boca gretada, dos lábios feridos mordidos pelos dentes. Usando uma pequena esponja tentam tirar-lhe a poeira do colo, do pescoço, do rosto lívido, e isso alivia-a um pouco do calor que a abrasa. Depois a parteira experimenta estendê-la o melhor possível no assento de veludo e, aflita, fica a ampará-la o resto que falta do caminho para casa.
Um vento agreste começa a erguer-se, vindo das matas que ladeiam a estrada, o céu a cobrir-se de pequenas nuvens baixas que parecem atenuar um tudo-nada o brasido do sol, que tira a Leonor a fala e o consolo na sombra abafada da carruagem onde, entontecida, faz por descansar. Dentro de si a criança aquieta-se nos recantos de penumbra; talvez já nem queira tomar rumo em direcção à saída para o mundo. Inquieta, Leonor tenta senti-la afastando as mãos pesadas da parteira que, querendo acalmá-la, lhe garante avistar as muralhas de Avignon na dobra do caminho.
Quebrantada, adormece durante a breve pausa que as dores lhe concedem, até que uma nova contracção a apunhala, forte e decidida, brutal e rápida, como se uma lâmina afiada lhe retalhasse o ventre, enquanto um líquido amarelado viscoso, com um intenso cheiro a amoníaco, lhe trespassa a roupa amarfanhada e escorre, grosso, ao longo das pernas afastadas.
†
– É preciso fazer mais força, Senhora Dona Leonor! – pede a parteira debruçada entre as suas pernas, as mangas subidas e enroladas acima dos cotovelos, braços ensanguentados e tensos, mãos acertivas, sabedoras, calejadas e apesar de tudo ternas.
– Mais força, Senhora Condessa! – roga também Thérèse, arrimada à cabeceira da cama, amparando-a nas grandes almofadas de onde se soergue.
Entontecida, gostaria de encontrar alguma frescura no ar saturado dos cheiros a sangues, a mucos, a incenso, a fumos perfumados de zimbro, jasmim e salva, para defumar o quarto, uma corrente de odores encorpados com o da cera das velas acesas no oratório,
à Nossa Senhora do Bom Parto.
Ergue-se mais um pouco, apoiada nos cotovelos, e inclina-se tentando fazer força, a querer expulsar a criança que sente avançar a custo dentro da barriga, como se nadasse ou gatinhasse em direcção ao fundo do corpo, ao encontro da vida. O suor encharca-lhe a camisa de linho arregaçada até à cintura, amarrotada e suja dos líquidos, dos fluidos que lhe saem do corpo. E finalmente a criança escorrega, quase escapando ao amparo da parteira, que o agarra pelos pés e, olhando-lhe o sexo, grita com regozijo aliviado:
– É um menino! É um menino, Senhora Condessa! Eu bem vos dizia que ia ser um menino!
Mas, menino ou menina, nesse momento é-lhe indiferente; a única cousa que sente é um tão grande alívio que acaba por perder o conhecimento.
Onde resvala, desmaia.
Desaparece, adormece.
†
Minha querida Maria
do meu coração
Felizmente a mana escreveu-me. Diante da sua longa ausência, o meu cuidado não podia deixar de aumentar. Acredite, «que o esquecimento da Corte, o embaraço dos negócios, a variedade das minhas consumições não são nada em comparação ao efeito que produz em mim o seu silêncio». Sobretudo porque as reticências colocadas pela mana na última carta, no que dizia respeito à sua felicidade, encheram-me de preocupação. Pudesse eu e partiria para Lisboa a fim de cobri-la de cuidados, Maria, pois ninguém melhor do que eu conhece angústias, dúvidas, anseios e desgostos.
Ultimamente venho recordando os anos de clausura passados juntas, embora me pergunte para quê recordar tempos de desagrado e falta de liberdade, se por certo ainda iremos desfrutar de melhores dias? Cuide-se a minha irmã com gosto, até ficarmos novamente perto uma da outra… Nessa altura serei eu a tomar conta das vossas fragilidades. Por meu lado estou o melhor que posso, tendo em conta a minha vida… Carlos Agrário, o menino que me nasceu, é pequenino, frágil e tão fraco que me dá receio apertá-lo nos braços. Temo que a nossa Rainha D. Maria demore tanto a enviar a procuração necessária para ser sua madrinha que, quando ela chegar, seja demasiado tarde… Faremos o baptismo do menino o mais rápido possível; anseio por ver o meu filho usar o vestido de cassa branca que a nossa Mãe me enviou, pelo motivo sentimental de o mano Pedro o ter usado, e agora o teu filho José.
Como tarda o dia, minha irmã, em que voltarei a ver-te e a apertar-te nos braços!
Beijos de muito amor e carinho,
da mana que tanto te ama
L.
Avignon, Julho de 1785
†
Como olhar-te nos olhos, Leonor, ao acabares de me dar um filho homem, que me esgueiro de ti para ir jogar? Sem conseguir evitar o remorso quando me permites descer nessa tua fundura de anil e lápis-lazúli, cegando de tanta fulgente luz de asa alada? Mais claridade de diamante do que de lâmina de faca.
Como dizer-te Leonor, ao acabares de me dar um filho homem, das minhas passageiras e fúteis aventuras? Da vertigem de me entregar ao risco de apostar tudo em troca da própria perda, queda na intensidade da vergonha sentida, minha única, neste mesmo jeito de Abelardo tratar Heloísa?
Como contar-te Leonor, ao acabares de me dar um filho homem, aquilo que faço e despedaço, derrubando-me à toa? A enredar-me noutras vidas fora da tua, a embaraçar-te os dias no sobressalto. Tu que, sendo incêndio, afinal me apaziguas, me iluminas, mas de mim já te afastas sem ainda o saberes.
Como confessar-te Leonor, ao acabares de me dar um filho homem, as minhas paixões e fraquezas, certo de preferires o herói que eu não sou? Como afirmar-te que me arruíno, me desacerto, me obstino, me agravo no próprio agravo, apesar de tanto prezar a minha honra, mas por demais constante no vacilo.
Como revelar-te Leonor, ao acabares de me dar um filho homem, que a única maneira de te salvares, minha rola, será partires? Pois sou demasiado fraco para resistir aos jugos da vida que me arrasta, me destrói e empurra para o precipício, a teimar na culpa, cada vez mais duvidando de mim em quase tudo.
†
Meu querido Pai e meu Senhor
do meu coração
A viagem do Conde meu marido a Portugal está aprazada para o final deste mês de Agosto. Muito agradecia a Vossa Excelência, caso vos fosse possível, que ao chegar aí Carlos Augusto o ajudeis a encaminhar a nosso favor os negócios que irá tratar em audiência com Sua Majestade a Rainha D. Maria. Seria muito bom se os ministros Aires de Sá e Melo e Martinho de Melo e Castro ficassem do nosso lado. Mas Vossa Excelência não deverá deixar de ter em conta o facto de este último ter sido, desde o início, contra a entrega ao meu marido do posto de embaixador em Viena.
O ideal seria se o Senhor meu Pai conseguisse chegar directamente à Rainha. Nesse caso, poder-se-ia encarar com a maior tranquilidade o nosso futuro pois, como tudo leva a crer, Sua Majestade escutaria Vossa Excelência usando a boa vontade com que sempre beneficiou a nossa família.
Obrigo-me a confessar-vos com apreensão e desconfiança a pouca possíbilidade de alcançar a justiça almejada, dado serem muitas as intrigas a nosso respeito, com todas as suas mentiras, insinuações e ciladas. Neste caso, todo a atenção e cuidados serão poucos. Por isso estou ciente ir Vossa Excelência entender a minha extrema preocupação, se tiver em conta a falta de habilidade do Conde para enfrentar as traições e mesquinharias da Corte, não sabendo ele mover-se pelos meandros do Paço. Isto agravado pelo entrave da língua, impedindo-o de entender e de se expressar em português com suficiente clareza, sentindo-se estrangeiro em tudo e não se prendendo a nada a não ser à minha pessoa.
Pudesse eu partir para aí em vez dele! Mas enquanto o coração me pedia que fosse, a razão impunha-me que ficasse. Como já vos escrevi um dia: «Quantas incoerências me acha sempre o Senhor meu Pai!»
Talvez no futuro ainda eu consiga fazer alguma cousa que vos contente, e me redima ao vossos olhos complacentes.
Esta filha a mais terna,
L.
Avignon, 15 de Agosto de 1785
†
Carlos Augusto parte numa madrugada enevoada,
ainda toldada pela noite.
Vai contra-vontade, reticente e tão embaraçado por não ter dado cumprimento à missão de que fora incumbido pela Rainha D. Maria, que não sabe como irá expor à Soberana as suas razões e menos ainda como fazer-lhe os pedidos que o levam a Portugal, país onde continua a ser e a sentir-se um estrangeiro. Consciente de que nem mesmo o sogro estará do seu lado, ressentido ainda por ele ter casado com Leonor, contra a sua vontade.
Há também Leonor Benedita, filha deixada para trás ainda no berço, e que Carlos Augusto teme apertar nos braços: pequena desconhecida, a quem nem a memória o liga.
Sem nó nem laço que um ao outro ate.
Para trás ficou Leonor, e longe dela ele sente afundar-se.
†
Os Necker, de regresso a Paris, passam de novo por Avignon onde voltam a ser recebidos pelo duque de Brancas com o fausto habitual. Os festejos culminam com um baile de gala no Palácio dos Papas, durante o qual Germaine confessa impaciente a Leonor estar a aborrecer-se de morte, apesar de ter dançado toda a noite com o duque de Cumberland, irmão do Rei de Inglaterra, que a galanteia com gosto e persistência.
– Prefiro a vossa companhia, minha amiga! – garante com acinte, ao sentir-se induzida pelos pais a aceitar-lhe a corte.
Por seu lado, presa de grande inquietação, Leonor, que parece procurar alguém no enorme Sala dos Espelhos iluminado pelas centenas de velas dos caprichosos lustres de cristal, não foi para Germaine nem boa companhia nem grande conforto.
†
Philippe Tournier guardará para sempre na memória o seu perfume de gardénia, odor louro e lento e leque e lastro matizado de rosa damascena; mas também o olhar de opala, a boca suave e dúctil, o langor dos pulsos, as longas mãos que mal se aquietam no tépido regaço de cetim. Desde que lhe fora apresentado no palácio do duque de Brancas, ele não consegue tirá-la do coração nem dela afastar o pensamento. Os poemas que escreve são agora inspirados por Leonor de Almeida, tal como os de Petrarca foram por Laura.
Ao cruzarem-se a cavalo enquanto passeiam pelas matas e pelos bosques que rodeiam Avignon, cumprimentam-se furtivos, mãos enluvadas segurando as rédeas curtas, demorando os olhares um no outro mais do que deviam. Depois seguem em direcções opostas, por entre as árvores frondosas e os arbustos silvestres, seguindo desatentos o trilho das raposas douradas, buscando ora a sombra ora a clareira pelos carreiros atapetados das folhas vermelhas do outono, de caruma seca, de silvas e das agulhas escuras dos pinheiros bravos.
Moram perto um do outro, e todas as semanas se encontram nos empobrecidos salões literários, tristes restos da antiga efervescência cultural de Avignon, onde os raros frequentadores se recusam a discutir as novas ideias que vão chegando: a mudar, a chamear o pensamento e as artes. Ali não se deseja escutar o sussurro que rumoreja dentro delas, fechando-se os ouvidos aos clamores da mudança e os olhos aos fulgores e aos relâmpagos que pretendem rasgar a ignorância e o negrume dos dias, que são apenas o absurdo e vazio eco uns dos outros.
Muitas vezes as vozes de Leonor e de Philippe encontram-se, unem-se na contestação das velhas e retrógradas posições, que consideram escandalosa e impiedosamente ultrapassadas. Leonor defende Voltaire e Rousseau, Philippe prefere Diderot e d’Alembert. A Encyclopédie fez parte essencial da formação de ambos.
Amam de igual modo Goethe e Schiller.
Cada um deles sabe que o outro faz poesia.
OceanofPDF.com